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Tempestades de poeira, como a registrada em SP, podem se tornar mais frequentes com mudanças climáticas

Desmatamento na Amazônia está relacionado ao fenômeno, diz especialista. Estiagem prolongada e características do solo facilitam formação da nuvem de poeira

Cristiane Prizibisczki ·
28 de setembro de 2021

A tempestade de poeira que assustou moradores do interior de São Paulo e Minas Gerais no último domingo (26) é um fenômeno que pode se tornar cada vez mais frequente, devido às mudanças no clima, alerta especialista.

A formação é consequência de um fenômeno chamado de “frente de rajada” e consiste na combinação de poeira acumulada ao longo de períodos de estiagem com fortes ventos que antecedem as chuvas.

“A chegada da primavera trouxe as primeiras pancadas de chuva formando nuvens carregadas (cumulonimbus) mais ao sul das cidades do interior de São Paulo […] Com a chuva, os ventos aceleram – formando uma corrente descendente ou ‘frente de rajada’ – e, ao encontrar uma área mais quente, seca e com muita poeira, formam a nuvem”, explica nota do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), órgão vinculado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

O fenômeno atingiu municípios paulistas como Ribeirão Preto, Franca, Ortolândia, Jardinôpolis, Guaíra, Morro Agudo e Viradouro, além de cidades do Triângulo Mineiro.

Em Ribeirão Preto (SP), por exemplo, as rajadas chegaram perto de 100 km/h. Na região de Franca, a nuvem tinha dimensões tão grandes que encobriu prédios, inviabilizou o trânsito nas rodovias, prejudicou a visibilidade e a qualidade do ar. Outra consequência foi a queda na temperatura: os termômetros foram de 34ºC para 13ºC em poucas horas.

Segundo Pedro Luiz Côrtes, geólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP), a formação da nuvem registrada neste final de semana foi favorecida pelo grande período de seca e pelas características do solo na região. “Os ventos atingiram um solo extremamente ressecado por conta da estiagem que atinge o interior do estado de São Paulo. Esse solo havia sido preparado para o cultivo usando o arado, então ele fica muito desagregado e facilmente o vento carrega essas partículas com bastante intensidade e volume”, explica.

Segundo Côrtes, por ter atingido uma região urbana, o fenômeno chamou mais atenção e foi amplamente documentado. Mas ele não é incomum em regiões remotas. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, as tempestades de areia aconteciam com certa regularidade, até que, a partir da década de 1970, a região passou a adotar o plantio direto, sem o uso do arado para revolver o solo, o que trouxe como consequência positiva a redução significativa das nuvens de poeira.

Tempestade de poeira X mudanças climáticas

Imagem: Kallil Oliveira/Twitter

A formação da nuvem gigante de poeira está diretamente relacionada ao cenário de mudanças no clima, explica o pesquisador da USP.

“Estamos verificando, na prática, o que diziam os sucessivos relatórios do IPCC, que nos alertavam para uma tendência do aumento da temperatura na região Central do Brasil e um aumento da escassez de água. Não estamos mais na fase de prospectar o que vai haver no futuro, nós já estamos lidando com as consequências das mudanças climáticas e é uma coisa terrível, porque cada vez mais o tempo vai passando e as possibilidades de a gente reduzir esse impacto também vai diminuindo”, disse, a ((o))eco.

Desde 2020, o cenário de escassez hídrica tem atingido recordes no Brasil. Segundo o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, o país teve a menor entrada de água nos reservatórios dos últimos 91 anos no período chuvoso de setembro de 2020 a março deste ano. E a falta de chuva prossegue ao longo de 2021.

As bacias dos Rios Grande, Paraná, Paranapanema e Paraguai, que banham São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, ainda estão sob os efeitos da estiagem severa.

Ribeirão e Franca, por exemplo, enfrentaram o inverno mais seco e quente dos últimos nove anos.

Em Ribeirão, foram 38 dias com umidade entre 12% e 20% durante o inverno de 2021. O número é maior do que em 2014, ano da crise hídrica histórica para o Estado de São Paulo. Naquele ano, o município passou 33 dias de inverno nessas condições.

Além disso, foram outros 36 dias do inverno atual em estado de atenção, decretado quando a umidade fica entre 20% e 30%. A cidade entrou uma vez em estado de emergência, com índices abaixo dos 12%, segundo levantamento feito pela Defesa Civil.

O estado de alerta é decretado pelo órgão estadual quando a umidade do ar fica entre 12% e 20%. O percentual recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de 60%.

Consequência direta da baixa umidade do ar, as queimadas também bateram números históricos em Ribeirão durante este inverno. Ainda segundo a Defesa Civil, ao todo, foram registrados 438 focos de incêndio no município em 2021. Este é o segundo maior número para a estação desde 2013 e está atrás apenas de 2020, que registrou 518 focos.

Em Franca, foram 27 dias em estado de alerta para a baixa umidade do ar, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), e 42 dias em estado de atenção (umidade entre 20% e 30%). Além disso, foram outros dois dias em estado de emergência.

Assim como em Ribeirão Preto, o total de queimadas em Franca na atual estação (372)só perde para a do ano passado (385), considerando a série iniciada em 2013.

Outra consequência da estiagem é a falta de água nas torneiras. Em agosto passado, ao menos 53 municípios de cinco estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país começaram o racionamento de água.

Esse é o caso de algumas das cidades atingidas pela nuvem de poeira. Sem água, moradores não conseguiram limpar a sujeira que se acumulou nas ruas e casas.

“Essa escassez de água que vem atingindo a região central não é um evento que ocorreu somente este ano. O volume de água vem se reduzindo nos últimos dez anos, por conta do desmatamento da Amazonia”, explica Pedro Côrtes. “Se os ventos amazônicos estivessem carregando a umidade que tinham que carregar, primeiro que não teríamos essa crise de energia, porque as grandes usinas hidroelétricas na região central do Brasil estariam com nível adequado, e também ajudaria a reduzir o impacto da estiagem provocada pelo fenômeno La Niña, na região sul, principalmente”, diz.

Conter o desmatamento na Amazônia (acima) e regenerar a Mata Atlântica diminuiria a ocorrência de eventos extremos com a tempestade de poeira. Foto: Márcio Isensee e Sá.

Medidas de mitigação

Para evitar que novas nuvens de poeira se formem, o pesquisador da USP sugere o uso do plantio direto, sem o uso do arado. Mas ele lembra também que a recomposição de matas nativas é fundamental para o enfrentamento do problema.

“As matas têm a capacidade de reduzir o impacto do vento na superfície. O desmatamento contribui para que aconteça esse tipo de situação [nuvem de poeira], porque o vento, quando vem, acaba tendo um poder muito forte junto ao solo. Quando há matas preservadas, o impacto do vento diminui, mesmo que ao lado exista uma área de plantio”, diz.

  • Cristiane Prizibisczki

    Cristiane Prizibisczki é Alumni do Wolfson College – Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde participou do Press Fellow...

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