Reportagens

Travessia Guadakan: um olhar sobre a primeira trilha de longo curso do Pantanal

Além do turismo, trilha em processo de implementação na Serra do Amolar (MS) funcionará como acesso para brigadistas e rota de fuga para animais durante incêndios

Duda Menegassi ·
26 de agosto de 2026

Foram quase seis horas de navegação pelo rio Paraguai depois da saída do porto em Corumbá, Mato Grosso do Sul, até surgir a serra que desafia o relevo e a paisagem da maior planície alagável do mundo. Com pontos que se aproximam dos mil metros de altitude, a Serra do Amolar ergue uma silhueta única em pleno coração do Pantanal e oferece uma rara oportunidade de ver de cima a imensidão pantaneira. Remota e ainda pouco conhecida, ela é o palco da Travessia Guadakan. A trilha de longo curso, a primeira no Pantanal, tem como missão não apenas promover o turismo de natureza, mas ser uma ferramenta estratégica diante da ameaça dos incêndios no bioma.

Em nome de ((o))eco, fui convidada* a percorrer parte da Travessia Guadakan junto a um pequeno grupo selecionado para testar e conhecer a trilha. Essa caminhada inaugural, realizada no início de agosto, incluiu a subida da Serra do Amolar até o primeiro acampamento do percurso, um mirante para ver o pôr-do-sol na Bolívia e um trecho aquático de caiaque pelas águas do rio Paraguai. 

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Ao todo, foram cerca de 29 quilômetros na ponta da bota e outros 20 de remada durante os três dias em que percorremos a travessia. Um gostinho do potencial da trilha, planejada para chegar a 60 quilômetros terrestres, e que irá conectar por terra duas bases do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), organização que encabeça o projeto da travessia. 

“O Pantanal não se impõe, ele se apresenta”. Com essas palavras, o coronel Ângelo Rabelo, fundador e presidente do IHP, recebeu nosso grupo em Corumbá, onde está a sede do instituto e ponto de partida para a serra. 

A frase faz um paralelo com a própria experiência de Rabelo, mineiro de berço e pantaneiro por vocação. Ele chegou na região na década de 80, como Policial Militar, para enfrentar o tráfico de animais silvestres e a caça. Ao longo das décadas, sua relação com o bioma evoluiu e o transformou num dos grandes porta-vozes da defesa do bioma, com destaque para a criação do IHP em 2002. 

“O Pantanal me levou numa curva de aprendizado e para a necessidade de assegurar que o bioma fosse protegido, já pensando como um ativista, como alguém que tem um compromisso em proteger esse lugar”, resume o diretor presidente do IHP.  “E nos últimos anos, nós nos propusemos ao desafio, que também foi uma lição aprendida, de abrir nossas porteiras, mostrar o que nós fazemos, e o turismo vem se consolidando como um caminho importante para essa relação de valor com o território, em especial a Serra do Amolar, porque ela só pode nascer a partir do contato, do conhecimento”, completa.

Da ideia de mostrar o Pantanal e a Serra do Amolar para o mundo – e a importância de protegê-los –, nasceu a Travessia Guadakan.

A região da Serra do Amolar, em Mato Grosso do Sul, uma das paisagens mais marcantes do Pantanal. Foto: Eduardo de Melo/IHP

A travessia: Guadakan se apresenta

A trilha começa na Base do IHP de Novos Dourados e sede da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Engenheiro Eliezer Batista. A reserva, com cerca de 13 mil hectares, integra a Rede de Proteção e Conservação da Serra do Amolar. A aliança, criada pelo próprio instituto com o objetivo de garantir a proteção da biodiversidade. A rede soma quase 400 mil hectares de áreas protegidas, entre unidades de conservação públicas e privadas, e cujo coração é o Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense.

