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E quem cuida de quem coexiste com as onças?

A conservação de grandes felinos depende da parceria com as comunidades, que precisa ser construída também nos momentos em que elas precisam de apoio

4 de novembro de 2026
  • Yara Barros

    Doutora em zoologia, membro do CPSG Brasil, coordenadora do Projeto Onças do Iguaçu e pesquisadora Associada do Instituto Pró Carnívoros. →

Na última semana, eu e minha equipe passamos um dia inteiro na propriedade de Dona Iracema e Seu Mário, em Serranópolis do Iguaçu, um dos municípios vizinhos ao Parque Nacional do Iguaçu. Fomos até lá para construir um canil e reformar um galinheiro. E foi um daqueles dias que me fazem lembrar por que escolhi trabalhar com conservação.

Dona Iracema e Seu Mário são idosos e perderam cães em ataques de uma onça-pintada, a Katita Porã, que conhecemos bem. Ela eventualmente sai do Parque Nacional do Iguaçu e já predou cães em propriedades vizinhas. Sim, apenas cães. Katita foi capturada e recebeu um colar de monitoramento, que nos permite acompanhar seus deslocamentos. Quando identificamos que ela está se aproximando de propriedades, agimos rapidamente para tentar afastá-la, buscando evitar novas predações e reduzir também o risco de que seja abatida.

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Para quem trabalha com grandes felinos, situações como essa infelizmente não são novidade. Para quem perde seus animais, no entanto, a história é bem diferente. Não estamos falando apenas de prejuízo financeiro. Muitas vezes, esses animais são companheiros de muitos anos, fazem parte da rotina e da vida afetiva das famílias.

Nós, que trabalhamos com conservação, temos muitos argumentos para explicar por que precisamos proteger as onças. Sabemos de sua importância ecológica, de seu papel na manutenção dos ecossistemas e das ameaças que colocam sua sobrevivência em risco. E precisamos continuar falando sobre tudo isso.

Mas o que essas explicações significam para alguém que acabou de perder seu cachorro? Para alguém que teve um prejuízo financeiro? Não podemos esperar que uma pessoa aceite tranquilamente essa perda só porque a onça é importante para a biodiversidade.

Essa questão me leva a outra, sobre a qual já escrevi aqui: quem paga a conta da conservação?

Onça Katita Porã em propriedade onde predou cachorro. Imagem: Câmera Trap

A conservação da biodiversidade interessa a toda a sociedade. Queremos florestas protegidas, animais silvestres vivendo em habitats saudáveis, populações de espécies ameaçadas se recuperando. Ficamos felizes quando registramos uma nova onça, quando nasce um filhote, quando os resultados das pesquisas mostram que nosso trabalho está dando certo.

Mas quem vive perto da floresta experimenta a presença desses animais de uma maneira muito diferente de quem os acompanha pelas redes sociais.

Para algumas famílias, a presença de grandes predadores significa perdas de animais domésticos, preocupação com a segurança, mudanças na rotina e gastos com medidas de proteção. São consequências reais, vividas por pessoas que, muitas vezes, têm poucos recursos para lidar com elas.

E trabalhamos para compartilhar com as propriedades lindeiras ao parque a responsabilidade pela redução de sua vulnerabilidade à predação. Tentamos dividir esse custo.

Quem trabalha com grandes felinos sabe que sua conservação depende não apenas de conhecermos os animais, mas também as pessoas que vivem no mesmo território. Precisamos saber o que pensam, o que sentem, quais são suas dificuldades e como podemos ajudá-las a conviver com a fauna silvestre.

Não adianta chegar a uma propriedade onde houve predação de animais domésticos e fazer um discurso sobre a importância das onças. Antes de qualquer coisa, precisamos ouvir, entender o que aconteceu e procurar soluções junto com os moradores.

No caso de predação de cachorros, geralmente doamos a tela e a contrapartida do proprietário é construir o canil.

Na propriedade de Dona Iracema e Seu Mário, entretanto, havia uma dificuldade. Como os dois são idosos, construir o canil seria complicado. Resolvemos então organizar um Mutirão da Onça.

O Mutirão é uma resposta a uma questão importante: falamos tanto sobre o que as comunidades podem fazer pelas onças, mas o que podemos fazer para que as onças também tragam benefícios para essas comunidades?

A ideia é reunir pessoas e parceiros para resolver algum problema que afete a vida dos moradores. Não precisa ser necessariamente um problema causado por uma onça. O importante é que a conservação também possa contribuir para melhorar a vida de quem mora perto do Parque Nacional.

