Reportagens

Captura e soltura, as duas pontas do fio do conhecimento

Com 66 lobos-guará capturados ao longo de oito anos, programa desvenda hábitos que ajudam na conservação dessa espécie do Cerrado.

Adriano Gambarini ·
26 de junho de 2013 · 13 anos atrás
O momento de soltura do lobo-guará fêmea. Fotos: Adriano Gambarini
O momento de soltura do lobo-guará fêmea. Fotos: Adriano Gambarini

Seguimos cedo para a região do Guiné, a cerca de 15 quilômetros da cidade de São Roque de Minas e do Parque Nacional da Serra da Canastra. Ela é constituída tradicionalmente por pequenas propriedades rurais, que vivem do plantio de café e milho, além da pecuária leiteira, em terras que se misturam com remanescentes de campos nativos de Cerrado e tem muitos trechos assolados por erosões gigantescas; voçorocas para nenhum assoreamento botar defeito.

Oito gaiolas construídas especialmente para capturas de lobo-guará estão dispostas em diferentes pontos da região, com a proposta de abranger a maior área possível e assim ter uma ideia do número de lobos que transitam por ali. Além dessas, mais 5 foram instaladas no Parque Nacional. O objetivo: dentro da área protegida, capturar 2 animais para equipá-los com coleira de monitoramento. Nas fazendas, a intenção é recapturar 2 animais que já são acompanhados há dois anos, e assim remover os antigos colares.

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A equipe, composta por Rogério e Valdomiro Lemos (CENAP/ICMBio), Jean Pierre dos Santos (Instituto Pró-Carnívoros) e o veterinário Ricardo Arrais (FMVZ/USP) desperta cedo para se dividir na checagem das armadilhas entre o parque e a zona rural. Caso haja sucesso de captura em alguma das áreas, as equipes rapidamente se comunicam para começar os procedimentos da pesquisa. O telefonema de Jean anuncia uma jovem fêmea capturada na região do Guiné.

Chegamos na armadilha; uma linda fêmea de no máximo 25 quilos nos observa desconfiada, mas ainda deitada, calma. Rapidamente Ricardo procede com a anestesia, e em 15 minutos a pequena loba adormece.

Enquanto Rogerio trabalha na biometria, com medição das patas, corpo, orelhas e dentes, uma série de coletas de sangue para análise epidemiológica são feitas pelo veterinário. O processo não demora mais do que ½ hora, quando a loba é colocada novamente na armadilha para se recuperar totalmente.

Esta é o 66º lobo capturado pela equipe em 8 anos efetivos deste Programa de Conservação. Ao todo foram 316 eventos de captura de lobos, muitos recapturados mais de uma vez, sendo que 59 animais foram aparelhados. E foi justamente a partir de procedimentos altamente profissionais como este que a equipe trouxe à luz do conhecimento uma série de informações inéditas sobre a espécie, permitindo que muitas ações em benefício de sua conservação sejam tomadas em âmbito local e nacional.

Sem mencionar as importantes descobertas sobre ecologia e comportamento do lobo-guará em vida livre, este acompanhamento tem mostrado, por exemplo, sua presença cada vez maior em fazendas, inerente à perda de habitat natural, e provocado um contato progressivo com uma série de doenças típicas de cachorros domésticos, como a parvovirose. Analisa-se ainda quais são seus padrões de movimentação em áreas alteradas pelo homem, por exemplo, até que ponto uma área cheia de voçorocas e pastagens pode ser adequada à sua sobrevivência.

Entretanto, desta vez, a fêmea capturada não prestará este tipo de serviço à conservação de sua espécie. Como planejado para esta expedição, as armadilhas da área rural servem apenas para recapturar dois lobos, ‘velhos conhecidos’ da equipe. Vamos aguardar então.

*São 6:30h e enquanto fecho a matéria, recebo a ligação de Ricardo que um novo lobo, macho, foi capturado no Guiné. Da mesma forma que a fêmea, nenhum colar ou brinco de marcação será instalado.

Clique nas imagens para ampliá-las e ler as legendas.

 

 

  • Adriano Gambarini

    Fotógrafo profissional desde 1991. Vencedor do Prêmio Comunique-se, é geólogo de formação, com especialização em história natural e espeleologia, autor de 20 livros e diretor de dezenas de documentários.

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