A área é uma antiga fazenda, assim como outras propriedades adquiridas e convertidas em reserva pelo IHP, e ainda possui as estradas e acessos usados desde a época em que se tocava boi por ali. O gado, porém, segue na região, oriundo de propriedades vizinhas que mantém a tradicional pecuária extensiva pantaneira. E, em mais de uma ocasião, nosso caminho cruzou com o dos bois, dando à paisagem da Serra do Amolar o contraste do couro branco dos Nelore.

São cerca de oito quilômetros praticamente planos em que a trilha segue por esses caminhos batidos usados pelos fazendeiros, em meio a uma vegetação majoritariamente arbustiva, desfolhada e de aspecto seco, com a exceção de cambarás e ipês que parecem desafiar a regra geral com as cores vibrantes da sua floração. No percurso, chamam atenção ainda agrupamentos de carandá (Copernicia alba), palmeira típica de áreas úmidas e um dos símbolos da flora do Pantanal.

Praticamente a cada quilômetro, surge um totem estampado com a pegada de sinalização do percurso em amarelo e preto que reúne três elementos distintos: a serra, o estado de Mato Grosso do Sul e uma pegada de onça-pintada, a rainha do Pantanal. A identidade adota o padrão oficial da Rede Brasileira de Trilhas, política pública federal que promove a conectividade das paisagens, aliada à promoção do turismo, acesso ao lazer e geração de renda.

Fotos: Duda Menegassi

A vegetação mais aberta permite com que praticamente o tempo inteiro, eu mantenha os olhos na serra que preenche o horizonte com um relevo que muitas pessoas não associam ao Pantanal. A Serra do Amolar estende-se por 80 quilômetros, na fronteira entre o Brasil e a Bolívia, e abriga os pontos mais altos do bioma, chegando a 976 metros de altitude.

Nosso acampamento e ponto de pernoite está a menos de 600 metros de altitude, mas a vantagem de ser a única cadeia de montanhas do pedaço é que não é preciso muito para ter uma visão panorâmica privilegiada.

Durante os quase cinco quilômetros de subida até o “Acampamento 1” é impossível não parar para contemplar a paisagem que, na medida em que subimos, ganha uma imensidão e beleza cada vez maior. Nem uma pancada de chuva que desabou durante nossa caminhada, de forma completamente inesperada para essa época do ano marcada pela estiagem, estragou a experiência visual de ver os rios e corixos espalhados sobre um tapete verde, com bordados amarelos das flores dos ipês (Tabebuia aurea) e cambarás (Vochysia divergens).

Chuva no Pantanal em agosto tem jeito de benção. Em ano de Super El Niño e com as previsões de que será um “ano de fogo” no bioma, a água dos céus acende um fundinho de esperança de que “talvez não seja tão ruim”.

Acampamento 1, pernoite a mais de 500 metros de altitude na Serra do Amolar. Foto: Duda Menegassi

Em 2025, cerca de 30 mil hectares da serra queimaram durante um incêndio que se estendeu por duas semanas entre os meses de setembro e outubro. O fogo chegou a atingir partes da trilha e danificar placas de sinalização que já haviam sido instaladas, um passado recente contado por troncos chamuscados que cruzamos no caminho.

A ocasião deixou claro que as trilhas são também linhas de defesa contra os incêndios e uma ferramenta de acesso facilitado para os brigadistas combaterem as chamas. A depender da intensidade do fogo e da largura da trilha, ela pode funcionar, inclusive, como aceiro, sendo uma faixa limpa de vegetação, prevenindo que as chamas passem de uma margem à outra.

“As trilhas ajudaram a gente no acesso pro combate e como aceiros. E na Guadakan, a gente ainda consegue subir pra ver onde está o fogo”, detalha o brigadista Manoel Garcia, coordenador da Brigada Alto Pantanal, mantida pelo IHP.

