Reportagens

Da fartura do sururu à maré de plástico: a transformação pesa nos manguezais da Ilha de Deus

O acúmulo de lixo atinge a saúde dos mangues, ameaça o sustento de comunidades tradicionais, enquanto o novo plano de resíduos da capital pernambucana não fixa metas concretas para a reduzir geração de resíduos na origem

Yamini Benites ·
5 de novembro de 2026

Da fartura do sururu à maré de plástico: a transformação pesa nos manguezais da Ilha de Deus

O acúmulo de lixo atinge a saúde dos mangues, ameaça o sustento de comunidades tradicionais, enquanto o novo plano de resíduos da capital pernambucana não fixa metas concretas para a reduzir geração de resíduos na origem

Para chegar à Ilha de Deus, é preciso atravessar uma ponte onde cabe um carro por vez. Os carros dividem a passagem estreita com motos, crianças que caminham com suas mochilas de aula, bicicletas de entrega de água e gás, e qualquer outro morador que faça seu deslocamento pelo único acesso à comunidade. 

Ao fim da ponte, protegido pelos mangues, uma pequena praça recebe quem chega à ilha. Fábio Romão de Souza, mais conhecido como Fal, presidente da Associação de Pescadores e Aquicultores (APA) da Ilha, foi mostrando o cais onde atracam os barcos, a escola, a rádio comunitária e os viveiros das famílias, que no mapa ocupam uma área maior que a vila. Ele conta que as ruas pavimentadas e as casas de alvenaria são uma paisagem recente. 

Em 2007, antes das obras de urbanização, quase metade das casas era de madeira, 70 delas palafitas, e a renda familiar predominante ficava entre meio e um salário mínimo. A ilha tem mais de 300 famílias, e mais de 80% delas vivem da pesca, segundo manifesto das comunidades pesqueiras do Recife de 2022.

A única ponte da Ilha de Deus, no Recife, entre manguezais. Foto: Yamini Benites
A única ponte da Ilha de Deus, no Recife, entre manguezais. Foto: Yamini Benites

Ao caminhar pela pequena vila, a cada tanto se vê uma mulher sentada na porta de casa. Roupas confortáveis, mesa à sua frente, balde do lado, as mãos ocupadas catando sururu.

Monique da Silva (34) cuidava do sobrinho enquanto realizava o trabalho, com a porta aberta e a televisão ligada ao fundo. Já tentaram construir uma estrutura para juntar as catadoras de sururu num só lugar, mas não funcionou. Ela explica que é cultural que a mulher faça as coisas de casa enquanto cata.

O sururu é um molusco pequeno que vive preso a raízes e à lama nas zonas de maré dos estuários e manguezais. É um dos mais capturados pela população local e vale mais no mercado que outros moluscos coletados nos mesmos lugares. 

Edilene, 59 anos, já encontrou agulha de injeção catando o sururu que o filho traz da maré. 
Foto: Yamini Benites
Edilene, 59 anos, já encontrou agulha de injeção catando o sururu que o filho traz da maré. Foto: Yamini Benites
Como Monique, é comum que a mulher faça as tarefas da casa enquanto cata o sururu. Foto: Yamini Benites
Como Monique, é comum que a mulher faça as tarefas da casa enquanto cata o sururu. Foto: Yamini Benites

Na Ilha de Deus, a cata de moluscos é feita principalmente por mulheres, as marisqueiras. Simone Michelino da Silva, a Michele, 44 anos, é pescadora desde os 10. Tirava sururu, marisco e unha de velho com os irmãos, mas diz que a poluição está acabando com eles. 

Para compensar, hoje ela faz de tudo um pouco: cava e limpa viveiros de outras pessoas quando a chamam, dá tarrafada, ajuda pedreiro. O sururu, conta, “mata muita fome das pessoas e já matou muito a minha fome”, mas hoje ela só não passa necessidade, diz, “porque eu tenho coragem de fazer de tudo”.

As marisqueiras são acostumadas a encontrar retalhos de embalagem em meio ao sururu. Foto: Yamini Benites
As marisqueiras são acostumadas a encontrar retalhos de embalagem em meio ao sururu. Foto: Yamini Benites

Conforme as ruas se aproximam do cais, onde atracam os barcos de pescadores, a quantidade de marisqueiras em frente às casas aumenta. Em cada montinho de sururu, plástico. Não é preciso esforço algum para identificar os retalhos de embalagens, sacolas, etiquetas e outros objetos em meio à seleção feita pelas mulheres.

Era quase meio-dia, e a maré daquele dia já trazia os barqueiros de volta. Baldes de marisco e de sururu eram despejados nas tábuas para serem tratados. Uma dupla de pescadores desembarcou com os baldes leves e explicou que o dia de pesca não tinha sido proveitoso.

Os baldes leves da dupla não são exceção. Edilene, 59 anos, nascida e criada na Ilha, conta que o que antes eram cinco ou seis caixas de sururu por dia e hoje são duas, tiradas “a pulso, catando muito”. Antes, saía de manhã e estava de volta às 10h ou 11h. Hoje sai de madrugada e só chega por volta do meio-dia, com menos. 

Adilson, o Batatinha, conta a mesma história em quilos. Ele relata que fez a festa de 15 anos da filha “com dinheiro de maré”, quando tirava de 50 a 60 quilos de marisco. Hoje não consegue tirar a mesma quantidade. 

Lula, 51 anos, mostra o lixo acumulado na margem do viveiro. Foto: Yamini Benites

O lixo que ninguém vê

Na Ilha de Deus, o lixo vem em duas camadas: a que boia e a que afunda. Segundo os pescadores, o barco que a prefeitura manda ao rio só alcança a primeira. Adilson conta que o barco recolhe “o básico”, uns cinco sacos pretos de cada vez, e vai embora. Fal reconhece que o serviço é importante, mas lembra que ele limpa apenas a superfície e as margens, não o lixo do fundo, “que ninguém está vendo, só a gente”. 

Fábio Romão de Souza, o Fal, presidente da APA: “Quem define a hora de pescar, de catar sururu e de abrir os viveiros é a maré.” Foto: Yamini Benites
Fábio Romão de Souza, o Fal, presidente da APA: “Quem define a hora de pescar, de catar sururu e de abrir os viveiros é a maré.” Foto: Yamini Benites

É esse lixo que os pescadores arrastam. Ele se prende nas redes de espera, muitas vezes até estourá-las. Na hora de recolher, o peso que sobe junto cobra do corpo. Muitos pescadores relatam problemas de coluna, ombro e braços. Lula, 51 anos, foi um deles. Uma rede de cerca de 20 kg, conta, chegava a pesar 150 kg com o lixo, e numa dessas puxadas a coluna cedeu. A lesão o impede de pescar desde então.

A associação decidiu responder com o que conhece da maré. Os pescadores sabem, pelas marés e pelas curvas do rio, onde o lixo mais se acumula. Para o teste, montaram uma barreira submersa num ponto onde ele se concentrava menos. Mesmo assim, em 24 horas, num trecho de 4 metros, a barreira reteve tanto lixo que ameaçou estourar. As ecobarreiras mais comuns, explica Fal, prendem sobretudo o lixo flutuante. 

A lama como arquivo

Para entender o que acontece com tanto plástico, é preciso olhar para baixo da lama.

Segundo o professor Roberto Barcellos, de oceanografia geológica da UFPE, tudo começa quando a água do rio encontra a do mar. A mistura faz as partículas de barro se juntarem em flocos e afundarem. Esse barro vai parar entre as raízes do mangue, que o seguram e não deixam a maré levar de volta. Com o tempo, a lama vai se empilhando, camada sobre camada, e leva junto folhas, raízes em decomposição e tudo o que o rio traz, inclusive lixo e esgoto.

Raízes de mangue e lama na maré baixa: o carbono fica guardado neste sedimento por décadas. Foto: Yamini Benites
Raízes de mangue e lama na maré baixa: o carbono fica guardado neste sedimento por décadas. Foto: Yamini Benites

Além disso, o solo do mangue vive encharcado, com muito pouco oxigênio. Sem oxigênio, as bactérias demoram mais tempo para decompor a matéria orgânica, e o material fica guardado ali por décadas, ou até milênios, diz Roberto. É assim que o mangue guarda carbono.

Para ler essa lama, os cientistas usam o que chamam de testemunho: um tubo cravado no chão que retira uma coluna de sedimento, como uma fatia de bolo. No topo ficam as camadas mais novas, no fundo, as mais antigas. Com técnicas de datação, é possível estimar a idade de cada trecho da coluna.

