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Caçador que matou o leão Cecil enfrenta clamor por processo

Comoção nos EUA pela morte de leão que vivia em área protegida força dentista que o caçou a fechar consultório. Ele e mais dois podem ser levados à Justiça.

Matthew Weaver · Mahita Gajanan ·
30 de julho de 2015 · 6 anos atrás
The Guardian Environment Network
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O dentista Walter Palmer posa junto a um leão abatido em outra caçada. Ele é acusado de ter pago 50 mil dólares para abater o leão Cecil. Foto: Facebook
O dentista Walter Palmer posa junto a um leão abatido em outra caçada. Ele é acusado de ter pago 50 mil dólares para abater o leão Cecil. Foto: Facebook

Há um clamor crescente para que o dentista americano que matou um dos mais famosos leões da África seja levado à Justiça, enquanto outros dois homens envolvidos na caçada foram chamados a comparecer peranteum tribunal do Zimbábue por acusação de caça ilegal.

Walter Palmer dirige uma clínica dentária em Minnesota e faz caça esportiva de grandes animais. Ele é acusado de matar ilegalmente Cecil, um leão protegido, no Zimbabwe, em uma caçada de 50 mil dólares (cerca de R$ 160 mil).

Theo Bronkhorst, caçador profissional, e HonestNdlovu, um proprietário de terras local, compareceram a um tribunal em Victoria Falls, nesta quarta-feira, 29.

Cecil era uma atração popular entre os visitantes internacionais do Parque Nacional de Hwange. O animal foi atraído para fora dos limites da área protegida por uma isca e, em seguida, foi morto, no início deste mês.

“Ambos, o caçador profissional e o proprietário de terras não tinham licença ou quota para justificar a retirada do leão e, portanto, são responsáveis pela caça ilegal”, afirmou um comunicado do órgão de administração de parques do Zimbábue, na última terça-feira.

A declaração não fez menção a Palmer. Mas a instituição Zimbabwe Conservation Task Force disse que Palmer e Bronkhorst saíram à noite com holofotes e um animal morto amarrado em um veículo para atrair Cecil para fora do parque.

Em declaração ao Guardian, Palmer confirmou que esteve no Zimbábue no início de julho, em uma viagem de caça com arco e flecha. “Que eu saiba, tudo nesta viagem foi dentro da lei e tratado e conduzido de forma correta”, disse.

Nos EUA, ele agora enfrenta pedidos furiosos para que seja processado.

Newt Gringrich, ex-presidente do Congresso americano, tuitou que Palmer deveria ser preso.

Betty McCollum, deputada federal democrata pelo estado de Minnesota, exortou o “Fishand Wildlife Service”, órgão responsável pelo manejo da vida e habitats selvagens, e o Departamento de Justiça a investigarem se a morte do leão violou leis sobre espécies ameaçadas de extinção, de acordo com o Star Tribune, um jornal local.

Enquanto isso, nesta quarta, Tim Eustace, parlamentar estadual de New Jersey, propôs uma legislação que proíba o transporte de troféus de caça (carcaças) de espécies em perigo de extinção através dos aeroportos de Nova York e New Jersey, pode onde passa boa parte do tráfego de viagens entre os EUA e a África.

Hoje, o leão Africano não está listado como espécie ameaçada ou em perigo sob a Lei de Espécies Ameaçadas, dos EUA, embora o Fishand Wildlife Service (Departamento de Pesca e Vida Selvagem), órgão responsável , tenha proposto colocá-lo na lista em outubro.

Kathleen Garrigan, porta-voz do grupo ambientalista African Wildlife Foundation, disse na terça-feira que listar na lei o leão africano como espécie ameaçada seria eficaz, mas que as companhias aéreas privadas também podem ajudar a frear o transporte de troféus de caça.

Manifestantes colocaram animais de pelúcia na porta da clínica odontológica de Palmer, em Bloomington, um subúrbio de Minneapolis. A clínica foi forçada a fechar quando os manifestantes encenaram uma caçada com os animais falsos e pistolas d’água.

A Animal Rights Coalition, um grupo americano de direitos animais, planeja um “protesto pacífico” do lado de fora da clínica de Palmer, na quarta-feira à tarde.

Animais de pelúcia colocados na porta da clínica do dentista Walter Palmer, na cidade de Bloomington, estado de Minneapolis. Foto: Scott Takushi/AP
Animais de pelúcia colocados na porta da clínica do dentista Walter Palmer, na cidade de Bloomington, estado de Minneapolis. Foto: Scott Takushi/AP

Segundo operadores de safari, o leão Cecilera era um animal “icônico”, reconhecido por muitos visitantes do Parque Nacional Hwange devido à sua juba negra. “Um monte de pessoas viaja longas distâncias até o Zimbabwe para apreciar a vida selvagem e, claro, a ausência de Cecil é um desastre”, disse aos repórteres, Emmanuel Fundira, presidente da Associação de Operadores de Safari do Zimbabwe, em Harare, capital do país.

As contas de Twitter e Facebook de Palmer e o site da sua clínica foram fechados após terem recebido uma enxurrada de críticas.

No site Yelp, de resenhas colaborativas, as pessoas também atacaram a clínica de dentária do caçador. Um comentarista chamado Andrew V escreveu: “Por favor, visite este dentista se você quer ser tratado por um psicopata, que quer caçá-lo, vê-lo sangrando com terrível, profunda dor, e, finalmente, cortar sua cabeça fora. Se você curtir essas coisas, então este é o dentista perfeito. Mas se você é um ser humano, que ama este planeta, então não deixe de visitar o bom dentista e cuspir na cara dele. Dê-lhe também um soco por todos nós”.

Jane Goodall, primatologista e conservacionista britânica, disse que ficou “chocada e indignada” com a notícia da morte de Cecil. “Não só é incompreensível para mim que alguém queira matar um animal em extinção (há menos de 20 mil leões selvagens na África de hoje), mas atrair Cecil para fora da segurança de um parque nacional e, em seguida, matá-lo com uma besta…? Não tenho palavras para expressar minha repugnância”, disse ela em comunicado no site do seu instituto.

Entre as celebridades que também expressaram indignação estão Ricky Gervais, comediante, Lennox Lewis, boxeador, e Neil Gaiman, escritor.

O apresentador de TV Jimmy Kimmel se emocionou ao falar sobre a morte de Cecil. Ele estava visivelmente afetado, e instigou os espectadores do seu programa a doarem para uma instituição de pesquisa sobre vida selvagem.

Uma campanha de crowdfunding da Indiegogo quer levantar 50 mil dólares — o custo da caçada de Cecil — para uma entidade de proteção a animais selvagens.

 

*Esse artigo é publicado em parceria com a Guardian Environment Network, da qual ((o))eco faz parte. A versão original (em inglês) foi publicada no site do Guardian. Tradução de Eduardo Pegurier

 

 

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