Reportagens

Flora virtual

Mais completa obra sobre a flora brasileira fez 100 anos e ganhou a internet. Informações de mais de 22 mil espécies botânicas estão ao alcance de um clique.

Redação ((o))eco ·
5 de maio de 2006 · 16 anos atrás

Há exatos cem anos eram finalizados os 15 volumes de uma das maiores obras botânicas do mundo e a mais completa referência que se tem hoje sobre as plantas do Brasil, a Flora Brasiliensis. Em março de 2006, as 22.767 espécies botânicas reunidas na obra tornaram-se acessíveis num clique de mouse, graças a um site coordenado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A história desta obra começa bem lá atrás, em 1817, com o casamento da arquiduquesa austríaca Leopoldina com o futuro imperador Dom Pedro I. Como parte do dote da duquesa, foi financiada pelo rei da Baviera uma viagem de naturalistas e cientistas europeus ao Brasil. O objetivo da expedição era coletar material da flora brasileira e relatar à Europa o que havia por aqui. No grupo que chegou ao Rio de Janeiro em 15 de julho daquele ano estava o botânico austríaco Carl Friedrich von Martius.

A fascinação que a vegetação dos trópicos exerceu sobre Martius levou o botânico a se separar do grupo e empreender sua própria viagem junto com um único acompanhante, o zoólogo e amigo Spix. Foram dez mil quilômetros percorridos a cavalo, a pé ou de barco em três anos, passando por quase todos os tipos de vegetação brasileira. Os dois estiveram juntos em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Piauí, Maranhão e no Amazonas. Separaram-se em Manaus, onde Martius seguiu os rios Solimões e Jupará e Spix subiu pelo rio Negro. Encontraram-se de volta em Belém, em 1820.

O resultado dessa expedição foram 20 mil coletas de espécies de plantas que deram luz à Flora Brasiliensis. “Martius ficou tão fascinado quando fez a viagem que dedicou o resto da vida a completar este trabalho. Antes da Flora Brasiliensis, Martius organizou publicações menores onde fazia comentários sobre a riqueza e a diversidade de nossa vegetação”, revela George Sheperd, professor do Instituto de Botânica da Unicamp e coordenador do site. A Flora Brasiliensis demorou 60 anos para ser finalizada. Spix faleceu em 1826 e Martius em 1868 – 38 anos antes que a obra ficasse pronta.

Do livro para o site

As coletas foram transformadas em litografias – técnica de reprodução de imagens que utiliza um tipo de calcário liso e impermeável. Os desenhos são feitos na pedra com um lápis gorduroso e, depois, passados para o papel, o que preserva ao máximo a autenticidade e os detalhes do material. Agora, todas essas gravuras estão cuidadosamente digitalizadas e disponíveis no site. São 3.811 pranchas que ilustram 6.246 espécies de plantas, 59 de paisagens inteiras, com descrições da vegetação feitas pelo próprio Martius. O total de espécies é de 22.767, sendo que 19.629 foram consideradas nativas e 5.689 exóticas. Toda a estrutura do site foi feita pelo Centro de Referência em Informação Ambiental, o CRIA, uma associação especializada em organização de informações virtuais voltadas para meio ambiente.

“A idéia do projeto surgiu de botânicos que usavam a Flora Brasiliensis para pesquisa, mas achavam complicado lidar com todos os volumes e seu tamanho físico”, conta George. O site, ao contrário, é de fácil navegação. As espécies estão divididas nas suas famílias numa lista em ordem alfabética. Ao clicar sobre elas, aparecem as outras nomenclaturas, como tribos, gêneros, subtribos, subfamílias e nome científico – tudo ilustrado.

As subdivisões trazem ainda informações sobre o volume e página no original da Flora Brasiliensis, para quem quiser procurar à mão. Um ícone em forma de folha leva o leitor às pranchas litográficas correspondentes a cada subdivisão de planta. Essas gravuras podem ser visualizadas em formato de slide show, contam com opção de zoom e podem ser salvas em arquivos pdf ou impressas.

Por enquanto, quem brinca de verdade com o site são os botânicos, pois é preciso já ter um conhecimento mínimo sobre a nomenclatura científica das plantas para encontrar o que procura. Mas o projeto do site prevê uma nova seção para sanar essa limitação. “Vamos oferecer uma introdução para os leigos em que explicamos sobre plantas e vegetações brasileiras, com links para as gravuras. Queremos trazer também imagens atuais da flora brasileira”, conta George.

Outro importante passo para tornar o site mais acessível até para os próprios botânicos é a atualização dos nomes científicos das espécies, que está sendo gradativamente feita. Como a obra é muito antiga, os nomes não seguem as regras atuais de nomenclatura e muitos não são nem mais conhecidos hoje em dia.

Apesar de pouco compreensível para muitos, o conteúdo da Flora Brasiliensis está fazendo sucesso. “São cerca de mil visitas por dia. Fiquei surpreso com essa repercussão. A obra é muito especializada e obscura para a maioria das pessoas”, conta George. “É preciso lembrar que a Flora Brasiliensis ainda é o levantamento mais completo da flora brasileira. Até hoje ele é largamente usado para identificação de plantas”, ressalta.

O endereço da Flora Brasiliensis é http://www.florabrasiliensis.cria.org.br.

Leia também

Notícias
1 de julho de 2022

Em vitória histórica, STF reconhece proteção do clima como dever constitucional

Com placar de 10 a 1, Supremo reconhece omissão deliberada do governo federal na gestão do Fundo do Clima e determina o restabelecimento do mecanismo

Reportagens
1 de julho de 2022

Conferência dos Oceanos traz saldo de acordos, investimentos e novas promessas

Evento organizado pelas Nações Unidas reuniu líderes globais ao longo de cinco dias e contabilizou um total de 10 bilhões de euros acordados para investimentos na economia azul

Reportagens
1 de julho de 2022

Projeto “Trilhas de Criança” reúne famílias para dia na natureza em Santa Catarina

Atividade ocorre uma vez por mês em Florianópolis, com inscrição gratuita. Evento busca possibilitar experiências afetivas no meio ambiente

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta