A proposta de Flávio Bolsonaro (PL) de integrar cadastros fundiários e ambientais, guias de trânsito animal, autorizações de supressão vegetal e dados de monitoramento por satélite em um único sistema levanta preocupações sobre os possíveis efeitos para a credibilidade do agronegócio brasileiro no mercado internacional. Para especialistas, a estratégia pode enfraquecer os instrumentos de controle ambiental, prejudicar a imagem dos produtos brasileiros e abrir espaço para concorrentes, como Estados Unidos e Argentina.
Em sua proposta de governo, Flávio defende a integração de informações para simplificar procedimentos, reduzir a burocracia e ampliar o acesso de produtores rurais ao crédito e a programas de apoio. O candidato afirma que o sistema permitiria diferenciar quem cumpre a legislação ambiental de quem comete infrações, além de facilitar a comprovação da origem da produção.
Para Marina Piatto, Diretora Executiva do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), o plano é arriscado. “Na teoria, unir os cadastros [do INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – e do CAR – Cadastro Ambiental Rural] pode parecer muito inteligente, mas, na prática, é perigoso e a gente coloca tudo a perder, porque são processos distintos e coloca em risco a autonomia das instituições”, analisa.
Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, declarou, em vídeo publicado nas redes sociais, sua preocupação relacionada ao histórico do pai de Flávio, Jair Bolsonaro, de ataques ao monitoramento ambiental, quando foi presidente (2019-2022). Em seu mandato, Bolsonaro fez diversos ataques ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), órgão responsável pelo monitoramento do desmatamento no Brasil, por satélite.
Depois que bateu de frente com Bolsonaro, o então diretor do INPE, Ricardo Galvão, foi demitido e substituído interinamente pelo coronel reformado da Aeronáutica Darcton Policarpo Damião. Galvão é doutor em Física de Plasmas pelo Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos, e renomado pesquisador da Universidade de São Paulo. No mesmo ano em que foi demitido, em 2019, Ricardo Galvão foi eleito uma das dez pessoas mais importantes para a ciência pela Nature, uma das principais revistas científicas do mundo.
Na avaliação do ambientalista, a desconfiança em relação aos dados oficiais também compromete a capacidade de resposta do país ao desmatamento. Ele recorda que, diante do aumento da devastação em 2019, o então presidente Jair Bolsonaro contestou informações divulgadas pelo INPE. “Bolsonaro resolveu culpar o termômetro pela febre. Ele resolveu culpar os dados do INPE”, diz.

Angelo teme que Flávio Bolsonaro retome essa abordagem. “Hoje, o Flávio Bolsonaro quer fazer o que o pai fez. Quer completar o trabalho que o pai não conseguiu de tirar o monitoramento de satélite do INPE, descredibilizar essa parte tão importante da ciência brasileira”, afirma no vídeo.
Marina Piotta enfatiza também que, sem o monitoramento do desmatamento, fica difícil executar as ações de comando e controle e de fiscalização com assertividade e é isso que ajuda a separar quem produz legalmente de quem descumpre a lei. Quando esse controle enfraquece, o problema deixa de ser apenas ambiental: torna-se também econômico, porque o mercado perde a capacidade de distinguir a produção regular daquela associada ao desmatamento, o que já é uma exigência estabelecida no comércio internacional, como na União Europeia.
“Sem isso, vai misturar o mocinho com o bandido e o agronegócio brasileiro fica com credibilidade zero. Porque o monitoramento do INPE é o maior do mundo. Se não temos isso, o agronegócio não consegue garantir que aquele produto não veio de uma área desmatada, o que prejudica o mercado como um todo”, destaca.
Para Claudio Angelo, o uso dessas informações na formulação de políticas públicas foi importante para conciliar a proteção ambiental e o crescimento econômico e, por isso, deve ser continuado. “A gente criou uma tecnologia nossa, da Ciência brasileira, que a gente hoje exporta para todo o mundo, de monitoramento de floresta por satélite. O Brasil é o melhor país do mundo hoje em monitorar a floresta por satélite, o INPE faz isso”, explica Angelo.
