Reportagens

A serviço público, por conta própria

Os 60 anos de ambientalismo de Adelmar Coimbra Filho, descobridor do mico-leão dourado e pioneiro do conservacionismo brasileiro

Lorenzo Aldé ·
19 de julho de 2004 · 17 anos atrás

No coração da praça Santos Dumont, Zona Sul do Rio de Janeiro, alheios à agitação noturna do Baixo Gávea e ao trânsito pesado que segue rumo à Barra, crescem anônimos dois jovens jequitibás plantados no ano passado, sem conhecimento da prefeitura. Quem os semeou foi um antigo morador do bairro, inconformado em ver as praças, país afora, ornadas quase exclusivamente com árvores exóticas. “São raras as espécies nobres nas praças”, queixa-se Adelmar Coimbra Filho, para justificar a atitude de meter-se num jardim público e alterar-lhe a vegetação, mesmo que para plantar a árvore-símbolo do bairro.

Recomenda-se aos responsáveis pela Fundação Parques e Jardins que não ousem contestar os atos deste senhor. A decisão de plantar a maior árvore da Mata Atlântica na principal praça da Gávea leva a assinatura de quem, remando contra a corrente, trouxe de volta ao município um bom pedaço de sua vegetação original. Em pouco mais de uma década, como primeiro administrador do Parque da Cidade (então Parque da Gávea), Coimbra Filho plantou e acompanhou o crescimento de nada menos do que 419 espécies vegetais brasileiras, 93 delas típicas da Mata Atlântica. Fará justiça o poder público se acolher agradecido os dois jequitibás da praça Santos Dumont e os reconhecer oficialmente como um tributo a este personagem, protagonista de algumas das mais importantes contribuições científicas à fauna e flora nacionais nos últimos 60 anos.

Reflorestador – A experiência frente ao Parque da Cidade serve como síntese do que viria a ser a trajetória conservacionista de Coimbra Filho: grandes realizações, inabalável comprometimento ambiental e seguidas decepções com o poder público.

Em 1947, aos 22 anos e recém-formado como técnico-agrícola em Viçosa (MG), Adelmar ganhou de presente a oportunidade de testar na prática seus conhecimentos em uma área protegida de 470 hectares, vendida por Guilherme Guinle à prefeitura do então Distrito Federal a preço de banana. Foi indicado por um professor do curso técnico, e sua inexperiência não impediu que assumisse a administração do novo Parque, num indício do histórico desinteresse dos governantes pela questão ambiental. Por sorte, foi o homem certo para a missão. Sua primeira providência ao assumir o Parque da Gávea foi estudar a situação hidrográfica da área, preocupado em evitar processos erosivos. “Em todo lugar onde eu trabalho você não suja os pés de lama”, garante, detalhando os cuidados que adotou em cada transformação paisagística implementada: “Até o gramado tinha riqueza botânica”. Colocava em prática o conceito de paisagismo conservacionista, com a preservação de espécies nativas e a inclusão de espécies exóticas apropriadas, como as azaléias que delimitavam a floresta, separando-a da área de circulação de veículos no Parque.

Além do equilíbrio ambiental, do paisagismo e do reflorestamento, o jovem administrador empenhou muita energia na férrea defesa da área protegida, já na época ameaçada por invasões. “Por que é pobre pode fazer tudo? Todo favelado invasor não deixa de ser um criminoso”, sentencia o ambientalista, que ordenava imediata a destruição de todo barraco que começasse a erguido irregularmente. Para prevenir agressões desse tipo, tratou de fazer crescer o perímetro do Parque em 10 metros, por conta própria. O resultado é que, ao final de dez anos como administrador, não apenas conseguiu manter intacta a área verde pela qual era responsável, como a ampliou.

Sua gestão foi encerrada de forma abrupta, em um incidente que inaugurou sua antiga e justificada antipatia pelos políticos em geral. Em janeiro de 1957, o Parque recebeu a visita de duas mulheres, que chegaram em carro oficial da prefeitura e passaram a examinar algumas plantas, flores e peças. Encantaram-se com um belíssimo exemplar de antúrio, e mais ainda com o belo vaso ornamental português que o abrigava. Com toda a naturalidade, decidiram levar a “lembrança” com elas. “Expliquei que o vaso era patrimônio tombado e que só sairiam do Parque com a devida autorização superior”, lembra. Acontece que as senhoras eram amigas de Reinaldo Reis, secretário de Agricultura do prefeito Negrão de Lima, que determinou o afastamento sumário de Coimbra Filho da administração do Parque da Cidade. Quando soube da decisão — seria suspenso por 15 dias e transferido para o matadouro de Santa Cruz — rumou para a Secretaria de Agricultura de pistola em punho, disposto a acertar as contas com o superior. Antes de chegar à sala do secretário foi contido e felizmente não consumou a ameaça. Saiu de lá transferido para o Jardim Zoológico do Rio.

Por ironia do destino, esse episódio ofereceu a Coimbra Filho – então a caminho de especializar-se em botânica florestal – a oportunidade de expandir seus campos de interesse, levado a estudar e pôr em prática também o manejo da fauna, em sucessivas pesquisas pioneiras que fariam dele um dos mais produtivos zoólogos brasileiros, hoje conhecido como o “Pai da Primatologia” nacional.

Mas antes relatar esses feitos, que incluem a redescoberta do mico-leão preto e a preservação do quase extinto mico-leão dourado, vale fazer uma observação sobre sua personalidade. A contundência com que defende suas idéias e os relatos das vezes que precisou pegar em armas na defesa ambiental poderiam passar a impressão de um temperamento do tipo “casca grossa”: intransigente e irascível. Nada mais injusto. Aos 80 anos, casado há redondos 50 com Jacqueline Nevière Coimbra, pai de dois filhos cuja formação orgulhosamente acrescentou em seu próprio currículo (engenheiro mecânico e médica) e avô de quatro netos, Adelmar é um senhor pacato, de hábitos simples. Em suas palavras, “um sujeito telúrico”. De fato, não se apega a formalismos no trato pessoal e dispensa qualquer afetação acadêmica. Polidez e generosidade lhe são virtudes espontâneas. O sangue quente ele credita às origens nordestinas (nasceu em Fortaleza e veio para o Rio muito jovem): mesmo diante de ameaças de morte, nunca tolerou agressões a áreas sob sua proteção, como quando discutiu, armado, com pessoas que predavam jacarés-de-papo-amarelo reintroduzidos por ele na lagoa de Marapendi, na Barra da Tijuca, e quando alvejou a tiros cabras que destruíam pitangueiras plantadas na Reserva de Jacarepaguá.

Mira certeira – “Sempre fui bom atirador”, vangloria-se, relatando as caçadas da juventude na Baixada Fluminense. E antes que o interlocutor se espante com o fato de um conservacionista deliciar-se com as memórias de caçador, esclarece: “Eu fui caçador, não matador. Entrava na mata para caçar uma paca, uma cotia ou um porco-do-mato. Dava pra três ou quatro comerem”. Comia o que caçava, portanto, não o fazia pelo prazer de matar. Ciente da estreiteza ideológica que povoa a militância ambiental, faz questão de deixar clara essa diferença. “Eu nunca matei um macaco, e olha que essa é minha área de estudo. Muitos primatólogos matam para poder estudar”. Explica que foi justamente o íntimo contato com a natureza propiciado pelas caçadas que lhe despertou de vez para a paixão conservacionista. “Os verdadeiros conservacionistas sempre foram grandes caçadores. Só conhecendo a natureza por dentro e os animais selvagens de perto é que se pode entendê-los. Hoje tem muito autor que escreve sobre o meio ambiente sentado numa cadeira, sem nunca ter ido lá. Por isso sai publicada tanta bobagem. Conservação é matéria complexa, uma vez que é a aplicabilidade da Ecologia, a mais difícil das ciências”.

É o que mais incomoda o experiente pesquisador. Sempre que se depara com a ignorância reinante, ele vira bicho. E, em se tratando de quem é, não poderia haver elogio maior. “A engenharia genética já comprovou que a diferença entre o homem e o chimpanzé é de um gene e meio. É menor do que a diferença entre o chimpanzé e o orangotango. O homem é um primata metido a besta”, declara, com conhecimento de causa tanto sobre os primatas quanto sobre os metidos a besta. Tente perguntar a ele o que pensa do decreto da governadora Rosinha obrigando as escolas a ensinar a teoria criacionista, segundo a qual descendemos todos de Adão e Eva. “É um crime! Esse casalzinho não acredita na teoria da evolução, e decretou que se ensine isso nas escolas! A SBPC e a Academia Brasileira de Ciências precisam reagir a isso, deveriam mover um processo contra a governadora!”.

E sobre a polêmica dos transgênicos? “A turma contra a transgenia é ecologista por ideologia, nunca se baseia em estudos científicos, nenhum trabalho sério. Vamos supor: incorporar genes de coelho em milho, que mal pode acontecer? Se a natureza não permitir o experimento, ele simplesmente não vai vingar. A ministra Marina Silva parece boa pessoa, esforçada, sincera e conservacionista, mas não possui base científica”.

Floresta da Tijuca – Suas opiniões carregam a autoridade de 192 trabalhos científicos publicados (três no prelo), alguns deles antológicos, como Animais raros ou em vias de desaparecimento no Brasil (1968), primeiro levantamento do gênero, em que Coimbra Filho e o engenheiro agrônomo Alceo Magnanini comentam minuciosamente a situação das espécies brasileiras ameaçadas, a região geográfica típica de cada grupo e as causas principais de seu progressivo desaparecimento. E defendem avançadas concepções ambientais: Antropocentricamente, criou-se o adjetivo artificial, para caracterizar a atividade humana, contrapondo-o ao natural, que se desenvolve sem sua intervenção. Quaisquer atividades humanas, porém, por mais artificiais que pareçam estão na realidade enquadradas na natureza e são naturais, se bem que aceleradas ou alteradas pelo engenho humano. (…) Cumpre recordar que a nenhuma espécie é “permitida”, pela natureza, uma expansão ilimitada. Nem mesmo o homem pode se subtrair à ação limitadora dos inimigos naturais, da disponibilidade de alimento, da eclosão de doenças, da variabilidade de poder reprodutivo condicionado à idade das fêmeas e dos machos, da limitação do ambiente favorável, etc.

À época, Coimbra Filho acumulava mais de uma década de estudos e trabalhos dedicados à fauna brasileira, conciliando as pesquisas no Jardim Zoológico, onde rapidamente foi designado chefe do serviço técnico-científico, com os cargos de assessor-técnico da Reserva Biológica de Jacarepaguá (60-61), coordenador dos Serviços de Parques e Reservas Biológicas da Guanabara (63-69) e coordenador da Comissão Técnica das Espécies Raras e Ameaçadas de Extinção da Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, FBCN (a partir de 67).

Em 1969 deu início, juntamente com Antonio Aldrighi, então diretor do Parque Nacional da Tijuca, a uma inédita experiência de repovoamento faunístico em larga escala. Durante quatro anos foram reintroduzidos no Parque um total de 976 animais, sendo 913 aves, 58 mamíferos e 5 répteis. Um trabalho exaustivo: foi preciso estudar a fundo as peculiaridades de cada espécie e observar as inter-relações bióticas do Parque (alimentos, predadores, locais de moradia das espécies) para tentar assegurar o sucesso da libertação dos animais. Entre as aves que já estavam extintas da floresta e foram trazidas de volta estão espécies de inhambus, pica-paus, juritis e periquitos, e, entre os mamíferos, a preguiça-de-coleira, a cutia e o veado-mateiro. Até jibóias tiveram vez no cálculo do equilíbrio ecológico necessário ao Parque.

Se um dia você se surpreender com o vôo de um tucano nos limites da floresta incrustrada na metrópole, já sabe que não deve agradecer apenas a Deus pelas resistentes maravilhas naturais capazes de aliviar por um momento nossas mazelas urbanas. Muitas das aves que aqui gorjeiam precisaram da eficiente mão humana para reaparecer nas matas do Rio.