Nesse mutirão, contamos com uma parceria maravilhosa do Parque das Aves, que doou todo o material de construção e disponibilizou sua equipe de manutenção. O Parque Nacional do Iguaçu também ajudou, cedendo caminhão e motorista para transportar os materiais. Nossa equipe participou das atividades e passamos o dia todos juntos na propriedade.

O pessoal da manutenção do Parque das Aves trabalhou muito e fez um serviço excelente. Construíram um canil onde os cães poderão passar a noite protegidos e ainda reformaram completamente o galinheiro, que estava bastante vulnerável à entrada de predadores.

Enquanto isso, preparamos o almoço, conversamos, trocamos experiências e proseamos bastante. Foi um dia de trabalho, mas também de convivência, de conhecer melhor aquelas pessoas e ouvir suas histórias. Tempo para a escuta… tão importante para a coexistência.

No fim da tarde, os cães tinham um canil novo e as galinhas já estavam instaladas no galinheiro reformado. Dona Iracema e Seu Mário tinham estruturas mais seguras para proteger seus animais.

Voltamos para casa pensando em como essas experiências são importantes para o trabalho que fazemos.

Uma parte considerável do nosso esforço na conservação de grandes felinos depende da relação que conseguimos estabelecer com as comunidades. Dependemos da confiança das pessoas para receber informações sobre a presença de onças, conhecer situações de conflito, acessar propriedades e desenvolver medidas de prevenção.

Mas essa relação não pode funcionar apenas quando precisamos da colaboração dos moradores. É preciso estar presente também quando eles precisam de nós.

Isso parece óbvio, mas nem sempre acontece. Muitas iniciativas de conservação ainda tratam as comunidades principalmente como público de atividades educativas ou como fontes de informação para pesquisas. E, embora educação e pesquisa sejam fundamentais, as pessoas têm necessidades que vão muito além daquilo que nossos projetos pretendem estudar ou ensinar.

Também precisamos reconhecer que nem todos os problemas podem ser resolvidos por uma equipe de conservação. Não temos recursos para atender a todas as demandas, e existem questões que dependem de políticas públicas e de responsabilidades que ultrapassam o alcance de qualquer projeto.

Ainda assim, há muita coisa que podemos fazer. Principalmente quando conseguimos reunir parceiros dispostos a contribuir.

A participação do Parque das Aves nesse mutirão também faz pensar no papel das instituições zoológicas na conservação. Existe uma enorme diversidade de profissionais trabalhando nessas instituições, e suas contribuições podem ir muito além dos cuidados com os animais mantidos sob responsabilidade humana.

Equipes do Onças do Iguaçu e Parque das Aves com os proprietários. Foto: Divulgação

Naquele dia, foi a equipe de manutenção que fez a diferença. Profissionais com conhecimentos e habilidades que foram fundamentais para ajudar uma família a proteger seus animais domésticos e, ao mesmo tempo, reduzir a possibilidade de novos conflitos com uma onça-pintada.

Gosto muito dessa ideia de que a conservação envolve pessoas com formações e experiências tão diferentes. E de que cada uma pode contribuir com aquilo que sabe fazer.

Não quero, com essa história, sugerir que construir canis ou organizar mutirões seja suficiente para resolver os desafios da coexistência. Sabemos que não é. Os conflitos com grandes felinos são complexos, envolvem questões econômicas, culturais, sociais e ambientais, e muitas vezes exigem soluções que estão além das possibilidades de um projeto de conservação.

Mas há coisas que podemos fazer, e precisamos estar dispostos a fazê-las. Falamos muito sobre a importância de envolver as comunidades na conservação. Acho que precisamos dedicar a mesma atenção ao que essas comunidades esperam de nós. Essa relação não pode ser uma via de mão única.

Naquele dia, em Serranópolis, conseguimos atender a uma necessidade de Dona Iracema e Seu Mário. Foi uma ação pequena diante dos enormes desafios que enfrentamos para conservar as onças na Mata Atlântica. Mas foi importante para aquela família. E isso, por si só, já é motivo suficiente para fazê-la.

Continuamos precisando de pesquisas, áreas protegidas, recursos e políticas públicas efetivas para conservar os grandes felinos. Mas, se a conservação das onças é uma responsabilidade de todos nós, por que os custos de conviver com elas deveriam ficar apenas com algumas pessoas, né não?

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