O Brasil enfrenta uma das maiores ameaças de sua história: as mudanças climáticas, cujos efeitos já comprometem a biodiversidade, a segurança hídrica, a produção agrícola e a saúde da população. Entretanto, enquanto a ciência avança na identificação das causas e consequências desse fenômeno, o candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro insiste em negar a responsabilidade humana pelo aquecimento global.
Durante uma entrevista ao Jornal Nacional, em 28 de agosto deste ano, o senador afirmou acreditar que os eventos climáticos extremos são fenômenos cíclicos, desconsiderando décadas de evidências científicas. Essa posição não representa apenas um equívoco sobre o funcionamento do clima terrestre. Quando incorporada às políticas públicas, ela pode comprometer a capacidade do Brasil de enfrentar uma crise que já produz consequências ambientais, sociais e econômicas.
O negacionismo climático de Flávio Bolsonaro reproduz uma postura adotada por seu pai, Jair Bolsonaro, durante a Presidência da República. Em 2019, um estudo publicado na revista científica Environmental Conservation alertou que as políticas ambientais do então presidente e de setores ruralistas ameaçavam a Amazônia, seus povos tradicionais e o clima global. O trabalho documentou o enfraquecimento de órgãos de fiscalização, as propostas de flexibilização do licenciamento ambiental e os riscos associados à expansão da agricultura, da pecuária e da mineração sobre florestas e territórios indígenas. Essas políticas demonstraram como a rejeição das evidências científicas pode acompanhar decisões governamentais capazes de ampliar a degradação ambiental.
A gravidade desse histórico torna-se ainda mais evidente diante das propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro. Seu plano de governo prevê alterações nas atribuições de órgãos como Ibama, Funai e ICMBio, além de mecanismos para acelerar o licenciamento ambiental. O documento sequer menciona expressamente mudanças climáticas ou aquecimento global, apesar da importância desses processos para o futuro econômico e ambiental do país. A combinação entre negacionismo científico e propostas de flexibilização da proteção ambiental levanta preocupações sobre a capacidade de um eventual governo de responder adequadamente à emergência climática.
A Amazônia ocupa uma posição central nesse problema. Sua floresta não representa apenas um reservatório de biodiversidade, mas um componente fundamental da regulação climática da América do Sul.
Em 2023, um artigo publicado na revista Conservation Biology alertou que o avanço do desmatamento na Amazônia pode comprometer os serviços ecossistêmicos essenciais à biodiversidade, abastecimento humano e produção agrícola brasileira no sul e sudeste do Brasil. A floresta amazônica participa do transporte de umidade atmosférica responsável por parte das chuvas que abastecem as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Portanto, destruir a Amazônia significa ameaçar não apenas as comunidades que dependem diretamente da floresta, mas também a segurança hídrica, a geração de energia hidrelétrica e a produtividade agrícola do próprio Brasil.
Análises de teleconexões climáticas mostram que o avanço do desmatamento na Amazônia compromete a capacidade da floresta de regular os fluxos de umidade atmosférica, alterando o transporte de vapor d’água e os padrões de precipitação em outras regiões da América do Sul. Essas alterações podem intensificar eventos extremos de chuva em determinadas condições atmosféricas, evidenciando a conexão entre a destruição da floresta amazônica e a crise climática que afeta gravemente o Sul do Brasil, especialmente os estados do Rio Grande do Sul e do Paraná.
Os impactos das mudanças climáticas também já podem ser identificados na biodiversidade brasileira. Um estudo publicado em 2025, também na revista Conservation Biology, investigou os declínios históricos de 90 espécies de anfíbios no Brasil, e identificou as alterações climáticas e os eventos extremos, especialmente aqueles associados às anomalias do fenômeno El Niño, como os principais fatores relacionados aos declínios populacionais e às extinções locais analisadas. Esses resultados reforçam que as mudanças climáticas não constituem uma ameaça distante, mas um processo que já está alterando comunidades biológicas e contribuindo para a perda de biodiversidade no território brasileiro.
A relação entre mudanças climáticas, biodiversidade e doenças representa outro motivo de preocupação. O aumento das temperaturas, as secas prolongadas, as alterações nos regimes de chuva e a degradação dos habitats podem modificar a distribuição de espécies, intensificar o contato entre animais silvestres, seres humanos e animais domésticos e favorecer condições de emergência de doenças infecciosas. O negacionismo climático, portanto, não ameaça apenas florestas e animais silvestres: também pode prejudicar a capacidade do Estado de proteger a saúde pública e antecipar riscos sanitários.
É particularmente contraditório que um país cuja economia depende fortemente da agricultura tenha lideranças políticas que questionem os fundamentos científicos das mudanças climáticas. A produção brasileira de alimentos depende da disponibilidade de água, da estabilidade das temperaturas e da previsibilidade das estações chuvosas. A intensificação de eventos extremos representa riscos crescentes às safras, ao abastecimento hídrico e à infraestrutura.
Negar a influência humana sobre o aquecimento global significa também ignorar a contribuição do desmatamento e das emissões de gases de efeito estufa para a intensificação desses riscos. Ao contrário do discurso que apresenta a proteção ambiental como obstáculo ao desenvolvimento, a conservação da Amazônia e a redução das emissões constituem componentes essenciais da segurança econômica brasileira.
A experiência do governo Jair Bolsonaro já demonstrou os riscos de subordinar a proteção ambiental a interesses políticos e econômicos de curto prazo. A continuidade dessa orientação sob Flávio Bolsonaro, caso suas declarações negacionistas sejam traduzidas em decisões governamentais, poderá comprometer avanços na conservação, enfraquecer a prevenção de desastres e ampliar a vulnerabilidade das comunidades mais expostas aos extremos climáticos.
As mudanças climáticas não são uma questão de crença ou preferência política. São processos físicos amplamente documentados, cujas consequências já podem ser medidas na biodiversidade, na agricultura e na segurança da população brasileira.
A ciência demonstra que parte expressiva do aquecimento observado decorre das atividades humanas e que decisões políticas podem tanto agravar quanto reduzir seus efeitos. O problema central do negacionismo de Flávio Bolsonaro não está apenas em contrariar esse conhecimento, mas no risco de orientar políticas públicas a partir da rejeição das evidências necessárias para proteger o país. Em um momento em que o Brasil precisa fortalecer sua capacidade de adaptação climática, proteger suas florestas e prevenir novas crises ambientais e sanitárias, transformar o negacionismo em política de Estado representaria uma ameaça concreta ao futuro nacional.
Você, que vive na Amazônia e enfrentou a seca histórica, viu os rios desaparecerem, comunidades ficarem isoladas e famílias perderem suas fontes de sustento, consegue confiar em um governante que minimiza a gravidade da crise climática? E você, do Rio Grande do Sul, que viu as águas invadirem sua casa, destruírem suas lembranças e levarem embora tudo aquilo que uma vida inteira de trabalho construiu, o que sente ao ouvir um candidato tratar os extremos climáticos como simples ciclos naturais?
Para quem perdeu a própria casa, o emprego ou alguém que amava, a crise climática não é uma discussão abstrata. É uma tragédia que deixou marcas profundas. Nenhum discurso político apaga essas perdas, assim como nenhuma crença pessoal altera as evidências científicas. O Brasil precisa de dirigentes capazes de reconhecer o sofrimento de sua população, respeitar a ciência e assumir a responsabilidade de prevenir novas tragédias. Negar a gravidade do problema não faz desaparecer suas consequências; apenas aumenta o risco de que outras famílias tenham de enfrentar o mesmo sofrimento.
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