Perto da Ilha de Deus, Roberto retirou colunas de lama e foi encontrando objetos em cada camada. A 7 centímetros de profundidade, uma embalagem de doce de leite. A 38, uma sola de sapato de couro. A 1 metro, um caco de cerâmica. Ele estima que a embalagem tenha ido parar ali por volta de 1998, a sola por volta de 1936 e a cerâmica por volta de 1812, antes da Independência. 

Testemunho de sedimento retirado no manguezal. O tubo registra, em camadas, o que a lama recebeu ao longo do tempo. Foto: Arquivo pessoal/Daniela Gadens.
Testemunho de sedimento retirado no manguezal. O tubo registra, em camadas, o que a lama recebeu ao longo do tempo. Foto: Arquivo pessoal/Daniela Gadens.

Mas a posição de um objeto na coluna nem sempre conta a idade dele. A pesquisadora do grupo Lixomar, Daniela Gadens Zanetti, explica que o plástico se move dentro da lama e pode confundir a datação. Bichos que cavam e o revolvimento da lama podem levar fragmentos para camadas mais antigas. 

Um estudo feito no delta do Amazonas encontrou microplástico no sedimento em camadas de até 150 anos atrás, que seria antes da produção industrial do material. É sinal de que as partículas descem.

Microplásticos nascem do lixo que já conhecemos. Um pote que cai no rio, chega ao mar e, de tanto sol, sal e atrito, vai se esfarelando em pedaços cada vez menores, até sumir da vista. 

Carbono: o que se sabe e o que não se sabe

O Brasil tem a segunda maior área de manguezais do mundo, cerca de 9% do total, e guarda 8,5% do carbono dessas florestas. Entre os ecossistemas brasileiros, eles estão entre os que mais guardam carbono no solo. 

Segundo levantamento de 2022, no primeiro metro de profundidade, os manguezais armazenam até 4,3 vezes mais carbono por hectare do que os principais biomas do país. Em biomassa, ou seja, nas árvores e raízes, o mangue só perde para a floresta amazônica, que tem árvores bem mais altas e densas, e por isso guarda mais carbono nos troncos. 

Gráfico: Yamini Benites

Em 2022, sete dos 16 estados brasileiros com manguezal não tinham sequer a medida do carbono guardado no solo. Sem dados, o cuidado fica no escuro. Daniela diz que falta uma estratégia nacional, com o mesmo método em todo o país, e que a diferença de estudos entre Norte, Nordeste – justamente as regiões que concentram mais de 80% dos manguezais do país – e Sudeste é “gritante”. O que o plástico faz com esse estoque ainda é uma pergunta em aberto. 

A pesquisadora explica que o plástico altera a comunidade de micro-organismos e a porosidade do sedimento, e que provoca alterações na liberação de CO₂, mas que ainda não dá para afirmar se aumenta ou diminui. Ela destaca ainda que é preciso separar o que já se sabe do que ainda é hipótese.

Alguns pontos já têm base sólida: o plástico também faz mal às árvores. Num experimento de campo na Indonésia, a cobertura completa das raízes por plástico matou as árvores em seis semanas. Em laboratório, microplásticos já mudaram os micro-organismos e o ciclo do nitrogênio em sedimentos.

Em Pernambuco, os dados são poucos e boa parte não foi publicada: o grupo de Roberto Barcellos, na UFPE, prepara uma compilação de testemunhos do estado, mas ela ainda não saiu. Daniela pede cautela com conclusões fáceis. A poluição não necessariamente reduz o carbono. Em Suape, área portuária do estado, o acúmulo de carbono cresce desde a década de 80, quando a urbanização avançou. Isso não torna a poluição benéfica, mas mostra que a conta é mais complicada que “plástico destrói carbono azul”.

Outros manguezais da Região Metropolitana do Recife também acumulam lixo. Para Adilson, que planta mangue, ‘o mangue não nasce’ devido à poluição. Foto: Yamini Benites

Por que o lixo chega lá

A lei já diz o que fazer primeiro. A Política Nacional de Resíduos Sólidos manda priorizar, nesta ordem: não gerar, reduzir, reutilizar, reciclar, tratar e, só por último, dar destino final aos rejeitos. O novo Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos do Recife repete essa hierarquia e inclui, entre seus objetivos, estimular padrões sustentáveis de produção e consumo.

A lei também exige que o plano trace metas de redução, reutilização, coleta seletiva e reciclagem, para reduzir a quantidade de rejeitos levados ao aterro. O plano do Recife atende em parte: fixa desvio de recicláveis de no mínimo 15,1% em até cinco anos e 22,8% em até 20 anos. 

