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Queimadas na Amazônia em setembro atingem o pior número dos últimos 12 anos

No mês, foram computados quase 41 mil focos, número 143% maior do que setembro de 2021. Problema não é tratado nos Planos de Governo de presidenciáveis

Cristiane Prizibisczki ·
30 de setembro de 2022

O fogo continua a castigar a Amazônia. Somente em setembro, foram contabilizados 40.797 focos de queimadas no bioma, o maior número dos últimos 12 anos para o período. A quantidade de focos registrados é 27% maior do que a média esperada para o mês (32.110) e 143% maior do que o número de queimadas no mesmo período em 2021, quando foram contabilizados 16.742 focos. Os dados são do Programa Queimadas do Instituto de Pesquisas Espaciais e foram atualizados na noite desta sexta-feira (30).

No acumulado do ano, a Amazônia já registra 86.819 focos, número 15,6% maior do que todas as queimadas computadas no bioma em 2021 (75.090). Historicamente, o número de focos de incêndio tende a crescer em ano eleitoral, devido ao afrouxamento das ações de comando e controle. 

Isso é o que tem acontecido em 2022, mesmo sendo este um ano relativamente úmido para o bioma, como explica a Diretora Adjunta de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), Patrícia Pinho.

“O que a gente observou é que ano passado teve até uma relativa diminuição dos focos, mas não por ações governamentais ou ações de controle, foi justamente porque tivemos uma Amazônia mais molhada. Esse ano também está sendo relativamente úmido, mas daí entra o fator eleitoral, que faz o número crescer”, disse, em entrevista a ((o))eco.

De acordo com a Sala de Situação da Amazônia, outra ferramenta de monitoramento do INPE, o estado que mais registrou queimadas no mês foi o Pará, com cerca de 13 mil focos, sendo que 47% deles ocorreram em áreas protegidas ou não destinadas – Terras Indígenas, Unidades de Conservação, Áreas de Proteção Ambiental, Florestas Públicas Não Destinadas e polígonos sem situação fundiária definida.

O segundo estado com maior número de focos foi o Amazonas, com cerca de 8,8 mil focos no período. Neste estado, as Terras Indígenas e Unidades de Conservação somaram 7,4% dos focos. O destaque foi para as Florestas Públicas Não Destinadas e áreas sem definição fundiária, que contabilizaram 42% dos focos de queimadas em setembro nesta unidade da federação.

O terceiro estado com maior número de focos foi o Mato Grosso, com cerca de 8 mil queimadas registradas em setembro. Cerca de 50% ocorreram em áreas públicas, com destaque para as áreas ainda sem destinação fundiária, que acumularam 31% dos focos de calor.

“A maioria dos focos de calor, além das áreas privadas, também estão acontecendo muito nas florestas públicas não destinadas, nas áreas sem informação [fundiária], unidades de conservação e terra indígena, representando quase 50% de quase todos os focos […] O afrouxamento das legislações e o também o incentivo à ilegalidade, o incentivo dessa agenda que é favorecer a grilagem de terras públicas e implementar sistemas de agropecuária, estão entre os principais fatores para essa situação”,  explica Patrícia Pinho.

Queimadas nas Eleições 

Levantamento realizado por ((o))eco mostrou que o tema das queimadas é totalmente negligenciado pelos principais candidatos à Presidência da República nas Eleições 2022.

Nos Planos de Governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) não consta nenhuma menção às palavras “queimada(s)”, “fogo” ou “incêndio(s)”.

Entre os quatro melhores colocados nas pesquisas eleitorais, apenas o candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) fala do problema em suas propostas. Em seu Plano de Governo, as palavras “queimada(s)” e “incêndio(s)” aparecem 14 vezes, em contextos ambientais.

Ao falar dos resultados – positivos, segundo o candidato – da operação Guardiões do Bioma, o documento diz: “Entende-se que na gestão 2023- 2026 é necessário dar continuidade e ampliar esta operação para todos os biomas, além de promover ações de prevenção de incêndios, por meio da ampliação do número de brigadistas e do desenvolvimento de programas de brigadas voluntárias”.

A realidade se mostra contrária, no entanto. Os números do desmatamento e queimadas explodiram durante a gestão Bolsonaro, mesmo com a implementação da Operação Guardiões do Bioma. 

Como mostrou ((o))eco em maio deste ano, além de não apresentar bons resultados nas etapas anteriores, o governo manteve sob sigilo os eixos de atuação da Operação este ano, mesmo sob o custo de cerca de R$ 175 milhões.

Para Patrícia Pinho, do IPAM, a ausência de um tratamento mais direto para o problema das queimadas nos Planos de Governo é “péssima”. 

“O que a gente está falando é que, primeiro, temos uma crise climática global: a ciência é inequívoca em apontar como a gente já ultrapassou nossos limites planetários seguros. O Brasil, ao queimar e desmatar uma floresta úmida, está favorecendo o modelo retrógrado de desenvolvimento. Isso é nadar contra a corrente.”

  • Cristiane Prizibisczki

    Cristiane Prizibisczki é Alumni do Wolfson College – Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde participou do Press Fellow...

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