Aliás, a reintrodução dos tucanos tem a ver com uma árvore que chega junto com Coimbra Filho em todas as áreas onde começa a trabalhar: o palmiteiro. O plantio de palmiteiros é providencial para repovoamentos faunísticos, uma vez que os frutos fazem muito sucesso entre várias espécies de aves e outros animais. No caso dos tucanos, em especial, trazem um benefício extra: além de servir-se do apreciado alimento, essas aves são grandes disseminadoras de sementes, deixando um rastro de novos palmiteiros em suas idas e vindas, e com eles mais alimento para animais e aves, num admirável ciclo natural de renovação biótica.

Sr. Mico-leão – Porém, as mais notórias contribuições de Adelmar Coimbra Filho para a ecologia brasileira deram-se no campo da primatologia. Muito antes de trabalhar no Jardim Zoológico do Rio e assim aproximar-se dos estudos científicos sobre macacos, mais precisamente aos 18 anos de idade, Adelmar viu o mico-leão dourado pela primeira vez na natureza. Foi em uma de suas caçadas às margens do rio Itaguaí, na Baixada Fluminense. Ficou maravilhado diante da beleza daquele sagüí de grande juba avermelhada. Anos mais tarde, já conhecedor das características do animal, voltou a deparar-se inesperadamente com o bicho como o vira na mata, mas desta vez numa casa na Tijuca. Uma família portuguesa mantinha um mico-leão dourado capturado em seu hábitat, o que aumentou as suspeitas de Coimbra Filho de que sobrevivia no Estado uma razoável população desses primatas.

Decidido a verificar in loco sua presença na natureza, nunca antes estudada, embrenhou-se nas matas de Rio Bonito, Cabo Frio, Araruama, Silva Jardim e Casimiro de Abreu, iniciando uma “caçada científica” aos pequenos sagüís, munido apenas de um caderno de anotações, um binóculo e muita paciência para observar-lhes a moradia, o comportamento e as características morfológicas. O resultado foi um trabalho inédito: Mico-leão – Situação atual da espécie no Brasil (1969).

A esta altura, Coimbra Filho estava certo de que as espécies de mico-leão (os Leontopithecus) estavam “no limiar do desaparecimento” e de que era necessário um grande esforço conservacionista para salvá-las. Uma descoberta surpreendente reforçou seus propósitos: como duvidasse da decretada extinção do mico-leão preto (Leontopithecus chrysopygus), que havia sido flagrado na natureza pela última vez em 1905, resolveu investigar a região oeste de São Paulo, onde originalmente ocorriam. Na Reserva Estadual do Morro do Diabo (REMD), em maio de 1970, Coimbra Filho flagrou três mui vivos indivíduos da raríssima espécie. A importância da descoberta reverteu o processo de degradação a que estava condenada essa Reserva, em pleno Pontal do Paranapanema.

Segundo Coimbra Filho, o descaso para com a área era tamanho que o próprio responsável pela reserva derrubava sem cerimônia perobas de mais de 200 anos para expandir sua criação de gado. Durante décadas, propriedades privadas já vinham destruindo, com a conivência do poder público, a extensa área protegida de Mata Atlântica que cobria todo o Pontal, até a divisa com o Paraná. Posteriormente viriam os sem-terra, contestar a legitimidade daquelas posses. No meio do tiroteio, sobrou o pequeno Morro do Diabo. Depois que o local foi reconhecido como a única reserva a abrigar micos-leões pretos no país (e conseqüentemente no mundo), conseguiu-se alterar o status da área para o de Reserva Biológica e povoá-la com estudos e pesquisas.

Aproveitando os ventos favoráveis e o apoio que angariava do meio científico internacional, Coimbra Filho criou, com Alceo Magnanini, o Banco Biológico dos Micos-Leões (BBML). Instalado na Floresta da Tijuca com recursos da World Conservation Union (IUCN) e da World Wildlife Fund (WWF), o BBML implantou viveiros experimentais para a criação de micos-leões pretos em cativeiro, consolidando de vez suas pesquisas em primatologia.