Ele avalia que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu aproveitar o conhecimento científico disponível para orientar decisões, o que levou a resultados positivos. Em média, a Amazônia perdeu 690 mil árvores a menos por dia sob Lula 3 do que durante o governo de Jair Bolsonaro e, na atual gestão de Lula, houve uma queda brusca no desmatamento e a Amazônia registrou a menor taxa de desmatamento da história.
Para ele, uma eventual perda de confiança nos mecanismos brasileiros de monitoramento e controle ambiental pode trazer consequências econômicas para o próprio setor exportador do agronegócio. “Ao fazer isso, estamos favorecendo os nossos concorrentes: Estados Unidos e Argentina”, diz. O ambientalista alerta ainda para o risco de boicotes e restrições comerciais motivados pela percepção de que o Brasil não controla adequadamente os impactos ambientais de sua produção.
“O nosso agro vai sofrer ameaças, vai sofrer boicotes, como sofreu na época do Jair Bolsonaro. A gente ainda quer esse problema de imagem que só favorece a nossa concorrência internacional?”, questiona.
Segundo ele, os resultados demonstram que o controle do desmatamento não precisa ocorrer em oposição à expansão da produção agropecuária. “Enquanto o desmatamento estava caindo [no governo Lula], o PIB brasileiro subiu como não subia em décadas e a produção agropecuária brasileira também subiu”, afirma.
Nos quatro anos de mandato de Bolsonaro, a produção de grãos do Brasil aumentou de 238 milhões de toneladas, em 2019, para 260 milhões de toneladas, em 2022, um aumento de 9,24%. Apenas em um ano do governo Lula (2023), esse crescimento foi mais do que o dobro: de 260 para 311 milhões de toneladas, um salto de 19,62%, segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, com redução do desmatamento.

Agropecuária mantém estabilidade nas emissões pelo segundo ano consecutivo
Nesta semana, foram divulgados os dados mais recentes do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (Seeg), mostrando que, após uma forte queda de 13% em 2024, as emissões de gases de efeito estufa do Brasil caíram mais 6% em 2025, atingindo seu menor valor bruto desde 2018.
Em relação às emissões advindas da agropecuária brasileira, o valor permaneceu praticamente estável em comparação ao ano anterior, com 626,3 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, uma queda de apenas 0,07% em relação a 2024.
Segundo o Imaflora, os dados mostram que é possível ampliar a produção agropecuária e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões, desde que haja maior adoção de tecnologias e boas práticas de manejo. Isso porque a produção agrícola brasileira superou R$ 927 bilhões em 2025 e foi a primeira vez que o Brasil rompeu a marca de 100 milhões de hectares de área colhida.
“Ficou muito claro nos resultados que a gente reduziu o desmatamento nos últimos quatro anos e, principalmente, no ano passado, e ainda conseguimos aumentar a produtividade da agropecuária sem aumentar as emissões de gases de efeito estufa. São dados científicos que mostram que é possível produzir mais e emitir menos. E a base de tudo isso é a transparência, o monitoramento por satélite. Não precisamos retroceder, pra matar a fome no mundo”, conclui Piotta.
Propostas para a pecuária sustentável
Em seu plano de governo, Flávio propõe reunir diferentes bases de dados em um único sistema, incluindo informações fundiárias, ambientais, autorizações de desmatamento, trânsito de animais e monitoramento por satélite. A iniciativa, segundo o programa, permitiria comprovar a origem dos produtos, reduzir a duplicação de procedimentos e facilitar a identificação de produtores que cumprem a legislação.
Já o programa de Lula prevê a ampliação da pecuária sustentável por meio da recuperação de pastagens degradadas, do melhoramento genético dos rebanhos, da nutrição animal de precisão e da rastreabilidade individual dos animais, do nascimento ao abate. A proposta também prevê fortalecer a Embrapa e ampliar o uso de tecnologias para elevar a produtividade e reduzir as emissões de gases de efeito estufa por quilo de carne produzido.
O governo Lula mantém ainda a meta do Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas de incorporar até 40 milhões de hectares à produção agropecuária sustentável entre 2023 e 2033, sem avançar sobre a vegetação nativa. A iniciativa busca aumentar a produtividade em áreas já abertas, reduzindo a pressão por novos desmatamentos.
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