Reportagens

Dia 05 – A dura vida dos animais silvestres no mundo de homens

Cercados de pastos de braquiária, estradas, ferrovia, nos perguntamos como os mamíferos do Cerrado conseguem se adaptar a tanta mudança.

Adriano Gambarini ·
27 de abril de 2013 · 13 anos atrás
Crânio de um cachorro do mato com um tiro. Fotos: Adriano Gambarini
Crânio de um cachorro do mato com um tiro. Fotos: Adriano Gambarini

Ao longo desta semana temos andado quase sempre em pastos de braquiária, que hospedam grandes grupos de gado nelore, com frequência em disparada. Um pequeno grupo de búfalos enfezados de uma fazenda vizinha tem provocado hilárias histórias com o Fred “Cigano”, derivadas das suas passagens de moto entre eles para checar as armadilhas. O que se vê na região são campos a se perder de vista, onde a pecuária é atividade econômica predominante há uns dois séculos.

Fred Gemesio cresceu aqui e observa desde moleque as pequenas raposas andarem sorrateiramente, desafiando o mundo dos homens e seus pesados animais. A compreensão sobre a forma como os mamíferos daqui, especialmente os carnívoros que estão sendo estudados nesta campanha, sobrevivem num ambiente tão alterado pelo homem é um dos objetivos do Progama de Conservação Mamíferos do Cerrado.

Entre os principais problemas vividos pelas raposas, cachorros-do-mato, lobos-guará e outros animais silvestres, o atropelamento nas estradas e ferrovias é certamente o maior. Já escutei muitos motoristas alegarem que não conseguiram desviar do bicho ali, parado no meio da estrada. Em relação a um trem, concordo. Mas em minha vida, apenas como fotógrafo, posso dizer que estou na estrada há 20 anos (sem contar o tempo regresso dos idos de viajante). E apesar de já ter visto cruzando à minha frente os lentos tamanduás, veado catingueiro, lobo-guará, capivara, cobras, aranhas caranguejeiras e até mesmo cágados, eu nunca atropelei um animal. Então, simplesmente não aceito estas desculpas.

Além disso, uma das constatações dos pesquisadores em relação aos problemas antrópicos é triste, mas verdadeira. Os bichos tem que conviver com a intolerância das pessoas, e sofrer com a caça e envenenamento. Tenho conversado com Fred sobre isto. Ao longo destes anos, ele constatou o seguinte: as pessoas podem até estar ‘nem aí’ com o bicho, desde que não esteja no ‘meu’ quintal. Senão se ouve coisas como: “Porque este bicho vem andar por aqui? Não quero ele não… meto bala mesmo”. Como se o bicho entendesse sobre cercas, divisas e valores econômicos…

No ano passado Fred orientou Mozart de Freitas em sua monografia sobre atropelamentos na ferrovia que corta a região. Durante vários meses, o jovem biólogo caminhou exaustivamente pela ferrovia em busca de carcaças de animais. O resultado é triste, não apenas para as espécies, mas também para os pesquisadores do programa.

Até hoje, aproximadamente 40 raposinhas e cachorros-do-mato foram capturados e 4 lobos-guará. Cerca de 30% deste total já foi dado como baixa. Dois lobos já foram encontrados mortos – um atropelado e outro com fortes evidências de envenenamento. Se pensarmos quantitativamente, é 50% de perdas! Resumindo, números nada otimistas e que poderiam facilmente levar os pesquisadores a uma compreensível desistência.

Mas não é o caso. Eles buscam um estudo a longo prazo, focado neste processo de adaptação das espécies na região dominada por pecuária,. Apesar de ser uma atividade extensiva com a formação de pastagem e perda expressiva de áreas nativas, em relação aos carnívoros, pode-se dizer que é menos prejudicial do que monocultura. Os grandes campos de soja devastando o pouco que resta do bioma Cerrado causam um impacto muito maior às espécies silvestres. Nestes lugares, não há possibilidade de sobrevivência: faltam alimentos, os agrotóxicos dominam as águas e o solo e somem os fragmentos de mata.

Enfim, sem voz e impotentes, os animais se viram como podem.

Clique nas imagens para ampliá-las e ler as legendas.
O outro jeito que as gerações futuras poderão vê-la é este, morta atropelada. Está em nossas mãos.
O outro jeito que as gerações futuras poderão vê-la é este, morta atropelada. Está em nossas mãos.

  • Adriano Gambarini

    Fotógrafo profissional desde 1991. Vencedor do Prêmio Comunique-se, é geólogo de formação, com especialização em história natural e espeleologia, autor de 20 livros e diretor de dezenas de documentários.

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