Além disso, os caminhos abertos funcionam como escape para os animais, pontua o coronel Rabelo. “A trilha vai cumprir diferentes papéis, não só como produto turístico. Quando nós fomos surpreendidos de maneira perversa e inesquecível com o fogo de 2020, consolidamos perdas inestimáveis, mas percebemos que grande parte dos animais morreram porque não tinham rota de fuga. Não havia trilhas. E quando enfrentamos o fogo em 2023 e 2024, já tínhamos começado a construir esses caminhos e vimos que eles de fato são usados pela fauna”, detalha.

Além da ameaça do fogo, a trilha pantaneira precisa considerar outro componente para operar: a disponibilidade de água. De acordo com Paula Rascão, a trilha terá uma janela de operação entre março e agosto, justamente para garantir que haverá água no riacho que abastece o acampamento 1.

“Nós temos o desafio da crise climática e as mudanças que estão ocorrendo. Então teremos que fazer esse monitoramento contínuo”, acrescenta a consultora técnica, especialista em gestão de trilhas, contratada pelo IHP no final de 2023 para ajudar a tirar a Guadakan do papel. 

Diante do visual da maior planície de inundação do mundo, parece irônico falar de falta de água. Os dados, porém, são cruéis. O Pantanal foi o bioma com maior redução de superfície de água em 2025, de acordo com levantamento do MapBiomas. No ano passado, a área coberta por água ficou 56% abaixo da média histórica, registrada entre 1985 e 2025.

Em 2026, dados da Bacia do Alto Paraguai mostram uma recuperação parcial dos níveis dos rios, mas o volume das chuvas foi insuficiente para recuperar o déficit acumulado desde 2019 e a cheia manteve-se abaixo da média histórica.

O cartão-postal da Serra do Amolar. Foto: Duda Menegassi

Um novo caminho

Do acampamento, é possível esticar o caminho em cerca de seis quilômetros (ida e volta), num trecho recém-aberto e manejado que leva a um mirante, ainda sem nome, virado para o outro lado da serra. “Aqui era tudo pedra solta por baixo desse capim, era muito difícil de andar”, lembra Paula enquanto andamos numa trilha tão bem manejada, que segue a curva de nível da montanha, que é difícil de acreditar nesse antes e depois.

O grande responsável por essa transformação tem nome – e apelido. Joel Miguel Camilo, ou simplesmente o Mineiro, já foi funcionário do Parque Nacional da Tijuca (RJ), onde acompanhou a implementação de outra trilha de longo curso, a Transcarioca, e hoje se dedica à empresa Manejo Solutions. “Foi difícil, tiramos muita pedra, mas aos poucos o caminho vai aparecendo”, conta, tal qual um pai orgulhoso. Mineiro trabalha com a ajuda de indígenas Guató, capacitados no âmbito do projeto da Travessia Guadakan.

A trilha contorna a serra até chegar na altura de um vale entre dois morros maiores, onde a paisagem se abre para o outro lado. De lá, enxerga-se a Bolívia e a lagoa Gaíva, uma das três grandes lagoas que circundam o Amolar, com direito a um pôr do sol espetacular quando o astro rei se esconde por trás das montanhas bolivianas, transformando a água num espelho dourado. Na moldura do mirante estão as formações rochosas da serra no seu aspecto mais cênico, com paredões esculpidos pelo tempo.

No mirante ainda sem nome, com vista para lagoa e para a Bolívia. Em destaque, Mineiro, responsável pelo manejo da trilha. Fotos: Duda Menegassi

Deste ponto, o traçado planejado seguirá pela serra até o acampamento 2. Como boa trilheira, minha bota coça imaginando quão espetacular será esse caminho por cima da serra. 

A fase atual de implementação da Travessia Guadakan foi viabilizada com recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), por meio do Projeto Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a Biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre), administrados pelo FUNBIO. 

O projeto viabilizou a abertura da rota no Amolar e a entrega de cerca de 30 quilômetros de trilha manejados e sinalizados, que incluem o caminho até um segundo acampamento no alto da serra. Ao todo, a previsão é que haja de três a quatro pontos de camping no traçado entre Novos Dourados e Acurizal. Os próximos passos, literalmente, ainda dependem de recursos. 

