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UERJ oficializa a criação da Universidade do Mar da Baía de Guanabara

Construído a partir de uma coalizão entre ciência e sociedade, o projeto visa à busca de soluções para a baía mais populosa e degradada do estado do Rio de Janeiro

Elizabeth Oliveira ·
28 de março de 2022

A Baía de Guanabara terá uma universidade para chamar de sua. Com cerca de 70 adesões institucionais, conquistadas ao longo de aproximadamente quatro anos de mobilização de cientistas, ambientalistas e organizações da sociedade civil, a proposta de criação do Programa de Extensão Universidade do Mar foi oficializada na semana passada com a assinatura pelo reitor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Ricardo Lodi Ribeiro.

Liderada pela Faculdade de Oceanografia da UERJ, pelo Movimento Baía Viva e pela Associação de Moradores de Paquetá (Morena), a Universidade do Mar buscará soluções integradas para os problemas da Baía de Guanabara, a partir de uma rede de parcerias, como mostrou a reportagem publicada em junho de 2021, em ((o))eco. Nesse contexto, a ideia é impulsionar as potencialidades socioeconômicas, ambientais e culturais existentes, além de capacitar recursos humanos e promover debates em profundidade sobre os dilemas dessa importante baía urbana fluminense. 

O ecologista Sérgio Ricardo de Lima, cofundador do Movimento Baía Viva e um dos idealizadores da proposta, comemorou a oficialização dessa iniciativa. A partir dessa chancela, ele destacou que as organizações parceiras aguardam a assinatura do Termo de Cessão de Uso da Ilha de Brocoió, em Paquetá, onde será instalado o novo campus avançado destinado aos estudos de disciplinas vinculadas às Ciências e à Economia do Mar oferecidas pela UERJ. Esse próximo passo, considerado fundamental para deslanchar o projeto, segundo o ambientalista, deverá ocorrer, nos próximos dias, durante uma visita técnica do secretário de Estado da Casa Civil, Nicola Moreira Miccione.

A localização da instalação do campus avançado da Universidade do Mar não é por acaso. O espaço escolhido pelas instituições parcerias está situado em uma das regiões mais conservadas da Baía de Guanabara, abrangendo a Zona de Amortecimento da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim e a Estação  Ecológica (ESEC) da Guanabara. Nesse percurso, onde se inserem partes dos municípios de Itaboraí, Guapimirim, Magé e São Gonçalo, ainda existem 80 quilômetros de manguezais protegidos, ecossistema fundamental à manutenção da biodiversidade e ao equilíbrio climático. 

Esse território abriga espécies ameaçadas de extinção como os botos-cinza (Sotalia guianensis), símbolo do Rio de Janeiro. Dados do projeto Mamíferos Aquáticos (MAQUA), coordenado pela Faculdade de Oceanografia da UERJ, indicam que apenas 34 indivíduos dessa espécie resistem às inúmeras pressões urbanas existentes no entorno da Baía de Guanabara, quando no início da década de 1990 existiam cerca de 800.

Por essas e outras grandes preocupações socioambientais, Lima analisa que a oficialização do projeto da Universidade do Mar pelo reitor da UERJ representa “um marco histórico para o Rio de Janeiro e o Brasil”, principalmente, quando se considera a instituição da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o período de 2021 a 2030. Ele ainda ressalta que esse esforço coletivo representa uma esperança “depois de mais de 30 anos de propaganda governamental enganosa com falsas promessas de despoluição da Baía de Guanabara e de gastos bilionários em programas que, na prática, geraram poucos resultados reais para o processo de recuperação ambiental integrada da Baía de Guanabara”.  

Há uma grande expectativa das organizações parceiras pelo processo de Cessão de Uso da Ilha de Brocoió, que está em tramitação na Secretaria de Estado da Casa Civil (SECC), desde setembro de 2021. Nessa ilha, tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), está localizado um palacete construído na década de 1930 por Octávio Guinle. O imóvel é uma residência oficial desativada do Governo do Estado. 

Em entrevista que concedeu a ((o))eco, no ano passado, o professor Marcos Bastos, diretor da Faculdade de Oceanografia da UERJ, havia destacado a importância de criação de um centro de monitoramento ambiental da Baía de Guanabara, localizado em uma área sujeita a várias pressões e capaz de dar suporte às ações de várias instituições com o propósito de mitigar inúmeros problemas locais. “As soluções que serão buscadas, a partir dessa iniciativa de união entre ciência e sociedade que se insere na proposta da Universidade do Mar, vão desde o estabelecimento de inovação, adequação e continuidade nos protocolos de monitoramento, às ações educacionais e de fomento em consonância com as vulnerabilidades encontradas no âmbito deste território”, afirmou o diretor à época.

  • Elizabeth Oliveira

    Jornalista e pesquisadora especializada em temas socioambientais, com grande interesse na relação entre sociedade e natureza.

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Comentários 1

  1. Felipe Ipê diz:

    As Universidades brasileiras primam pela má administração patrimonial: prédios feios, pinturas mal feitas, vazamentos de água, rede elétrica instável, problemas nos alojamentos estudantis… Manutenção predial totalmente amadora – o incêndio do Museu Nacional foi iniciado em uma gambiarra de ar-condicionado. Quem sabe a Uerj aprenda primeiro a gerenciar a si própria, e quem sabe se torne, aí sim, exemplo de gestão pública.