Em 2024, o Brasil enviou 7,1 milhões de toneladas de resíduos secos à reciclagem, apenas 8,7% do lixo urbano gerado. (Abrema, 2025) Foto: Yamini Benites
Em 2024, o Brasil enviou 7,1 milhões de toneladas de resíduos secos à reciclagem, apenas 8,7% do lixo urbano gerado. (Abrema, 2025) Foto: Yamini Benites

O que não aparece é meta para os dois primeiros degraus da hierarquia, não gerar e reduzir. Para estes, o plano prevê educação ambiental, que contribuiria para reduzir a geração na fonte, sem número ou prazo. 

Essa ordem é também a lógica da Estratégia Lixo Zero, que parte da ideia de que lixo é uma invenção humana. Para Susanne Oliveira, consultora e auditora de sistemas lixo zero e embaixadora do movimento em Pernambuco desde 2015, lixo zero é uma meta, e não sinônimo de ambiente limpo. A ideia é “reaproveitar cerca de 90% do que se gera e mandar ao aterro, no máximo, 10%”, explica. 

Para Lara Iwanicki, diretora de Estratégia e Advocacy da Oceana, não há “nada de ambicioso” nos números do plano. O documento projeta manter a geração por habitante estável em cerca de 344 kg por ano até 2044. Atualmente a média brasileira já se aproxima disso.

Segundo a Oceana, com base em estudos, limpezas de praia e relatos de pescadores, sacolas, garrafas PET e embalagens flexíveis são os resíduos mais encontrados em rios e mares. Foto: Yamini Benites
Segundo a Oceana, com base em estudos, limpezas de praia e relatos de pescadores, sacolas, garrafas PET e embalagens flexíveis são os resíduos mais encontrados em rios e mares. Foto: Yamini Benites

Lara defende metas verificáveis de redução e a eliminação dos plásticos de uso único, que, para ela, é a medida de maior impacto imediato. Como exemplo, cita a lei paulistana 17.261/2020, que proíbe o fornecimento de copos, pratos e talheres descartáveis em bares, restaurantes e eventos. Aprovada em 2020, a lei ainda aguarda regulamentação. 

Quem sustenta o modelo

Se a hierarquia fosse seguida à risca, a reciclagem não seria o primeiro passo. Para a especialista da Oceana, a prioridade está invertida, e o modelo econômico favorece quem produz embalagem. Embalagens de multicamadas, comuns em chocolates e biscoitos, segundo ela, não são recicladas e viram rejeito nas cooperativas.

Em 1º de julho de 2026, Recife anunciou uma parceria com a Ellen MacArthur Foundation que busca mobilizar até R$ 300 milhões. Segundo o comunicado da fundação, o foco são os sistemas de coleta e reciclagem de embalagens. Redução na fonte e design de embalagem não aparecem na proposta. 

Na cidade do Recife, a coleta seletiva levou aos núcleos de triagem cerca de 2.500 toneladas em 2023, 0,5% do lixo urbano gerado, segundo o plano municipal. Foto: Yamini Benites
Na cidade do Recife, a coleta seletiva levou aos núcleos de triagem cerca de 2.500 toneladas em 2023, 0,5% do lixo urbano gerado, segundo o plano municipal. Foto: Yamini Benites

A diretora da Oceana considera que isso reflete uma lógica econômica que favorece as empresas. Mudar a embalagem “é custo”, e “é muito mais vantajoso você empurrar para o sistema fazer a coleta, fazer a destinação, fazer reciclagem daquilo que já virou e vai continuar virando resíduo”, pontua. 

Em nota à Climate Tracker América Latina, a Fundação Ellen MacArthur confirma que o foco do projeto no Recife é a coleta e a reciclagem e informou que os R$ 300 milhões virão de empresas produtoras, investidores e filantropia, sendo que parte do aporte pode servir para cumprir metas legais de logística reversa. A fundação não detalhou a parcela de cada parceiro nem disse se haverá monitoramento independente. Leia aqui a nota na íntegra.

Dentro do governo federal, Ricardo Voivodic, chefe da divisão de combate à poluição marinha do Ministério do Meio Ambiente, aponta um gargalo semelhante. Ele explica que aditivos usados em certos plásticos impedem a reciclagem, e quem paga é o catador. Ele coleta, leva à triagem e gasta trabalho que depois não vai ser remunerado, porque aquele plástico não tem reciclabilidade. “Quando aprendem isso, eles simplesmente param de catar, e aí aquele plástico vai parar no oceano”, conclui. 