“A própria operacionalização [turística] desse primeiro trecho pronto pode ajudar a viabilizar o restante”, pondera Paula. Não há, porém, uma previsão formal de quando a travessia será disponibilizada como produto turístico. O que se sabe, como adianta a sócia-fundadora do eTrilhas, é que vai ser obrigatório o acompanhamento de guias, até pelo contexto remoto e logístico do percurso, para garantir a segurança dos caminhantes.

Por ora, cabe a nós descer a serra no dia seguinte e seguir o caminho por baixo até a RPPN Serra Negra, onde está a base do IHP, e “ponto de escape” para quem não desejar fazer toda a travessia. 

Durante a descida, namorei mais uma vez a paisagem e a oportunidade única de ver a imensidão pantaneira do topo de uma montanha. “Antes de conhecer a Serra do Amolar, eu não tinha noção que existia serra no Pantanal e que o Pantanal pudesse ser visto de cima através de uma trilha. Achava que para isso só de avião. É um produto muito diferenciado”, compartilha Paula.

O Pantanal visto de cima. Foto: Duda Menegassi

Ao chegar na baixada, a trilha segue por outro rumo, contornando uma das inúmeras lagoas que se formam pela planície pantaneira. Nas margens, é possível ver as moitas flutuantes de aguapé (plantas aquáticas comuns nos rios da região) e até vitórias-régias que parecem deslocadas, mas me lembram que o bioma é uma colcha de retalhos ecológica transfronteiriça com influências da Amazônia, do Cerrado, da Mata Atlântica, assim como do Chaco e do Bosque Seco Chiquitano.

Ao todo, até a base da Serra Negra, são aproximadamente 10 quilômetros de caminhada, percorridos em apenas três horas, que refletem a máxima de que “para baixo todo santo ajuda”. O local funciona como a sede da Brigada Alto Pantanal, programa de brigada permanente criado em 2021 e gerido pelo IHP para prevenção e combate aos incêndios na região. 

Da Serra Negra, seguimos de barco até Acurizal, destino final da Travessia Guadakan e que, no futuro, será acessível a pé. A base é a que tem maior vocação turística, a começar pela sua localização privilegiada, no meio de uma baía de mesmo nome, com o cartão-postal da Serra do Amolar no horizonte.

As construções da antiga fazenda foram transformadas em quartos confortáveis, espaço de convivência e num amplo refeitório, onde foram servidos deliciosas refeições com pacu e pintado, os peixes mais famosos do Pantanal.

A base é a principal hospedagem usada nos roteiros oferecidos pelo Amolar Experience, braço de turismo do Instituto Homem Pantaneiro lançado em 2020 com roteiros voltados para pequenos grupos que desejam conhecer a Serra do Amolar e viver experiências com comunidades locais, como mulheres artesãs que transformam as aguapés (plantas aquáticas abundantes na região) em cestos e decoração, e parceiros do IHP no território. 

“O turismo vai, de uma maneira sustentável e responsável, aproximar essas pessoas do Pantanal e ajudar a subsidiar o trabalho e, principalmente, as estruturas nas bases do instituto. Porque o IHP vive da captação de recursos e o turismo, mesmo sendo um programa pequeno em termos de captação, nos ajuda a subsidiar aquilo que não é colocado na planilha: a lâmpada, a pintura, a porta, o prato… E toda questão estrutural das bases. Além de apoiar a divulgação do próprio trabalho do IHP”, contextualiza o turismólogo Luiz Ricardo Julião Rocha, coordenador do Amolar Experience.

A trilha fará parte do cardápio de roteiros e pode atrair um novo público para viver a região. “É mais um produto para ajudar as pessoas a entenderem [o Pantanal]. Ao passo que você está no seu lazer, você está sendo educado ambientalmente”, resume o coordenador.

