
Fruto da poluição frenética lançada diariamente na atmosfera e da transformação intensa imposta ao planeta pelas atividades humanas, o aquecimento global promete varrer do mapa uma série de animais e plantas, especialmente espécies já ameaçadas. De acordo com o pesquisador William Laurence (foto ao lado), do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical, porções mais quentes ou mais elevadas do planeta serão especialmente prejudicadas pelas alterações do clima. “O problema afetará muito mais do que os pólos, pinguins ou ursos polares”, disse hoje durante o CBUC, em Curitiba.
Segundo ele, muitas espécies que sofreram com alterações passadas do clima se adaptaram para viver em áreas altas, chegando até o topo das montanhas, que podem ser vistas como bolsões de biodiversidade isolados do restante do planeta. “São espécies muito especializadas, que vivem em gamas muito pequenas de temperatura. Essas espécies têm pouco espaço para se expandir”, ressaltou. Lawrence alerta, por exemplo, que o gambá-branco da Austrália pode se tornar uma vítima do aquecimento do planeta. O pesquisador conta que uma onda de calor fez com que a espécie ficasse cinco anos desaparecida. Três exemplares foram localizados com muito esforço. “Uma nova onda de calor pode varrê-la do mapa.”
O aumento médio da temperatura não é tão crítico, mas sim os picos repentinos, que provocam mortandades de muitas espécies”, avaliou. Ele também comentou que calor de sobra elevará a incidência de doenças, como o fungo que vem dizimando anfíbios em vários pontos do globo, e que na Costa Rica experimentos mostraram um decréscimo no crescimento das florestas em anos mais quentes. “À medida que o mundo esquentar, poderemos perder ainda mais carbono pelo enfraquecimento das florestas tropicais”.
Com o aquecimento do planeta, tendem a se tornar frequentes cenários com predominância de plantas de crescimento rápido e menor biomassa, em detrimento de vegetação de crescimento lento e maior quantidade de biomassa. O cipó é um exemplo. Estudos indicam aumento no número e na capacidade de desenvolvimento da espécie. Como age como parasita, é capaz de prejudicar o crescimento de suas hospedeiras.
Mas a alta concentração de CO2 na atmosfera tem suas contradições. Na Amazônia e na Bacia do Congo estudos indicam aumento na fotossíntese das plantas, o que eleva a produtividade das florestas, segundo Lawrence. “Se isso estiver ocorrendo realmente, as florestas intactas estariam ajudando a nos salvar de nós mesmos”, disse. O problema é que, com uma fotossíntese mais eficiente, proporcionada pela abundância do CO2, as plantas não precisam abrir tanto seus estômatos, o que modifica em grande escala a evapotranspiração da floresta e o regime de chuvas.
Frente a tudo isso, ele conclui que as incertezas em nossa capacidade de prever o futuro ainda são muitas e as especulações ainda maiores, o que pode servir como argumento para “tomadores de decisão” engessarem ações concretas contra o aquecimento do planeta. Mas, para Lawrence, este deveria ser justamente o motivo para que medidas eficazes fossem tomadas com urgência. “Não saber o que nos espera é amedrontador”, arrematou.
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Smithsonian Tropical Research Institute
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