Análises

Monitoramento do desmatamento no Brasil estará sob risco com Flávio Bolsonaro

Atacado em várias frentes durante presidência de Jair Messias, INPE não merece outra gestão bolsonarista

Cristiane Prizibisczki ·
20 de outubro de 2026

Na última semana, o governo brasileiro divulgou um número histórico que interessa não só ao próprio país, mas a todo o planeta: em 2026, a Amazônia registrou 3.335 km² de desmatamento, a menor taxa em quase quarenta anos de medições. Porque quase metade de todo o carbono que o país lança na atmosfera vem da destruição de florestas, a queda beneficia todo o mundo, açoitado pelos impactos cada vez mais intensos das mudanças climáticas. O número, no entanto, pode deixar de existir, caso Flávio Bolsonaro chegue ao poder. 

Há 38 anos o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) produz os dados oficiais do desmatamento por meio de dois programas principais. O primeiro deles é o Prodes (Programa de Monitoramento do Desmatamento por Satélite), que gera a taxa anual de desmatamento e é, desde 1988, o responsável por orientar as políticas públicas relacionadas à proteção da Amazônia. Em 2004 veio o reforço do Deter (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real), que gera alertas diários e é ferramenta de apoio às ações de fiscalização da destruição da floresta.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



É por meio desses dois programas irmãos que o governo brasileiro tem baseado suas ações de controle e combate ao desmatamento não só na Amazônia, mas também do Cerrado, a partir do final da década passada, e de todos os outros biomas nos últimos anos. Os resultados alcançados com as políticas orientadas pelos números do INPE, principalmente os de 2026 que acabaram de ser publicados, colocam o Brasil como protagonista na agenda de proteção das florestas e mostram ao mundo que, ao aliar ciência e vontade política, é possível frear as motosserras e as emissões de gases de efeito estufa.

Além disso, os dados do INPE não têm ajudado apenas o Brasil. O Instituto publica, em média, um resultado científico por dia em áreas como astrofísica, engenharia espacial e, claro, sensoriamento remoto, o que inclui trabalhos sobre o desmatamento na Amazônia. Essa produção científica é metade produzida com parceiros internacionais importantes, como o francês CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), o alemão Max Planck e a agência americana NASA. A reputação dos dados gerados pelo Instituto é reconhecida dentro e fora do país.

Mas toda essa importância e prestígio não foram suficientes para impedir ataques sistemáticos durante o governo Jair Bolsonaro (2019-2022). 

Incomodado com a divulgação sobre a explosão do desmatamento e queimadas durante seu governo – 60% de aumento do desmatamento, na média, em relação aos quatro anos anteriores a sua gestão –, Bolsonaro, o pai, promoveu uma campanha de desmoralização do instituto e implementou cortes tão profundos que colocaram em risco sua própria operação.

A lista de ataques é longa (e não se resume a): durante os quatro anos em que o político do PL esteve na cadeira de Presidente da República, o próprio Jair ou membros de seu governo disseram, sem nenhuma comprovação, que os dados do INPE eram “ruins” e que havia um “inimigo” dentro do órgão divulgando informações erradas para prejudicar o governo; acusaram o então presidente do Instituto, Ricardo Galvão, de “estar a serviço de alguma ONG” e o exoneraram posteriormente; criaram uma câmara consultiva para “reclassificar” o que é desmatamento; tentaram comprar outro sistema para monitorar o desmatamento na Amazônia, tiraram do INPE a função da divulgação dos dados e passaram para o obscuro Conselho da Amazônia e promoveram, à revelia dos servidores, uma reestruturação interna que até hoje é sentida.

Em 2019, o então ministro Ricardo Salles apresentou imagens Planet em coletiva, onde contestou os dados do Deter, o sistema de alerta de desmatamento do INPE. Foto: Marcos Corrêa/PR.

Um dos golpes mais duros, no entanto, talvez tenha sido o corte profundo nos recursos. O orçamento do INPE, que já vinha caindo ao longo dos anos, despencou na gestão Bolsonaro. Em 2021, o orçamento total foi de R$ 79,1 milhões, menos da metade destinada uma década antes, em 2010, quando o INPE recebeu R$ 203,8 milhões. Em outubro daquele ano, o Instituto correu o risco de ficar sem recursos para pagar até a conta de água e luz. 

Cármen Lúcia, ministra do hoje combalido STF, batizou o processo no qual o INPE foi uma das vítimas de “cupinização”, quando a morte é operada por dentro. No caso do Instituto, coitado, o ataque veio de ambos os lados, de dentro e de fora.

Corta para o momento atual. Após quatro anos de respiro e moderada recomposição no governo Lula 3, o fantasma do bolsonarismo volta a assombrar o INPE. Daqui a poucos dias, Bolsonaro, o filho, poderá ser escolhido como ocupante da cadeira que um dia foi de seu pai, com consequências nefastas para todas as estruturas ligadas à gestão ambiental no Brasil, incluindo o INPE. O bolsonarismo não tem interesse na preservação da vida, seja ela humana ou não.

Não bastasse o histórico de ataques ao meio ambiente enquanto senador – como a tentativa de legalizar o desmatamento no Brasil – Flávio Bolsonaro já deixou claro que pretende seguir à risca a cartilha ecocida de seu pai. Em seu plano de governo há 22 menções diretas – nominais – ao pai, onde figuram expressamente as palavras “Jair Bolsonaro” ou “governo Bolsonaro”. Além disso, há ao menos dez menções indiretas, em trechos no quais o texto traz referência à gestão de 2019-2022 em primeira pessoa – “nosso governo”, “nós”, “já fizemos no passado” – ou citando marcos específicos sem utilizar o nome do ex-presidente. 

Flávio Bolsonaro é um negacionista do clima e da democracia. Se eleito, a Amazônia estará em risco, assim como o Instituto que há 40 anos é, com seus satélites, os olhos da sociedade para a floresta tropical. Não podemos deixar que isso aconteça.

  • Cristiane Prizibisczki

    Jornalista (UEL), mestre em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável (ESCAS/IPÊ) e former fellow da Universidade de Cambridge (UK). Tem 20 anos de experiência na cobertura de temas socioambientais. Foi vencedora do Earth Journalism Awards (2009) em três categorias internacionais e do Prêmio Embrapa de Reportagem (2014), entre outros. Colaborou para ((o))eco entre 2006 e 2026 e atualmente é Coordenadora de Comunicação do Observatório do Clima. →

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
17 de fevereiro de 2022

Mesmo com recomposição, orçamento do INPE para 2022 cai 32% em relação a 2020

Instituto deve receber do Governo Federal R$ 92,3 milhões. Valor é o segundo menor da década, só perdendo para 2021, quando foram destinados R$ 79 milhões ao órgão →

Salada Verde
15 de setembro de 2020

Mourão inventa que há um opositor do governo no INPE que “divulga dados ruins”

Vice-presidente repete Bolsonaro e afirma que há um “opositor do governo” divulgando dados ruins sobre queimadas. Números são públicos e disponibilizados automaticamente →

Reportagens
3 de novembro de 2019

Reformulação no INPE tem início após instituto sofrer criticas do governo

Mudanças propostas pelo diretor interino impactarão setor de monitoramento do desmatamento da Amazônia. Divulgação dos dados do Prodes não será afetada, garantiu Darcton Damião →

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.