O tempo do rio (e das aves)

“O trecho aquático vem para complementar essa experiência. Porque depois de dias caminhando, você também tem uma experiência na água. E de uma forma mais calma, sem ser na embarcação. Sem barulho de motor, podendo vivenciar o bioma de perto, observar as aves, sentir o tempo do território, chegar numa comunidade, ver o tempo das pessoas”, explica Paula Rascão sobre a ideia de acrescentar um trecho de caiaque à Travessia.

A aventura nas águas dos rios Paraguai e São Lourenço soma cerca de 20 quilômetros, com ajuda da correnteza, o que facilita a remada. O grupo se divide em duplas e remadores solitários dentro de caiaques laranjas. Como previu Paula, a experiência é uma oportunidade de desacelerar junto com o rio e presenciar a vida que existe em suas margens. Nada de onça, nem de ariranha, infelizmente, mas um verdadeiro espetáculo de aves nos acompanhou durante toda a remada.

Com mais de 450 espécies de aves, o Pantanal é um paraíso para elas. E não é preciso binóculos ou lentes enormes, tampouco ser um especialista, para observá-las e se encantar com sua beleza. 

Observo sem muito esforço pelo menos duas dezenas de espécies, muitas que não sei o nome. Entre as mais fáceis de ver estão a garça-moura (Ardea cocoi), grande e com uma máscara preta que contrasta com o pescoço e a barriga brancas; as garças-brancas, pequena e grande, reunidas em grupos e que saem batendo asas em bando sobre o rio diante de qualquer barulho; o biguá (Phalacrocorax brasilianus), com corpo todo preto, e a biguatinga (Anhinga anhinga), com seu pescoço longo e inconfundível, ambos exímios nadadores; e o martim-pescador-grande (Megaceryle torquata), com uma cabeça e bico que parecem desproporcionalmente grandes em relação ao resto do corpo, mas não o impedem de um voo certeiro. Há ainda os gaviões, dos quais o carcará (Caracara plancus) é o mais comum. 

E o símbolo do Pantanal, o tuiuiú (Jabiru mycteria), com seu tamanho impressionante que chega a 1,60 metros de altura – maior que algumas pessoas que eu conheço! – e seu rosto todo preto, caprichosamente adornado por uma faixa vermelho sangue, que completam a estética tricolor com seu corpo e asas inteiramente brancos.

As aves são definitivamente as estrelas da remada junto com a serra que aparece do lado, atrás ou, às vezes, de surpresa pela frente após a curva do rio, renovando o encanto por essa montanha que desafia a planície. 

Gavião-preto (Buteogallus urubitinga), uma das mais de 450 espécies de aves que vivem no Pantanal. Foto: Duda Menegassi

Mesmo com o sol forte, as quatro horas no caiaque transcorrem de forma agradável, como um passeio sem pressa, feito sob medida para que o Pantanal apresente-se a seu modo, no ritmo lento das águas.

Desembarcamos na comunidade indígena da Barra do São Lourenço, onde vivem algumas famílias Guató. A casa é abastecida por painéis solares, que chegaram por lá em 2021 com o projeto Ilumina Pantanal, possibilitando o funcionamento de geladeiras e a preservação de alimentos. Ainda assim, no Pantanal o peixe é sempre fresco, como fica claro enquanto observo uma das mulheres da comunidade fatiar quatro pacus recém-pescados em uma bandeja na beira do rio.

Guadakan e os Guató

“Guadakan é o Pantanal”, explica Rose, dos Guató, traduzindo a palavra usada pela etnia, ocupante ancestral do bioma. Os indígenas, vizinhos à Serra do Amolar, concentram-se hoje na Terra Indígena Guató, homologada em 2003, e tornaram-se parceiros na implementação da trilha.