“Salvei as três espécies de mico-leão”, garante. Isto porque também coube a ele escolher uma área para proteger o mico-leão da cara dourada, existente apenas em uma porção de Mata Atlântica ao sul da Bahia. Nela foi criada a Reserva Biológica do Una (1980), onde atualmente sobrevive essa espécie.

Quanto ao mico-leão dourado, que viraria símbolo nacional da preservação ambiental nos anos 90 (“Só ‘descobriram’ o mico-leão há quinze anos!”), este resiste graças à Reserva Biológica de Poço das Antas, criada em 1974 em Silva Jardim, estado do Rio. Coimbra Filho também estava lá, prestando subsídios técnicos para a demarcação da área pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF).

Em 1972, foi convidado a apresentar os resultados de suas experiências em um histórico encontro internacional sobre Primatologia organizado pelo Zoológico de Washington. Especialistas de vários países discutiram a manutenção e reprodução dos micos-leões em cativeiro, e os feitos do Brasil na área causaram forte impressão. O encontro foi histórico porque deu início ao mais importante projeto de criação de micos-leões, que acontece não em solo brasileiro, mas no National Zoo, na capital americana. Uma vez reproduzidos em cativeiro, os micos são trazidos de volta para repovoar a Mata Atlântica. “Vários dos nossos micos são americanos naturalizados”, brinca Adelmar, ressalvando que os genes são nacionais. “Por lei, todo o material genético lá trabalhado pertence ao Brasil. Exemplares têm sido mandados para zoológicos responsáveis em todo o mundo, embora para isso seja necessária autorização especial do Ibama”.

O cientista lamenta a imensa diferença de recursos e infra-estrutura que permite aos Estados Unidos liderarem um trabalho que poderia ser feito aqui. Como diretor do Departamento de Conservação Ambiental da FEEMA, Coimbra Filho idealizou, fundou em 1975 e dirigiu por quase vinte anos o Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ), no município de Guapimirim. É de lá que sai o material genético que alimenta pesquisas em zoológicos de todo o mundo. Entidade estadual, o Centro é mantido a duras penas. “Tive que tirar dinheiro do bolso. O terreno era imprestável, um sapezal com um barraco. Até o trator tivemos que pedir emprestado para um vizinho”. Hoje, Adelmar fala com orgulho do tipo de paisagismo que implantou no CPRJ: valendo-se de seus conhecimentos em botânica, enriqueceu o local com variadas espécies florestais, implantando na área um regime de reserva biológica, muito mais do que apenas uma área destinada à reprodução e criação de primatas.

O CPRJ é um dos dois únicos centros de primatologia existentes (o outro fica em Inuyama, no Japão) e ainda assim “o governo não entendeu até hoje a importância da primatologia, especialmente entre nós, já que o Brasil é o país mais rico em espécies de símios”. Afinal, para quê tanto afinco, tantos anos de dedicação, apenas para poupar macaquinhos da extinção? Entra em cena o professor Coimbra Filho, defendendo o conservacionismo: “Tudo o que se estuda em primatologia de algum modo vai ser aproveitado para beneficiar a espécie humana. A ciência sempre se fez assim, depende da inventividade, da criatividade de combinar, encontrar as relações entre as descobertas e as aplicações em nosso benefício. Enquanto conversamos, espécies desaparecem, num processo constante de simplificação biótica. A possibilidade da cura da aids, do câncer, de doenças que ainda nem apareceram, pode estar sumindo junto com esses insetos, plantas, mamíferos. Um incêndio na Amazônia dizima milhares de espécies que nem foram descobertas. No mundo existem cerca de 1,5 milhão de espécies classificadas, e estima-se que 10 milhões ainda desconhecidas. Qualquer reserva é importante justamente por ser reserva. Uma reserva de possibilidades para a ciência usar quando necessário”.

Nos últimos anos, os trabalhos no CPRJ e na reserva de Poço das Antas contam com financiamentos da Associação Mico-Leão Dourado, da WWF e do próprio Zoológico de Washington.

