Reportagens

Relacionamento à distância: morcegos voam até 700 km para reproduzir

Pesquisa registra a maior distância percorrida por um morcego no Brasil e reforça importância da conservação integrada de cavernas como sítios reprodutivos

Duda Menegassi ·
14 de outubro de 2022 · 1 anos atrás

Garantir a sobrevivência da espécie não é uma tarefa fácil para a maioria dos animais. No caso dos morcegos-das-costas-peladas, a reprodução depende de voos noturnos entre cavernas que estão até 700 quilômetros de distância uma da outra – o maior deslocamento já registrado para morcegos no Brasil. A descoberta foi feita por pesquisadores que analisaram colônias da espécie em nove cavernas diferentes no nordeste e, através da genética, revelou que trata-se de uma mesma população. Ou seja, relacionamentos à distância não são um problema para os costas-peladas, que usam essa rede de cavernas como sítios para reproduzir. 

Essa odisseia reprodutiva do morcego-das-costas-peladas (Pteronotus gymnonotus) foi descrita em artigo publicado no início de outubro (5), na revista científica Frontiers in Ecology and Evolution e é parte do doutorado da bióloga Fernanda Ito, sua autora principal. 

O estudo destaca o papel ecológico dessa rede invisível de cavernas que abrigam grandes populações de morcegos – as ‘bat caves’, algumas com mais de 150 mil indivíduos.

Foi justamente com o monitoramento de uma dessas cavernas especiais, que começou há dez anos, que os cientistas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) perceberam que havia uma grande flutuação na população de morcegos em curtos espaços de tempo. Ou seja, o número de morcegos oscilava para cima e para baixo, tal qual uma cidade litorânea que recebe turistas para o final de semana e se esvazia novamente quando chega a segunda-feira.

“Tinha época que a caverna estava com 160 mil morcegos e época que estava com 200. E a gente sabia que eles não estavam morrendo, então para onde eles estavam indo? Foi aí que surgiu a ideia da pesquisa. E nossa hipótese era de que os morcegos estavam vagando aqui pela região, pela Caatinga, e que para isso deveriam estar usando uma rede de cavernas”, explica o coordenador do Laboratório de Ciência Aplicada à Conservação da Biodiversidade da UFPE, Enrico Bernard, um dos autores do artigo.

Ao todo, o estudo mapeou nove cavernas, três no Ceará, duas em Sergipe, duas em Pernambuco e duas no Rio Grande do Norte. Desde vizinhas, a apenas 15 quilômetros uma da outra, até cavernas cearense e sergipana, no extremo norte e sul da área da pesquisa, separadas por 700 km em linha reta. 

Para confirmar se havia contato entre as colônias, os pesquisadores usaram a genética e contaram com o apoio do laboratório da Universidade de Helsinki, na Finlândia, para processar as amostras. 

Pesquisadores do Laboratório de Ciência Aplicada à Conservação da Biodiversidade, vinculado ao Departamento de Zoologia da UFPE, capturam morcegos na Caverna do Gato, próximo ao Parque Nacional do Catimbau, em Pernambuco. Foto: Enrico Bernard

“Primeiro você coleta o material genético e depois você faz o sequenciamento de todo o material. Quando há troca de material genético, trechos do DNA dos indivíduos são exatamente iguais. Ou seja, se houver isolamento e as populações não estiverem se cruzando, eles vão formar grupos separados, um de cada caverna. É o que chamamos de população estruturada, que significa que cada caverna possui a sua população. Quando fizemos a análise molecular – e nós rodamos mais de 200 amostras, um número enorme para este tipo de estudo – nós vimos que não havia estruturação nenhuma. Ou seja, todas as nove cavernas formam uma única população”, explica Enrico, que também é presidente da Sociedade Brasileira para o Estudo de Quirópteros (SBEQ).

Unida, essa população soma cerca de 900 mil indivíduos de morcegos-das-costas-peladas e confirma o intenso fluxo genético da espécie e alta capacidade de voo destes pequenos animais.

As distâncias percorridas pelo morcego-das-costas-peladas superam com folga os registros anteriores de morcegos brasileiros, todos inferiores a 200 quilômetros. Em outras partes do mundo, entretanto, a capacidade de locomoção destes mamíferos voadores não é novidade. Na Europa e na África, há exemplos de morcegos capazes de deslocamentos de mais de 2 mil quilômetros.

