Reportagens

Em Rutland Water, feira de avistamento de aves atrai 22 mil “Twitchers”

Evento na Inglaterra cheio de gente com cabeças cobertas por chapéus australianos e exibindo lentes caras mostra a popularidade do esporte.

Patrick Barkham ·
19 de agosto de 2014 · 7 anos atrás
The Guardian Environment Network
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Observadores de aves (ou [i]birdwatchers[/i]) se reúnem para a Birdfair em Rutland. Foto: John Robertson
Observadores de aves (ou [i]birdwatchers[/i]) se reúnem para a Birdfair em Rutland. Foto: John Robertson

O local está cheio de barbudos, chapéus australianos e lentes caras, mas basta mencionar “Twitcher” e este grande rebanho desaparece no meio dos arbustos.

Parecia que nenhum dos 22 mil homens, mulheres ou crianças que estavam no primeiro dia da 26ª Birdfair (feira de aves) anual de Rutland Water, no último fim de semana, admitiria ser um Twitchers (em tradução livre, contorcionista), aqueles avistadores de aves fanáticos, apenas interessados em aumentar a sua lista de aves raras já encontradas.

“Nós somos avistadores de aves (Bird Watchers)”, disse Ken Cservenka. “Os chamados Birders podem ficar sentados assistindo a um grupo de pardais por meia hora”. Mike Smith, amigo de infância de Cservenka, acrescenta: “Nós paramos para apreciar a natureza”.

“Eu tenho uma lista do condado [de espécies de aves], uma lista do Reino Unido e uma lista mundial”, admite Lin Pateman. “Mas nós não iria nos arrancar para o outro extremo do país, por causa de uma mensagem no pager”.

O crescimento espetacular da Birdfair – o equivalente ao Festival Glastonbury dos birdwatchers (avistadores de aves), sonhado pelos naturalistas Martin Davies e Tim Appleton em um pub chamado Finch’s Arms (Braços do Passarinho) demonstra como esta atividade tem se tornado uma paixão comum, longe da perseguição obsessiva de espécies exóticas.

A profusão de barracas que vendem de tudo, desde novos tipos de alimentadores de aves a telescópios Swarovski de 3 mil libras (cerca de R$11 mil), que se parecem com enormes bananas verdes, também mostra quão lucrativo o avistamento de aves se tornou.

Os expositores da velha escola, como os sebos de livro, por aqui desde os tempos em que a Birdfair não passava de algumas tendas, ficam à sombra das empresas de viagens que vendem férias na natureza selvagem em Christmas Island ou no Cazaquistão. Avistadores modernos devem ser uma espécie migratória, a julgar pelos 58 países representados na Birdfair.

Os convites para voar ao redor do mundo em busca de aves raras embaraça naturalistas tradicionais, mas Nick Acheson, um conservacionista e guia para a empresa Naturetrek, defende o conflito entre o ecoturismo e as emissões de carbono.

“Estamos passando por uma crise de biodiversidade que é tão ruim quanto a crise ambiental de carbono”, disse ele. “Não podemos salvar tigres ou muitas outras criaturas se não formos vê-los. Meus amigos na Índia dizem: ‘Continuem trazendo pessoas para cá’. Habitats só são protegidos por pessoas que vão vê-los e deixam dinheiro lá”.

Os lucros da Birdfair são investidos para salvar espécies, a feira já levantou 3,5 milhões de libras (cerca de R$13 milhões) doadas para a conservação mundial desde a sua criação. Expositores como a Naturetrek também financiam a conservação e até mesmo criam reservas naturais.

Enquanto o naturalista Simon King fala com entusiasmo das “avistadas”, ele é visto durante seus passeios guiados por Rutland Water em busca do gavião-pescador, espécie comum na região, mas a maioria dos visitantes “mataria” por avistar Hen Harriers (Circus cyaneus), um outro tipo de gavião que preda pequenos animais terrestres.

“As pessoas estão zangadas com o fato de que há apenas três ou quatro casais reprodutores de Hen Harriers na Inglaterra e deveria haver 330”, diz o ativista Mark Avery, que liderou mais de 500 manifestantes em uma manifestação em Peak District, no fim de semana anterior. “É porque as pessoas os estão afastando, e ninguém quer atirar em um Hen Harrier, a não ser alguém que queira caçar perdiz”.

Avery e Chris Packham – outro veterano da Birdfair – pediram a proibição da caça à perdiz. “Nós não precisamos de tiro à perdiz”, diz Avery. “Isso não acontece em nenhum outro lugar no mundo”.
A Birdfair, e sua expansão, ilustra a polaridade curiosa que faz da Grã-Bretanha a casa de empenhados matadores de animais selvagens, bem como os amantes da natureza mais dedicados do mundo.

Enquanto isso, fala-se do Twitcher máximo, um homem de status quase mítico, que dizem se parecer com um George Michael de 1980, e tem uma “life list” (lista de aves já avistadas na vida) mais longa do que qualquer um.

Esta criatura exótica permanece escondida da vista, mas, finalmente, aparece alguém que não pode negar ser um Twitcher: Brian Egan, da Rare Bird Alert (Alerta de Pássaros Raros), uma empresa que vende aplicativos e serviços de pager (ainda preferidos por sua confiabilidade aos telefones 3G) sobre as últimas aparições de aves raras.

“Todo mundo é um Twitcher, admitam ou estejam no “armário”, declara Egan. “Se qualquer uma dessas pessoas vai para a sua reserva local e alguém diz que há um spoonbill (família Threskiornithidae), eles vão vê-lo. De vez em quando, eu também saio do “armário” e vou ver um pássaro raro”.

 

*Esse artigo é publicado em parceria com a Guardian Environment Network, da qual ((o))eco faz parte. A versão original (em inglês) foi publicada no site do Guardian. Tradução de Eduardo Pegurier

 

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