Reportagens

Os corredores ecológicos que dão esperança à onça-pintada no Cerrado

Projeto de monitoramento de fauna reúne dados inéditos sobre o maior felino das Américas no estado de Goiás e quer impulsionar conexão de habitats

Marcio Isensee e Sá ·
15 de outubro de 2026
Amanhecer no Cerrado, próximo à cidade de Mambaí (GO). Foto: Marcio Isensee e Sá

Os corredores ecológicos que dão esperança à onça-pintada no Cerrado

Projeto de monitoramento de fauna reúne dados inéditos sobre o maior felino das Américas no estado de Goiás e quer impulsionar conexão de habitats

Amanhecer no Cerrado, próximo à cidade de Mambaí (GO). Foto: Marcio Isensee e Sá

Os corredores ecológicos que dão esperança à onça-pintada no Cerrado

Projeto de monitoramento de fauna reúne dados inéditos sobre o maior felino das Américas no estado de Goiás e quer impulsionar conexão de habitats

Mambaí é um município localizado no nordeste do estado de Goiás, na região conhecida como Vão do Paranã. Trata-se de um território de 858 mil km² e uma população de aproximadamente 8 mil pessoas, que abriga o maior contínuo de vegetação nativa de Cerrado preservada de todo o estado. Por lá, se qualquer pessoa se referir à “mulher das onças” certamente estará falando de Samantha Rincón, ecóloga colombiana e coordenadora-geral do projeto “Onde a onça bebe água”, realizado pela Funatura. Ela e sua pequena equipe (atualmente são 3 pessoas fixas e mais 5 consultores) tem uma missão gigante pela frente: preencher a lacuna de informações e traçar rotas reais de sobrevivência para a onça-pintada (Panthera onca) neste pedaço de Cerrado.

Historicamente associada às densas matas da Amazônia ou às planícies alagáveis do Pantanal, a espécie trava no bioma uma batalha invisível contra o isolamento populacional, a conversão acelerada do solo em lavouras e a crônica escassez de dados científicos.

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“A área do nosso projeto contempla três grandes núcleos e foi pensada para mapear a conectividade entre o Parque Nacional de Brasília [DF], o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros [GO] e o Parque Nacional Grande Sertão Veredas [MG]”, explica Samantha ao falar sobre o corredor ecológico modelado com geoprocessamento no início do projeto. 

A pesquisadora Samantha Rincón durante instalação de armadilhas fotográficas em Formosa/GO. Foto: Luana Santa Brígida/FUNATURA
A pesquisadora Samantha Rincón durante instalação de armadilhas fotográficas em Formosa/GO. Foto: Luana Santa Brígida/FUNATURA

A pesquisadora conta que a existência da onça-pintada nessas áreas era conhecida, porém havia muitas lacunas de dados, principalmente que ajudem a compreender como acontece a movimentação do felino entre as unidades de conservação. “Quais são esses corredores ecológicos que ainda estão sendo utilizados por eles?”, questiona. 

O projeto coloca em prática o monitoramento científico com utilização de armadilhas fotográficas e rastreamento de sinais naturais de fauna (como pegadas, fezes, pêlos, arranhões em árvores e outras marcas deixadas pelos felinos). Em 2025, primeiro ano de monitoramento, foram instaladas 76 armadilhas fotográficas, distribuídas em pontos estratégicos do corredor ecológico modelado. Os resultados preliminares são animadores: 25 localidades com registro da espécie, 52 registros em câmeras-trap e 17 registros por rastreamento. Embora a metodologia do projeto não permita estimar a quantidade de indivíduos ou levantar dados populacionais, foi possível identificar o mesmo indivíduo fazendo uso de localidades diferentes nos registros.

Registros coletados no primeiro ciclo do projeto Onde a Onça Bebe Água confirma a presença de onças na região. Vídeos: Divulgação/Funatura

Espécie guarda-chuva

Estima-se que a onça-pintada já tenha perdido quase 50% de sua área de distribuição original nas Américas, que vai do sul dos Estados Unidos até a Argentina. Embora permaneça categorizada globalmente como “Quase Ameaçada” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a espécie está em situação muito mais delicada nos biomas como Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado.

