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Se INPE faltar, sociedade civil está preparada para monitorar desmatamento no Cerrado

MapBiomas anunciou nesta segunda-feira (10) que possui sistema de alertas pronto para entrar em atividade. Diretor do INPE garante que não haverá apagão de dados no Instituto

Cristiane Prizibisczki ·
10 de janeiro de 2022

O Projeto MapBiomas informou, na tarde desta segunda-feira (10), que possui um sistema de alertas de desmatamento para o Cerrado preparado para entrar no ar imediatamente, caso o monitoramento da supressão vegetal no bioma realizado pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) seja de fato descontinuado.

Na última semana, veio a público a notícia de que a falta de verbas estava forçando o INPE a encerrar os programas PRODES e DETER Cerrado. A equipe do programa já teria sido desmobilizada e os dados oficiais da destruição do bioma seriam gerados somente até abril, conforme noticiou ((o))eco.

PRODES e DETER Cerrado eram mantidos, desde 2002, com recursos de um convênio com o Banco Mundial que expirou recentemente. Apesar dos inúmeros esforços dos servidores envolvidos nos projetos de monitoramento, o INPE não conseguiu assegurar os R$ 2,5 milhões necessários para manter os trabalhos em 2022. O valor é equivalente ao que Bolsonaro gastou em 18 dias de férias no Guarujá, no ano passado.

A notícia ganhou manchetes nacionais e internacionais, com muita repercussão negativa. “O apagão de dados do Cerrado era uma possibilidade real desde o ano passado. O governo sabia do risco e decidiu não agir, o que só permite concluir que, mais uma vez, se trata de uma ação deliberada do regime Bolsonaro para impedir que a sociedade tenha acesso a informações cruciais, como fez com os dados de Covid”, disse Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. 

“Não é verdade”

Na manhã de sábado (8), o atual diretor do INPE, Clézio De Nardin, garantiu que o monitoramento do Cerrado não vai parar. Em vídeo postado nas redes sociais, ele criticou a imprensa e disse que, na verdade, o programa de monitoramento será ampliado.

 “[o fim do monitoramento do Cerrado] Não é verdade. Pelo contrário. Estamos ampliando o monitoramento dos biomas brasileiros. Agora ele se chama ‘Biomas-BR/MCTI’ e nós vamos monitorar todos os biomas brasileiros. O que se encerrou foi um financiamento do FIP para o bioma Cerrado. Agora estamos buscando recursos através do Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia para continuar esse programa. Temos recursos até abril e, sendo aprovada a LOA 2022, teremos recursos através do MCTI para mais quatro anos. Ou seja, estamos expandindo o programa de biomas”, disse o diretor.

O último dado do PRODES Cerrado, publicado sem alarde no site do INPE no dia 31 de dezembro, mostrou um aumento de 7,9% na devastação do bioma entre agosto de 2020 e julho de 2021. No período, 8.531 km2 de Cerrado foram desmatados, quase tudo para ceder lugar a pastagens e monoculturas como a soja.

“Mesmo que o governo enterre o sistema do INPE, os brasileiros e o resto do mundo saberão o que está acontecendo no Cerrado. Também como ocorreu com os números de Covid, reportados por um consórcio de veículos de imprensa, a tentativa do governo de esconder a informação não vingará. O Brasil é maior do que Bolsonaro e seus desmandos”, concluiu Márcio Astrini, do Observatório do Clima.

  • Cristiane Prizibisczki

    Cristiane Prizibisczki é Alumni do Wolfson College – Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde participou do Press Fellow...

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Comentários 1

  1. Natalia diz:

    Realmente nosso país é organizado e quando necessário pode contar com profissionais ótimos que assumem a bronca, sem precisar contar com o estado (graças a deus neh). A desvantagem é a ausência de obrigatoriedade em apresentar os dados integrais, sem contar que ao longo de seu percurso pode haver desmembramento de informações. Na prática gostaria de saber se o consórcio de veículos da imprensa é obrigado a me fornecer os dados brutos que eles levantaram do covid? E com relação ao meio ambiente, os novos responsáveis disponibilizarão assim tranquilamente suas informações quando preciso, os órgãos ambientais terão acesso livre?