Por enquanto, não é possível saber em quanto tempo o morcego realiza sua viagem ou identificar algum padrão no seu deslocamento. “O que nós acreditamos é que eles estão vagando e que isso seria um nomadismo nesse bolsão seco da Caatinga”, aposta o pesquisador da UFPE. “Mas é provável que eles subam mais para cavernas no Maranhão e até no Pará, já na região amazônica”, acrescenta. 

Apesar de pequeno – ele pesa menos de 15 gramas – o morcego-das-costas-peladas possui uma ampla distribuição, desde o nordeste brasileiro até a Amazônia e, para além das fronteiras do Brasil, até a Colômbia.

Para conseguir mapear com maior precisão os deslocamentos do morcego e entender a verdadeira extensão da sua rota, a aposta está em outra ferramenta: o micro GPS. A tecnologia, ainda de difícil acesso no Brasil, está na mira dos cientistas para a próxima fase da pesquisa.

‘Bat tecnologia’ no censo

Câmera de infravermelho termal captura as imagens dos morcegos saindo das cavernas e algoritmo processa a contagem. Reprodução

Habitantes de cavernas muitas vezes de difícil acesso ou de condições insalubres, estudar os morcegos nem sempre é uma tarefa fácil. Em especial as cavernas que funcionam como berçários impõem um desafio comum aos pesquisadores: a câmara quente. Ambientes que chegam a quase 40 graus e com alta concentração de amônia, insuportáveis – e até mesmo letais – para seres humanos. É nesta câmara insalubre que as fêmeas de morcego dão à luz aos filhotes, que permanecem lá por três meses sem sair.

“Essas cavernas são muito pouco conhecidas porque ninguém aguenta ficar lá fazendo o croqui, mapeando. E até pouco tempo atrás ninguém conseguia contar os morcegos nesse tipo de cavernas, mas nós desenvolvemos há alguns anos um método de contagem através de imagens infravermelho termal e um algoritmo. A gente filma os morcegos saindo da caverna, pega esse vídeo, bota o algoritmo e ele conta os morcegos. Foi aí que a gente começou a ter um censo padronizado e começou a mostrar cavernas com 118 mil, 158 mil bichos dentro”, conta Enrico.

Através destes censos que não dependem de um observador humano, a equipe da UFPE evidenciou ainda mais as ‘bat caves’ e suas populações excepcionais de morcegos. O último censo foi realizado em 2019 e novas contagens irão começar a partir de novembro deste ano.

Área de influência: um conceito a ser revisto

Dentro do licenciamento ambiental, empreendimentos comerciais realizados em áreas com presença de cavernas são obrigados a fazer um estudo ambiental específico para classificar o grau de importância da caverna. Para ser avaliada como máxima relevância, ela precisa cumprir pelo menos um de uma série de critérios, entre eles manter uma população excepcional de morcegos. Ou seja, bat caves são, por definição da lei, de máxima relevância.

Esse status implica na obrigação ao empreendimento de não causar nenhum impacto à caverna, em si, e manter uma zona de proteção ao redor dela, para resguardar sua área de influência. Sem estudos específicos, tornou-se prática comercial convencionar essa faixa protetiva em 250 metros.

Caatinga e paredões de pedra no Parque Nacional do Catimbau, Pernambuco, onde está uma das cavernas estudadas pelos pesquisadores Foto: Enrico Bernard

De acordo com o presidente da SBEQ, a nova pesquisa reforça que as áreas de influência dessas grandes cavernas vão muito além dos 250 metros. “Os morcegos não usam uma caverna, eles usam uma rede de cavernas como abrigo e sítio reprodutivo. Isso faz com que a gente tenha que rever o que é área de influência. Você tem nove cavernas que formam uma única população. Isso aponta que a gente precisa entender essas cavernas e a reprodução dos morcegos numa escala de paisagem. Não é a caverna, é a paisagem”, destaca Enrico.

“Cada morcego come cerca de 20% do seu peso corporal em insetos. Você acha que ele consegue comer isso em 250 metros ao redor da caverna? Claro que não, eles usam paisagens. Então, se você preservar os 250 metros, mas detonar todo o restante, você está comprometendo área de forrageio, área reprodutiva… Essa faixa de 250 metros é insuficiente do ponto de vista ecológico e conservacionista”, completa.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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