Referência mundial – Impossível encontrar um estudo sério sobre os lions tamarins – como são conhecidos lá fora nossos micos-leões – que não reserve amplo espaço em suas referências bibliográficas para dezenas obras de um certo Coimbra-Filho, A.F.

O livro Lions Tamarins, editado por Devra G. Kleiman e Anthony B. Rylands (2002), imponente e muito bem ilustrada revisão histórica das pesquisas e projetos voltados à preservação dos micos-leões, não apenas cita 36 obras do pesquisador brasileiro como é dedicado a ele. Adelmar faz questão de exibir seu exemplar do livro, onde se lê à caneta um carinhoso agradecimento em inglês, assinado por Russell A. Mittermeier, de quem recebeu o livro de presente pelo correio. Mittermeier é seu amigo desde o encontro de Washington, em 1972, e há 15 anos preside a mais importante fundação conservacionista do mundo, a Conservation International. Suas palavras:

Para meu bom amigo, um dos grandes pioneiros, líderes e visionários do conservacionismo sul-americano, obrigado por tudo o que vem fazendo por mim nos últimos 30 anos e especialmente por conduzir-me sob suas asas e servir de inspiração em minhas primeiras duas décadas de trabalho no Brasil.

Em seguida, vai buscar outro livrão com jeito de enciclopédia. É Primates Taxonomy (2001), do australiano Colin Groves, celebridade entre os zoólogos, que propõe a revisão taxonômica dos primatas existentes. Quando menciona Coimbra Filho, descobrimos que o brasileiro é, em sua ilustre opinião, uma “lenda viva da primatologia”.

Mas o reconhecimento mais prazeroso sem dúvida é aquele que o permite ver seu nome incorporado por bichos e plantas, na transgenia semântica utilizada pela taxonomia para unir as diversas formas biológicas aos homens que vivem por elas. Primeiro foi uma espécie de percevejo descoberta no rio Aripuanã, em Mato Grosso, que ganhou o nome de Taedia coimbrai (prof. José Cândido Melo Carvalho, 1975). Depois, um cacto que ele descobriu e foi classificado por Carlos Toledo Rizzini e Armando de Mattos Filho (Monvillea adelmari, 1985) e a bromélia Neoregelia coimbrae (1985), encontrada por Edmundo Pereira e Elton M.C. Leme seguindo uma dica sua. Em 1999, aconselhou ao amigo Shugi Kobayashi, cientista japonês, que explorasse uma certa região de Sergipe, onde certamente encontraria uma nova espécie de primata para a ciência. Dito e feito: com Alfredo Langguth, Kobayashi descobriu o sauá (ou guigó) Callicebus coimbrai.

No Brasil, embora seu currículo reserve quatro páginas divididas em duas colunas apenas para listar as “Distinções e Honrarias” recebidas, não se pode dizer que Coimbra Filho seja um cientista reconhecido pela sociedade. Guarda ainda certa mágoa da área acadêmica, por não ter bancado suas iniciativas quando ele mais precisou. O projeto do Centro de Primatologia foi apresentado a várias universidades sem que nenhuma se interessasse em abraçar a causa. Hoje o CPRJ acolhe dezenas de estudos de mestrado e doutorado, das mais diversas áreas.

Num país em que, para ser aceito pela nata do poder científico, é preciso acumular títulos acadêmicos e vincular-se, como docente e pesquisador, a alguma instituição superior, Coimbra Filho é exceção. Formou-se em História Natural pela Universidade do Estado da (então) Guanabara, fez mestrado em Zoologia pela UFRJ, e só. Completou sua formação em cursos de seu estrito interesse profissional. Como professor, além de inúmeros seminários e palestras promovidos por órgãos públicos e fundações, sua mais longa experiência deu-se por um convênio da FEEMA com o Museu Nacional, que o levou a lecionar gratuitamente, durante sete anos, na cadeira de Zoogeografia do mestrado em Zoologia.

Volta ao Parque – Com o conhecimento de quem colaborou por quase meio século com a administração pública, é com pesar que assiste ao empobrecimento técnico dos órgãos, parques e reservas ambientais. “Os técnicos não querem mais administrar órgãos estaduais, onde não têm recursos, não têm incentivo. Ficam todos nas instituições acadêmicas e quem toca a administração dos parques são políticos.”