Quem limpa e quem paga

Quem tira o lixo do mangue na Ilha de Deus não é pago por isso, e a proposta de mudar essa situação já nasceu na própria comunidade. A barreira que já foi testada seria a base da proposta. Fal descreve a ideia: pescadores se revezam para tirar o lixo, levam a uma triagem e recebem um valor simbólico por isso. Para ele, ninguém sai perdendo: o poder público tira resíduo do rio, a natureza ganha, “todo mundo ganharia”. A ideia, porém, nunca saiu da conversa informal. 

Michele (Simone Michelino da Silva) cata alumínio, papelão e PET na porta de casa e sonha em abrir uma cooperativa com as amigas. Foto: Yamini Benites
Michele (Simone Michelino da Silva) cata alumínio, papelão e PET na porta de casa e sonha em abrir uma cooperativa com as amigas. Foto: Yamini Benites

Para quem trabalha com reciclagem, a lógica é outra. Michele também cata material reciclável, junta alumínio, papelão e PET na porta de casa. Ela vende o alumínio em Afogados, um bairro próximo, e usa parte do que junta para ajudar amigas a abater da conta de luz. O que não dá para reciclar, deixa para a Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb) levar. No papel, o plano do Recife enxerga esse trabalho: prevê pagamento por serviços ambientais a catadores, mas não firma prazo ou valor na tabela. Pescadores e marisqueiras não aparecem nesse desenho.

Ricardo Voivodic, do Ministério do Meio Ambiente, diz que o pagamento por serviços ambientais para recolher resíduos “ainda não tem um consenso acadêmico e institucional”, embora afirme que catadores e comunidades pesqueiras sejam o pilar chave da estratégia nacional. Entre o que se diz e o que está no papel, a conta da limpeza fica com a comunidade.

Procurada pela Climate Tracker América Latina, a Prefeitura do Recife respondeu, por meio da Emlurb, que segue o Código de Limpeza Urbana e o PMGIRS, que priorizam a não geração e a redução, mas não apontou meta de redução, nem informou quanto lixo os barcos retiram ou se alcançam o lixo submerso. A nota na íntegra pode ser conferida aqui.

Lula caminha pelo talude, o ‘bardo’ de terra que separa os viveiros, que pode ser prejudicado com o acúmulo de lixo. Foto: Yamini Benites
Lula caminha pelo talude, o ‘bardo’ de terra que separa os viveiros, que pode ser prejudicado com o acúmulo de lixo. Foto: Yamini Benites

Os pescadores e marisqueiras da Ilha de Deus já entenderam que o cuidado cabe a eles e elas. Lula, que já participou de mutirões para limpar o mangue, resume: “A gente limpa hoje, amanhã já tem.” Ricardo reforça a necessidade de dar atenção ao início do problema, e afirma que hoje é possível remover do ambiente apenas 10% do plástico que chega, ou menos. Para ilustrar o problema, ele usa uma imagem: “Quem chega em casa com a torneira estourada não começa secando o chão, vai fechar o registro.”

Sem previsão concreta de quando e como o registro que gera lixo será fechado, os pescadores da Ilha de Deus continuam “secando o chão”. Com o peso nas redes, seguem protegendo os mangues do lixo que ninguém vê.

Mural na Ilha de Deus retrata uma marisqueira entre mangues. Em Pernambuco, as mulheres são 55% dos pescadores profissionais registrados (Min. da Pesca 2023).  Foto: Yamini Benites
Mural na Ilha de Deus retrata uma marisqueira entre mangues. Em Pernambuco, as mulheres são 55% dos pescadores profissionais registrados (Min. da Pesca 2023). Foto: Yamini Benites

Este artigo foi produzido com o apoio da Climate Tracker América Latina, GAIA e Break Free From Plastic

*Capa: Pescador volta da maré com a Bacia do Pina ao fundo. Foto: Yamini Benites

  • Yamini Benites

    Jornalista socioambiental e repórter fotográfica baseada no Recife. Cubro a emergência climática unindo dados, bases científicas e saberes territoriais. Sou cofundadora da agência Anú e conto com publicações premiadas em veículos locais e nacionais. →

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