Reportagens

Lixo de rio, luxo de bar

Um boteco às margens do Capibaribe expõe como arte vários objetos jogados no principal rio de Recife. É o Capibar, ponto de encontro da educação ambiental.

Olívia Mindêlo ·
5 de janeiro de 2006 · 20 anos atrás

O rio Capibaribe parece um depósito de achados e perdidos. Tem de tudo: sandália, sofá, botijão de gás, lâmpada e até santo. Faz um bom tempo que o principal cartão postal do Recife, fonte de inspiração de João Cabral de Melo Neto a Chico Science, é também o local preferido da população para jogar fora tudo o que considera lixo.

Incomodados com esta situação às portas de sua casa, o casal Socorro e André Catanhede, moradores do bairro ribeirinho do Monteiro, adota movimento contrário ao da maioria dos recifenses: retira objetos da água e lhes dá utilidade artística. É assim há dez anos, idade do Movimento Recapibaribe, projeto ambiental liderado pela dupla e um dos principais esforços pela preservação da água doce no Recife.

Muitos dos resíduos retirados do rio pelo casal têm destino inusitado: servem para enfeitar o bar comandado por eles, que fica em sua própria casa às margens do rio e se chama Capibar. É também a sede do Recapibaribe. O cenário original abriga também atividades de educação ambiental. Ir ao Capibar não é como sair para qualquer boteco alternativo para tomar uma cerveja. Além de oferecer uma vista bem próxima do rio, o bar expõe os resíduos como relíquia.

Não é muito diferente de conferir instalações em galerias de arte contemporânea, com a vantagem de ganhar uma aula visual de ecologia e sociologia. Já na entrada, é possível ver uma grande variedade de lâmpadas comuns penduradas no teto e bolas feitas com garrafas PET. Nas paredes, acompanhando as escadas, há obras feitas com tampas de ventilador transformadas, bonecas e até uma coleção de televisores antigos pendurados. O único critério comum é que os objetos venham do Capibaribe.

Atualmente, a novidade é uma mostra educativa com latinhas usadas de alumínio e de aço ferroso. A intenção é mostrar a diferença entre uma e outra, e como o segundo tipo tem prejudicado o meio ambiente do bairro, onde moram cerca de 1.400 pessoas. A iniciativa veio depois que o casal constatou, junto com a vizinhança, que as latas de aço ferroso voltaram a aparecer no rio, depois de um tempo de predomínio das latinhas de alumínio. Na exposição, fica clara a diferença: o aço ferroso enferruja em menos de três meses. O alumínio, não.

“As latas de aço ferroso são mais pesadas, baratas e difíceis de serem recicladas que as de alumínio. Os catadores não vêem vantagem nelas. E os pescadores de caranguejo correm risco, porque pescam com as mãos e estão avisando que essas latas podem cortá-los. Elas ficam dentro do Capibaribe e nas margens, apodrecendo com a ferrugem toda”, diz Socorro. Ela já está articulando um projeto, junto com ONGs e estudantes de Direito, para coibir a fabricação e das latas de aço ferroso pelas indústrias. A proposta deve ser enviada à promotoria pública do estado.

Casa de lixo

“A história do nosso trabalho tem tudo a ver com a minha vida. Eu sempre morei às margens do Capibaribe, que sempre foi a fonte de renda da minha família”, conta Socorro, que nasceu em Passira, no interior do estado, e mudou-se para o Recife aos 7 anos. Mas o Capibaribe também passa em sua cidade natal. “Já tomei muito banho no rio e já vi muitas enchentes acontecerem no Recife. Quando eu era pequena, saía com minha avó para pegar peixe de água doce. Achava o rio muito bonito, é como o seio da minha mãe”, recorda.

Já como líder comunitária, levou o marido André, natural de São Paulo, para morar na beira do rio. Desde 1989, eles vêm lutando pela melhoria da qualidade de vida no Monteiro, principalmente pelo saneamento básico. Em 1995, lançaram o Recapibaribe, sob o nome oficial de Movimento para Requalificação do Rio Capibaribe. O Capibar surgiu quase simultaneamente, por ser o ponto de encontro natural do projeto e pela necessidade de geração de renda da família.

“O gestor público dizia: para tirar os esgotos, temos que retirar primeiro o lixo, e para isso precisamos de um bocado de milhão. Aí a gente pegou e colocou um cabo de aço, fez uma barreira de lixo, chamou a comunidade e limpou. Mostramos para eles que não precisa desse dinheiro todo. Basta boa vontade e disposição”, conta André. O cabo de aço atravessando o rio de margem a margem, revestido com folhas de bananeira, chamou a atenção da cidade para o movimento. De 1997 a 2000, os moradores conseguiram coletar – com ajuda de garis e material cedido pela prefeitura – cerca de 600 toneladas de lixo do rio.

“Tiramos a barreira porque ela estava acumulando lixo, causando mau cheiro e doenças. Além disso, perdemos a ajuda da prefeitura e o custo ficou alto. Mas o que é caro para nós é barato para eles”, reclama Socorro. Em 2000, os holofotes se voltaram ainda mais para o Capibar. O casal montou a Casa Capi, uma sátira à Casa Décor, evento que acontecia na mesma época no Poço da Panela, bairro nobre da cidade. A Casa Capi flutuava no rio, decorada com todos os objetos, eletrodomésticos e móveis de uma residência comum. Mas todos reaproveitados do Capibaribe, claro. “Mostramos qual é o ‘luxo’ do rio. A intenção era mobilizar os arquitetos da cidade para se juntarem à gente”, lembra Socorro. A casa ficou cerca de um ano em cartaz. Foi retirada quando começou a poluir o rio.

“Mas nosso movimento não é só a coleta de lixo. Nos dedicamos mais à educação ambiental”, diz André. No período de aulas, eles recebem alunos das redes pública e particular para falar sobre o rio. O sonho é criar um barco-escola, com instrutores da própria comunidade. “A gente tem muito amor pelo Capibaribe ainda, porque ele tem muita vida, é muito resistente”, diz Socorro. “Mas precisa retirar o esgoto”, completa André. “É fundamental para ajudar o rio a respirar. E esta função não é nossa, mas do poder público”.

* Olívia Mindêlo é jornalista em Recife e assessora de imprensa da agência Comunniqa. Colabora com a revista Continente Multicultural.

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