Pegadas e outras evidências da presença das onças é fonte de informação para os pesquisadores. Foto: Thales Lima / FUNATURA
Pegadas e outras evidências da presença das onças é fonte de informação para os pesquisadores. Foto: Thales Lima / FUNATURA

No Cerrado, segundo maior bioma da América do Sul e o mais pressionado pelo avanço do agronegócio, as populações do felino encontram-se profundamente fragmentadas e ilhadas.

A consultora ambiental Lauana Costa Nogueira, ex-servidora do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em Mambaí, destaca a singularidade ecológica da região do Vão do Paranã. “É uma paisagem riquíssima que conecta formações florestais de matas secas sobre afloramentos calcários, cavernas e solos arenosos de veredas. Rios como o rio Vermelho e o rio Corrente oferecem exatamente o que a onça precisa para sobreviver: escala espacial, água em abundância e presas naturais”, descreve.

Lauana enfatiza que a presença do predador de topo de cadeia é indispensável para a manutenção do equilíbrio biológico local, funcionando como uma espécie guarda-chuva. “Sem a onça para regular a população de herbívoros, espécies como capivaras, catetos, queixadas e o exótico javaporco se multiplicam sem controle, causando prejuízos imensos às próprias lavouras agrícolas da região. A conservação da onça é, na verdade, a garantia de que o ecossistema continue funcionando em equilíbrio”, resume.

“Não dá pra conservar sem as comunidades”

Arnaldo Vieira da Costa, de 46 anos, é agricultor familiar e morador do Assentamento Vale da Esperança, no município de Formosa (GO), distante aproximadamente 100 km de Brasília. Seu lote de 22 hectares foi conquistado depois de dois anos acampado na região e a posse oficial da parcela aconteceu em 1998. Arnaldo engajou-se ativamente no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), fez formação na Escola Nacional Florestan Fernandes, atuou na “frente de massa” organizando acampamentos e militou até o falecimento de seu pai, em 2011, quando assumiu a propriedade. “Dentro do movimento a gente discutia muito essa questão da agroecologia. A gente tinha vontade de ter, mas não surgia uma oportunidade, [então] não botamos em prática aqui. E aí veio a ideia [desse projeto] e aceitamos”. 

O projeto ao qual Arnaldo se refere é um dos componentes do “Onde a onça bebe água”, que implementou 46 Sistemas Agroflorestais (SAFs) em propriedades de reforma agrária distribuídas pelos municípios de abrangência do projeto. Ao chegar com o SAF e gerar um benefício concreto para os moradores, o projeto estabelece uma relação de confiança, além de garantir soberania alimentar. “O agricultor passa a enxergar que a conservação da fauna e do felino traz melhorias para o seu próprio território”, afirma Samantha.

Os SAFs implementados no PA Vale da Esperança são uma estratégia de aproximar as comunidades da conservação e contribuem para a soberania alimentar de agricultores como Arnaldo. Fotos: Marcio Isensee e Sá
Os SAFs implementados no PA Vale da Esperança são uma estratégia de aproximar as comunidades da conservação e contribuem para a soberania alimentar de agricultores como Arnaldo. Fotos: Marcio Isensee e Sá

O sistema agroflorestal da propriedade de Arnaldo foi implementado há 1 ano e o agricultor batizou-o de SAF Joaquim Pindoba em homenagem a seu pai. São mais de 40 espécies, dispostas em linhas que intercalam árvores frutíferas e florestais como café, jabuticaba, laranja, pocã, ipê, canela, coco-da-bahia, mamão, banana, mandioca, inhame, batata-doce, feijão-andu, cana e milho. A produção garantiu a soberania alimentar da família e foi além: “pros vizinhos a gente doou, né? Abóbora, melancia, várias coisas. E vendemos também pro PAA [Programa de Aquisição de Alimentos]. Nós vendemos abóbora e batata doce”, conta o agricultor.

Carlos da Conceição (56) aponta marcas de chifre de Veado-catingueiro (Mazama gouazoubira) dentro do SAF de sua propriedade. O retorno da fauna é perceptível. Foto: Marcio Isensee e Sá
Carlos da Conceição (56) aponta marcas de chifre de Veado-catingueiro (Mazama gouazoubira) dentro do SAF de sua propriedade. O retorno da fauna é perceptível. Foto: Marcio Isensee e Sá

O projeto calcula que dos 46 SAFs implantados, 37 já tiveram suas colheitas utilizadas para o consumo e abastecimento da própria família e entre 3 e 6 conseguiram comercializar parte dos seus excedentes e gerar renda. Mas um problema está fora do controle de pesquisadores e agricultores: a água.

