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Manaus, AM – Se ter pouca floresta já é ruim, pior ainda se o que restou dela estiver dividido, fracionado em pedaços ainda menores. A fragmentação do hábitat aumenta a possibilidade de desaparecimento das espécies, conforme artigo recentemente publicado no jornal científico Proceedings of the Nacional Academy of Sciences (PNAS).
“Muitas regiões florestais, com a Mata Atlântica, na América do Sul, têm sido reduzidas a pequenas frações de sua extensão original e essas florestas estão frequentemente muito fragmentadas”, afirmou o autor principal do artigo, Ilkkla Hanski, da Universidade de Helsinki, Finlândia, para o site Mongabay.com. “Nossos resultados sugerem que, nesta situação, se alguém ignora o efeito da fragmentação provavelmente subestima a extinção”.
O artigo cita trabalho do biólogo Gonçalo Ferraz, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que desenvolve estudos de efeitos da fragmentação sobre a as aves, desenvolvidos no Programa de Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), mantido pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e o Instituto Smithsonian.
De acordo com Ferraz, em florestas que foram muito reduzidas, a configuração da mata restante passa a ser fundamental para a preservação das espécies que vivem ali. “Por exemplo, na Mata Atlântica de hoje, a distribuição espacial da cobertura florestal tem mais importância para a sobrevivência das espécies do que a distribuição espacial da cobertura florestal da Amazônia como ela é hoje”, afirma o pesquisador.
Mesmo sem levar em conta a fragmentação, as previsões feitas pelo modelo anterior, chamado de Relação Espécie-Área (SAR, em inglês), já apontavam que uma redução de 90% na área florestal resultava na extinção local de metade das espécies de aves. Mas este dado pode ser otimista. Os autores do estudo aplicaram outro modelo matemático, que inclui a fragmentação do hábitat nos cálculos, para estimar a perda de espécies na Mata Atlântica, a qual mantém apenas 8% de sua extensão original. Essa nova estimativa é ainda pior, e mais próxima da realidade.
Eles concluíram que a fragmentação tem um efeito elevado em ambientes reduzidos a menos de 20% da paisagem original. Outro ponto levantado pelo estudo é que, quando resta apenas 10% da floresta, a maioria dos animais e aves não são capazes de sobreviver a longo prazo.
Ao levar em conta os efeitos da fragmentação, pesquisadores têm apresentado más notícias para a biodiversidade. Há algumas semanas, com base nos efeitos da fragmentação e as distâncias entre os fragmentos florestais da Mata Atlântica, a equipe liderada pelo professor Gareth Russell, do Instituto de Tecnologia de Nova Jersey, já havia sugerido que o estado de conservação de 28 aves da floresta brasileira fosse reconsiderado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). No artigo publicado em julho, na revista Conservation Biology, os pesquisadores analisaram a situação de 127 espécies, levando em consideração aspectos como a fragmentação do ambiente e a distância entre esses fragmentos.
Os autores liderados por Hanski alertam que a Mata Atlântica não é o único ambiente tropical a sofrer gravemente com a fragmentação. Eles citam também todo o Sudeste Asiático, onde frações da floresta estão separadas por monoculturas, como o óleo de palma, borracha e plantios para produção de celulose. Na África, espécies estão sendo confinadas a pequenas manchas de floresta pelo avanço da agricultura, principalmente no litoral e montanhas da África Oriental.
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