O IHP já atuava junto aos Guató e durante os incêndios em 2024 apoiou a criação da Brigada Uberaba Guató, composta pelos indígenas, junto ao Ibama PrevFogo. “E quando a gente começou a implantação [da Travessia Guadakan], a gente percebeu que tinha atores próximos e que a gente podia e devia dar oportunidade”, afirma Rabelo.

Foram feitas capacitações de manejo e sinalização de trilha, além de uma oficina de competência mínima de condutores, apostando no potencial dos Guató como futuros guias da travessia. Em julho, o IHP conduziu um grupo de dez Guató para inaugurar o “Acampamento 1” e fazer o primeiro test drive da subida da serra. Rose foi uma das integrantes da expedição. “Foi muito incrível, porque lá no território não tem morro, então poder ver tudo isso aqui é muito lindo”, lembra a indígena, que regressou às alturas da Serra do Amolar no mês seguinte, dessa vez contratada para nos acompanhar e cozinhar as refeições no acampamento.

“Queremos abrir trilhas lá na aldeia agora”, comenta. Inspirados pela travessia, os indígenas solicitaram uma oficina no seu próprio território, na Ilha Ínsua, para avaliação de trilhas usadas por eles que possam ser estruturadas e sinalizadas para receber turistas. Além do apoio técnico, o IHP irá disponibilizar a oficina de marcenaria construída no âmbito da Travessia Guadakan para que os Guató desenvolvam suas placas e estruturas.

O investimento no turismo é também uma forma de valorizar e dar visibilidade ao povo Guató, o último povo canoeiro do Pantanal. “Um tempo atrás nós quase fomos extintos, eram só cinco famílias. Aí teve a demarcação. Hoje são umas 200 pessoas”, explica Rose.

Expansão do turismo pantaneiro

Ainda que a trilha não passe – ao menos por ora – dentro do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense, no estado vizinho, a experiência da Travessia Guadakan tem sido uma inspiração para o parque nacional também investir em ecoturismo.

“É algo que por muitos anos acabou ficando em segundo plano por conta das outras demandas que temos enquanto unidade de conservação. E agora que recebemos esse reforço de novos analistas esse ano por conta do último concurso, estamos com mais força para promover o uso público”, conta a analista ambiental Maria Eduarda Barros, ponto focal do uso público no Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense e, ela própria, uma das novas servidoras que fortaleceram a equipe da área protegida.

Atualmente, o parque já é aberto à visitação, porém apenas com autorização prévia do ICMBio. O visitante pode conhecer a base no rio Paraguai, navegar de barco e observar a fauna, em especial as aves, mas não há nenhum atrativo formalizado. Ao longo de 2025, de acordo com dados do ICMBio, a unidade de conservação recebeu 335 visitantes. Parte deles vieram justamente pelos roteiros da Amolar Experience.

“A inauguração da Travessia Guadakan vai fomentar o turismo na região como um todo, que é uma região remota, com suas dificuldades, mas que não impede que o turismo seja feito com qualidade, responsabilidade e segurança”, completa a analista.

Vista do nascer do sol no acampamento 1. Foto: Duda Menegassi

Trilhar definitivamente não é a primeira coisa que um turista pensa quando planeja uma visita ao Pantanal. A observação da fauna, em especial da onça-pintada, percorrer os rios e o próprio turismo de pesca, que movimenta bilhões de reais anualmente, estão certamente na frente da lista de atrativos do imaginário popular. Pelo menos por ora. 

“Eu diria que nós fomos ousados. Ninguém nunca considerou isso como uma oportunidade no Pantanal. Trilhas, né? E eu quero crer que essa vai ser uma experiência incrível de encontro com a natureza. É uma paisagem que impressiona a todos pela magnitude, pela beleza, pela oportunidade de contato com a vida silvestre. Acho que é desnecessário muitos argumentos quando você tem uma trilha que te aproxima do céu”, reflete Rabelo, durante a entrevista, feita sob uma noite espetacularmente estrelada no alto da Serra do Amolar.

*A repórter viajou a convite do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO)

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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