Se a experiência de Arnaldo mostra a viabilidade do modelo agroflorestal, o depoimento de Joana D’arc Inácio Severino da Conceição, de 43 anos, expõe os efeitos da emergência climática e da degradação ambiental.

Moradora do Projeto de Assentamento Riachão há 33 anos, Joana lembra dos tempos em que o Rio Riachão, que corta as terras de sua família e dá nome ao assentamento, era um curso d’água volumoso e perene, repleto de animais e onde as crianças tomavam banho ao lado de jacarés, emas e antas. Nas últimas duas décadas, o avanço descontrolado do agronegócio de monocultura no entorno drenou as nascentes e desmatou a vegetação protetora. “De vinte anos para cá, fomos vendo a água ir embora. Este ano foi o pior de todos: o Riachão está há seis meses completamente seco. Estamos sobrevivendo à base de caminhão-pipa”, desabafa Joana. 

Joana D'Arc apresenta o seu SAF em mais um dia sem chuva no Cerrado (esquerda) e o leito do Rio Riachão completamente seco (direita). Fotos: Marcio Isensee e Sá
Joana D’Arc apresenta o seu SAF em mais um dia sem chuva no Cerrado (esquerda) e o leito do Rio Riachão completamente seco (direita). Fotos: Marcio Isensee e Sá

Esse depoimento é corroborado pelos dados. Um levantamento da iniciativa DoClima, que reúne informações de oito bases de dados, aponta que o município de Sítio D’Abadia, onde reside Joana, tem apresentado índices de chuva abaixo da série histórica. Em 2025, por exemplo, choveu 977 mm, 41% abaixo da média e esse mesmo levantamento aponta “segurança alimentar” como o segundo maior risco climático mais crítico na região. O mesmo cenário se repete em outros municípios da região. 

Apesar de todas as adversidades, Joana permanece convicta da eficácia da agrofloresta. “O SAF já deu certo, nós só precisamos de água. Colhemos melancia, abóbora, mandioca e feijão-de-porco para adubar a terra. Quando a chuva chegar, a terra refresca e tudo vai brotar de novo. Nós não queremos ir embora da nossa terra, precisamos produzir aqui”, afirma a agricultora.

O Sistema Agroflorestal (SAF) visto de cima. Video: Marcio Isensee e Sá

“Será que a câmera ainda está lá?”

A reportagem de ((o))eco acompanhou a pesquisadora do projeto no recolhimento de uma das câmeras utilizadas para o monitoramento de fauna, dentro da propriedade de Fernando da Costa Prado, no município Sítio d’Abadia (GO), que também é um dos beneficiários do SAF. Após uma caminhada de aproximadamente quarenta minutos por dentro do leito de um riacho seco, nos embrenhando entre galhos e espinhos, alcançamos o local estratégico onde a câmera havia sido instalada dois meses antes. 

Onça pintada flagrada em uma das armadilhas fotográficas do projeto. Foto: Divulgação / FUNATURA
Onça pintada flagrada em uma das armadilhas fotográficas do projeto. Foto: Divulgação / FUNATURA

A pergunta que pairava no ar era: “será que a câmera ainda está lá?”. Isso porque tem sido recorrente o desaparecimento dos equipamentos instalados. No ano passado, sete das 70 câmeras do projeto sumiram. A principal tese é que caçadores as encontram e, com medo de serem identificados, furtaram o equipamento para eliminar as provas. O prejuízo para o projeto vai além do orçamentário (cada câmera custa em torno de R$ 2.500,00), pois perdem-se os dados coletados por tanto tempo. “Cada furto significa a perda de 2 a 3 meses de registros contínuos sobre a movimentação dos animais e das onças”, afirma Samantha.

