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Série percorre as paisagens naturais do litoral brasileiro em 8 episódios

A série “Brasil Selvagem: Costa Brasileira” estreia hoje (16) às 21h45 no NatGeo e ((o))eco entrevistou o produtor da série sobre o papel do audiovisual na sensibilização ambiental

Duda Menegassi ·
16 de julho de 2020 · 1 anos atrás
O Parque Nacional Marinho de Abrolhos é um dos destaques da série. Foto: Brasil Selvagem/NatGeo

Os 8 mil quilômetros do litoral brasileiro são o protagonista da série “Brasil Selvagem: Costa Brasileira”, produção do National Geographic que estreia na noite desta quinta-feira (16). Na viagem em busca dos locais onde a natureza ainda resiste soberana, a série documental percorre diversas unidades de conservação marinhas e costeiras, como os parques nacionais de Abrolhos, Fernando de Noronha e Lagoa do Peixe. Imensidões de mar, ilhas, praias, recifes, costões rochosos invadem a tela junto com peixes, aves, baleias e outros habitantes do litoral.

Às 21h45 vai ao ar o primeiro episódio no NatGeo, que percorre as dunas e lagoas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, no nordeste do país. Cada episódio é estruturado em torno de um ecossistema e apresenta não só a fauna e a flora, mas também os trabalhos de conservação e de pesquisa feito por pessoas engajadas na proteção desse patrimônio natural. Oito episódios completam a aventura pela costa desta que é a 3ª temporada da série Brasil Selvagem.

A série é produzida pelo fotógrafo de natureza, Christian Dimitrius, e ((o))eco conversou com o fotógrafo para saber um pouco sobre os bastidores da série da importância de iniciativas como essa no audiovisual para divulgação científica e sensibilização ambiental.

((o))eco: Como fotógrafo de natureza que tem a oportunidade de percorrer essas áreas naturais e retratá-las para um público maior, como você entende a importância de uma série como essa para sensibilização ambiental e divulgação científica?

Christian Dimitrius: Uma das minhas principais missões é fazer com que as pessoas se apaixonem pelo planeta através das imagens e das histórias que a gente conta nesses documentários. As pessoas, uma vez apaixonadas, vão passar a se interessar mais e automaticamente cuidar e buscar mais informações também. Nós tivemos um capricho muito grande na série pra contar uma história de um animal ou de um lugar de uma forma bonita e emocionante. Não só colocando informação, mas colocando emoção para as pessoas se conectarem com esses animais e com o lugar. Apresentando esses lugares de uma forma mais artística, com uma linguagem mais cinemática e uma história mais de drama, as pessoas vão se conectar. E fazemos isso respeitando o conhecimento científico, a gente não inventa uma história. A gente pega aquele comportamento, uma pesquisa científica e transforma numa história, num drama. O conhecimento científico e as informações sobre o animal são colocadas no meio da história. Essa divulgação é feita em paralela ao lado artístico. E nós também colocamos na série o trabalho dos pesquisadores, pessoas que vivem nesses lugares do Brasil selvagem, então nós também estamos divulgando diretamente a pesquisa científica feita na costa. Inclusive a gente tem um episódio dedicado a essas pessoas que se chama “Guardiões da Costa”, no qual ao invés de focar nos animais, a gente foca nos pesquisadores e nas pessoas que trabalham diariamente para proteger o meio ambiente.

Série percorre áreas costeiras de dunas e manguezal. Foto: Brasil Selvagem/NatGeo

Quais áreas protegidas vocês percorreram na série?

Foram várias. Começando pelo Parque Nacional da Lagoa do Peixe e a Estação Ecológica do Taim, ambas no Rio Grande do Sul; subindo pro Parque Estadual da Ilha do Cardoso, o Refúgio de Vida Silvestre de Alcatrazes e a Área de Relevante Interesse Ecológico Ilhas da Queimada Pequena e Queimada Grande, no litoral norte de São Paulo; mais para cima, a Reserva Extrativista de Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro; o Parque Nacional Marinho de Abrolhos, na Bahia; e aí no litoral do nordeste tem a Área de Proteção Ambiental dos Corais, entre Pernambuco e Alagoas; o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha; e no Maranhão, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses e a Reserva Extrativista Cururupu. E outro objetivo da série é que as pessoas ao assistirem, busquem conhecer pessoalmente esses lugares porque uma coisa é ver na televisão, mas ver ao vivo é sempre mais legal. Vendo ali na série, se planejem para ir a esses lugares. E ao chegar lá, olhem para natureza de uma forma diferente. O Brasil é um dos lugares mais espetaculares do mundo e tem muita coisa para ser conhecida.

E algum desses lugares naturais te sensibilizou de uma forma mais urgente com relação à necessidade de proteção por estar muito ameaçado?