Foi o que viu acontecer na Embrapa, no Ibama, no Zoológico e no Jardim Botânico do Rio: indicações políticas esvaziando a competência e o acúmulo de conhecimento construídos por décadas a fio. “A Embrapa era uma máquina de costura, e o PT atrapalhou tudo. O presidente da Embrapa merecia uma placa, e foi posto pra fora. O grande problema é a descontinuidade administrativa”, lamenta.

Por essas e outras, passa longos períodos sem visitar o Parque da Cidade, apesar de morar na Gávea. Sequer conhece o atual diretor. Aceitou, no entanto, o convite para voltar ao local de suas primeiras experiências profissionais. Já na pequena rua que dá acesso ao Parque, o desolador cenário característico do Rio de Janeiro de hoje: a favela Vila Parque da Cidade, espécie de anverso da Rocinha, devorou por completo a vegetação que encobria o morro e se esparrama pela via em forma de botecos e oficinas mecânicas, atrapalhando a passagem.

As águas que atravessam o Parque, transparentes há 60 anos, hoje estão turvas. As azaléias que demarcavam os limites da floresta não existem mais. Sua coleção experimental das coníferas brasileiras, supõe ele, também não deve ter resistido às agressões. “Acabaram com tudo. Derrubaram perobas-do-campo para usar os troncos como postes de iluminação para uma quadra de bocha.”

Chama a atenção uma construção mal acabada, ao fundo da estrada do Parque, cercada por postes com arame. Os próprios funcionários construíram suas residências dentro da área protegida. É a regularização da ilegalidade. Adelmar caminha lentamente, observando as árvores, procurando identificá-las. Recolhe duas pequenas vagens pretas do chão: “Essas são de um dos meus jacarandás”, espécie que trouxe do Espírito Santo para plantar no Parque. Puxa assunto com um funcionário da limpeza, querendo notícias de algum dos empregados do seu tempo. Paulo, 36 anos, trabalha para uma empresa terceirizada, mas como nasceu e cresceu na favela vizinha lembra-se de um ou outro nome citado por Coimbra Filho. Lembra-se também de como era o Parque e de como foi se degradando, à medida que a favela avançava. “Hoje o Parque acabou”, constata, e recebe a concordância de Adelmar: “Fico com pena. Sabe quando você perde o trabalho feito?”.

Floresta fantasma – Em 2004, completa 52 anos de vigência a lei que determina a aposentadoria compulsória dos funcionários públicos que chegam aos 70. Nem as mudanças de regime, nem a nova Constituição, nem a reforma da Previdência, nem a progressiva elevação da expectativa de vida no último meio século foram capazes de alterar a regra que torna inapelável o fim de carreira dos servidores. Talvez porque a maioria, a essa altura da vida, não veja mesmo a hora de pendurar de vez o paletó. Fosse dada a oportunidade de escolha ao funcionário Adelmar Faria Coimbra Filho, no entanto, e ele estaria até hoje na FEEMA, maldizendo a escassez de recursos e brigando em frentes variadas pela conservação ambiental.

Com carinho especial, continuaria dirigindo o seu Centro de Primatologia, do qual também teve que se afastar em 1994, quando alcançou a idade fatal para quem deseja prestar serviços ao Estado brasileiro. Depois dos 70, não, obrigado. Felizmente, o Centro passou a ser dirigido por seu amigo Alcides Pissinatti, presente desde a idealização do projeto, o que permite a Coimbra Filho continuar acompanhando de perto sua obra mais marcante, e, dela sim, poder se orgulhar até hoje. O cuidado com que o local, sua fauna, flora e infra-estrutura são tratados, impressiona os visitantes.

Dez anos depois de aposentado, o emérito cientista tem em seus planos muito trabalho ainda, a conciliar com a chuva de homenagens e prêmios que recebe anualmente, convites para palestras, e a participação em Conselhos, Associações, comitês técnicos e academias científicas.