Na propriedade visitada não tivemos problemas: a câmera estava lá, com mais de 500 registros. Retornamos para a casa de Fernando já no anoitecer, ansiosos para revisar as fotos e vídeos coletadas. “Baseado nos encontros que eu já tive, deve ter registro de [tamanduá] bandeira, tatu, raposa que é sempre avistada por aqui, mas principalmente a onça [pintada], né?”, comentou  Fernando, ansioso enquanto as imagens eram baixadas para o computador. “Apesar de alguns relatos, acho que seria a prova definitiva que toda a comunidade gostaria de ver em imagem”. 

A reportagem de ((o))eco acompanha a coleta de um dos equipamentos de armadilha fotográfica com a equipe do projeto. Vídeos: Marcio Isensee e Sá

Ao revisarmos as imagens, ficou claro que a fauna local é muito diversa e abundante. Mão-pelada, jacú, veado-campeiro, tamanduá-bandeira, jaguatirica e até uma família de onça-parda passou em frente à câmera entre 20 de junho e 30 de setembro de 2026. Mas infelizmente, nenhum registro da onça-pintada dessa vez. 

No dia seguinte, seguimos para outra propriedade em Damianópolis (GO), do casal Marinalva Barreto dos Santos e Damião Veloso de Souza. Mais uma caminhada de 30 minutos até as margens do Rio Vermelho, com parada na entrada de duas cavernas em busca de pegadas e outros vestígios de felinos, e chegamos ao local onde foi instalada a armadilha fotográfica. Dessa vez, as piores expectativas se confirmaram: a câmera não estava lá. Ficou a frustração dos pesquisadores e da família. Numa última tentativa, o casal de moradores gravou um depoimento em vídeo para espalhar nos grupos de whatsapp da região, solicitando a devolução da câmera e interesse apenas nos dados (fotos e vídeos) da fauna. Até o momento, não obtiveram sucesso.

Esse é só mais um dos desafios encontrados pela pesquisadora do projeto. Outro ponto delicado é obter as permissões para a instalação das armadilhas fotográficas em propriedades privadas situadas nas rotas dos corredores ecológicos. Em campo, a equipe deparou-se com forte desconfiança e preconceito ideológico contra ONGs e movimentos ambientais.

Em um dos episódios mais graves, ao buscar autorização para instalar câmeras em uma área privada próxima a um assentamento, os pesquisadores ouviram de um fazendeiro que ele “preferia tratar com traficantes a tratar com ambientalistas”. Em outro caso, proprietários de um empreendimento de ecoturismo expulsaram abruptamente os pesquisadores assim que souberam que se tratava de uma organização não governamental. Houve ainda situações em que equipes devidamente identificadas, uniformizadas e em veículos adesivados foram ameaçadas e recebidas com truculência ao entrar nas sedes de fazendas.

Corrida contra o tempo

Apesar do cenário desafiador, os resultados do projeto começam a desenhar um mapa inédito de esperança para a onça-pintada do Cerrado. A consolidação dos dados coletados subsidiará a publicação de artigos científicos, o refinamento das rotas de conectividade e a proposição de ferramentas formais de ordenamento territorial, como o incentivo à criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) e mecanismos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).

“Conservar a onça-pintada é garantir a qualidade da água e a vida de todo o ecossistema”, conclui Samantha Rincón. “Trabalhamos todos os dias sob o impacto da crise climática para que, daqui a dez ou vinte anos, as futuras gerações não conheçam a onça-pintada apenas nos livros de história, mas saibam que ela continua solta, caminhando e bebendo água nos rios do Cerrado”, completa.

Este conteúdo faz parte do projeto Cerrado em Pauta, com apoio do CEPF Cerrado

O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, da União Europeia, da Fundação Franklinia, da Fundação Hans Wilsdorf, do Fundo Global para o Meio Ambiente, do Governo do Canadá, do Governo do Japão, da Fundação Hempel, The Nature Conservancy e do Banco Mundial. Uma meta fundamental é garantir que a sociedade civil esteja envolvida com a conservação da biodiversidade. 

O Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) atua como a Equipe de Implementação Regional do CEPF. A missão do IEB é fortalecer os atores sociais e o seu protagonismo na construção de uma sociedade justa e sustentável, por meio de formação de pessoas, fortalecimento e articulação de instituições e grupos comunitários, e geração e disseminação de conhecimentos

  • Marcio Isensee e Sá

    Marcio Isensee e Sá é comunicador e gestor de conteúdo, especializado em jornalismo e audiovisual socioambiental. Atua na lid... →

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