Sim, vou citar dois exemplos que são praticamente os mesmos problemas. Noronha é um. Que é um parque nacional belíssimo e um dos lugares mais bonitos do mundo e eu acho que o turismo está super exagerado lá. É um turismo diferente, que não é um turismo de parque nacional, e que está cada vez mais presente e eu acho que isso pode ser um problema para ilha. E acho que é um lugar que merece um olhar mais atento. A ilha está crescendo muito rápido e de forma desordenada. Um lugar sensível como uma ilha oceânica, onde há várias espécies endêmicas, se a gente começa a ver esses problemas de cidade ocorrendo na ilha, merece ficar atento. E a mesma coisa em Arraial do Cabo, que é um lugar espetacular de belezas naturais e que está muito ameaçado devido também ao crescimento imobiliário desordenado que está cada vez mais presente. E isso você vai vendo ao longo da costa. Por exemplo, no nordeste a gente não conseguia encontrar área natural, a gente tinha que andar, andar, andar, passar por alguns terrenos, para chegar numa área que a gente poderia chamar de selvagem. A costa merece um pouco mais de cuidado, principalmente em parques. Os caras lutam para manter e frear o crescimento imobiliário. Toda a nossa costa tem esse mesmo problema de crescimento prum turismo que não é sustentável nem de apreciação da natureza, e quer replicar um modelo de Barra da Tijuca [no Rio de Janeiro] e Balneário Camboriú [em Santa Catarina] na costa inteira. Estilo ‘Miami Beach’. E eu acho que esse não é o futuro pro Brasil. A gente já tem isso. A gente precisa focar na natureza que eu acho que vamos ganhar muito mais com isso.

Na série vocês chegam a mostrar essas ameaças ou projetos e possíveis soluções para conservação?

Na verdade, esse não é o propósito da série. Nossa ideia é encantar o público com as belezas, mas a gente nunca deixa de citar uma ameaça ou mencionar alguma forma de conservação. Mas o foco maior sobre conservação mesmo está no episódio 8, que é chamado “Guardiões da Costa”, em que a gente mostra o trabalho de vários pesquisadores que trabalham na conservação: do Tamar, do projeto Baleia Jubarte, do projeto de aves de Noronha. O episódio de Mata Atlântica também, que é o episódio 6, na Costa Verde. Como a Mata Atlântica está ameaçada, a gente fala muito mais de conservação e de problemas do que nos outros episódios. Onde era necessário, a gente pincelou mais o tema de sustentabilidade e conservação, mas de maneira geral a série é mais focada em revelar as belezas e as jornadas dos bichos do que falar da parte ruim.

Você tem uma longa experiência como fotógrafo de natureza e com certeza já viveu e registrou momentos incríveis. Mas houve algum momento nas filmagens dessa temporada que te marcou?

Uma imagem que marcou bastante foi no final, no último dia das filmagens no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos. Eu queria uma imagem das baleias, de uma baleia pelo menos, com as ilhas de fundo. Porque normalmente a gente via elas mais no caminho, então não tinha as ilhas e as baleias. E nós já tínhamos terminado de filmar, tinha dado tudo certo, sido ótimo e a gente estava deixando a ilha e nós encontramos um grupo de acasalamento de baleias. São vários machos brigando, aquela loucura que é, e em formação, a fêmea na frente. Eles fazem uma formação parecida com a de aves voando – e a gente conseguiu filmar tudo, com drone, com as ilhas, sem as ilhas. Cenas impressionantes do grupo de machos nas águas de Abrolhos. Esse foi um encontro que marcou e foi para coroar a nossa primeira expedição.

A cena das baleias em formação junto às ilhas foi uma das que mais encantou o fotógrafo. Foto: Brasil Selvagem/NatGeo

Como fotógrafo de natureza o que você quer inspirar nas pessoas e como o seu próprio trabalho te transformou?

O que eu quero passar para as pessoas é justamente o que meu trabalho me ensina: é a paixão que eu tenho pela natureza e o quanto a natureza pode ensinar para gente. Quando a gente se conecta com a natureza, aprende com ela e entra no ritmo, as coisas funcionam muito melhor. Até para filmar, eu sempre falo que a gente não pode impor o nosso ritmo à natureza, a gente tem que entrar no ritmo, observar, entrar em sintonia com ela, e aí as coisas começam a acontecer de forma mais harmônica. Eu espero que as pessoas realmente mudem a forma como olham para natureza, tentando se conectar de uma forma diferente. Não se sentir acima, mas ao lado ou parte da natureza. Tudo é natureza. E o objetivo é esse: fazer com que as pessoas se conectem da mesma forma que eu me conecto para trazer essas imagens. E aprender com a natureza porque ela tem muito a nos ensinar, basta a gente ficar atento e escutar para que a gente possa viver em equilíbrio com nosso meio.

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Comentários 1

  1. jtruda diz:

    Excelente série e excelente entrevista! O Brasil precisa de gente como Cristian Dimitrius e João Paulo Krajewski para desvendar para o grande público o patrimônio natural que estamos destruindo de forma insensata. Merecem todo nosso apoio e divulgação!