Em 1996, publicou, com Ibsen de Gusmão Câmara, um pequeno livro chamado Os limites originais do bioma Mata Atlântica na região Nordeste do Brasil. Em 86 páginas, os autores apresentam evidências científicas de que no semi-árido nordestino existiam, no passado recente, grandes extensões de floresta primária. Simplesmente não havia “seca no Nordeste”: a região de fartos recursos hídricos e solos protegidos por densas matas gozava de equilíbrio ecológico, refletido no clima e em índices pluviométricos bem mais generosos que os de hoje. Imagine-se um continuum silvestre unindo a Floresta Amazônica à Mata Atlântica litorânea, um enorme corredor ecológico que permitia a espécies da flora e fauna transitarem, literalmente, do Oiapoque ao Chuí. Pois era assim o Brasil até ontem, quando começou a colonização.

O chamado paralelismo entre a flora e a fauna dos três biomas silvestres brasileiros (amazônico, atlântico e do planalto central) é comprovado em incontáveis exemplos da bibliografia utilizada. Uma outra realidade ambiental descortina-se claramente ao leitor, revelando fervilhantes interações biológicas que viraram fumaça em poucos séculos, com a sucessão de ciclos econômicos altamente predatórios. Ufanistas quanto à nossa índole pacífica e diplomática, somos levados a reconhecer que houve aqui um verdadeiro genocídio ambiental.

Uma foto de 1970 ilustra a capa do livro. Nela vê-se uma estrada margeada por alta e densa vegetação florestal, flagrante do que sobrava de Mata Atlântica alagoana. Na contracapa, outra foto, do ano seguinte, no mesmo local. Mas já não é possível reconhecer o cenário: só se vêem tocos queimados e terra arrasada, além de dois imponentes visgueiros ao fundo, ainda de pé, como testemunhas da eficiente destruição promovida por desmatadores.

A degradação ambiental vai transformando a floresta em região semi-árida, e, sem que se reverta urgentemente o processo, transformará semi-árido em puro deserto. De nada adiantaria transpor as águas do São Francisco, proposta quase mítica que alimenta os sonhos ambientais de muitos brasileiros, se o regime de exploração dos recursos naturais continuar assim irresponsável. O São Francisco é uma vítima, não uma solução. Muito mais eficaz seria, sugere o livro, iniciar um grande programa de reflorestamentos ao longo das bacias hidrográficas, na tentativa de restabelecer o equilíbrio ambiental perdido e transformar em reservas protetoras de mananciais todas as serranias nordestinas. Ainda há tempo.

Os olhos de Coimbra Filho brilham ao comentar os achados desse trabalho, pois embora a tese pareça óbvia, a ciência brasileira jamais havia revelado com tanta ênfase a origem essencialmente antrópica e relativamente recente da formação do deserto sertanejo. O fantasma da floresta nordestina funciona como contundente lição: por mais imponente que seja e por mais perene que pareça, o verde um dia pode acabar. E com ele vai pelo ralo a vida dos primatas metidos a besta, incapazes de se entender como beneficiários, porque partícipes, da biodiversidade que sacrificam.

O pequeno clássico ambiental foi publicado com recursos dos próprios autores, e os direitos autorais cedidos à Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza (FBCN), para quem também doaram mil exemplares. Talvez por não contar com a chancela de qualquer entidade científica e não ostentar, nas primeiras páginas, a devida lista hierárquica de presidentes, diretores e chefes de qualquer órgão governamental, permanece restrito a poucas prateleiras especializadas, longe dos olhos do público, das escolas, do debate civil em torno de um dos mais graves problemas ambientais (e sociais, mas qual é mesmo a diferença?) do país.

Um dia, tal qual a floresta fantasma, o livro será descoberto. Se não por si próprio, ao menos pelo nome que leva na capa, quando este ocupar definitivamente seu lugar entre os grandes cientistas e ambientalistas de nossa história.

  • Lorenzo Aldé

    Jornalista, escritor, editor e educador, atua especialmente no terceiro setor, nas áreas de educação, comunicação, arte e cultura.

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