De glaciares a desertos, de planícies alagadas à Cordilheira dos Andes, dos campos abertos às florestas da Amazônia e às águas calmas do Caribe, são muitos os caminhos do Novo Mundo. No sentido norte-sul, o continente americano soma mais de 15 mil quilômetros de extensão e 35 países. É por essa magnitude continental que trilheiros sonham construir um caminho – ou melhor, vários – que una a América. É o sonho da Trilha Pan-Americana.
Construir um caminho pan-americano que conecte as terras ao norte, do Alasca, com o extremo sul da Patagônia, pode parecer um sonho distante. E mesmo os mais intrépidos sonhadores não ousarão achar que este é um objetivo fácil ou rápido de ser implementado. Aos poucos, entretanto, cresce a contagem dos quilômetros de trilhas implementadas no continente e, com ela, materializa-se um pouco mais a perspectiva de um percurso que ligue pontas opostas da América.
Na porção norte do continente, os Estados Unidos e o Canadá já estão conectados por trilhas de longo curso. E menos de 150 quilômetros separam os caminhos da Transcanada Trail do Alasca, território americano mais ao norte, no Círculo Polar Ártico.
“São três etapas para implementar uma trilha: sonhar, prospectar o caminho e fazer a trilha acontecer”, resume o fundador e presidente do Núcleo Américas da World Trails Network, Nathaniel Scrimshaw, em palestra nesta sexta-feira (27), durante o 1° Congresso Brasileiro de Trilhas, que ocorre em Goiânia.
No Brasil, o sonho de unir os dois extremos do país – o Oiapoque, no Amapá, com o Chuí, no Rio Grande do Sul – já começa a ganhar corpo e pegadas variadas, algumas inclusive já em sinergia com os vizinhos. É o caso dos Caminhos do Peabiru, uma rota histórica usada por indígenas e povos originários para ir do oceano Atlântico ao Pacífico, do Peru ao Brasil.
Na divisa entre o município de Foz do Iguaçu, do lado brasileiro, e de Cidade Del Este, do lado do Paraguai, os esforços para implementar a trilha serão coordenados de forma transfronteiriça através de um acordo de cooperação. O termo estabelece a criação de um grupo de trabalho para implementar o caminho pré-hispânico Tapé Aviru, um dos eixos do Peabiru. A iniciativa é feita em parceria com o Parque Nacional do Iguaçu, por onde passará a trilha.
Mais ao oeste, outra iniciativa ‘hermana’ emerge para construir o sonho do caminho pan-americano: a Red Boliviana de Senderos. O equivalente boliviano da rede de trilhas, foi, inclusive, inspirado pela articulação brasileira. De nascimento recente, em 2020, a sinalização das trilhas da Bolívia começou apenas no ano passado e levou as pegadas amarelas e pretas, estampadas com espécies da fauna e flora, para o nosso vizinho sul-americano.
O coordenador da Red Boliviana, Cesar Aspiazu, reforça o potencial da integração continental através da recuperação de caminhos históricos, como Qapac Ñan, o sistema de estradas da civilização Inca, que percorre Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador e o sul da Colômbia. Os caminhos incas somam mais de 30 mil quilômetros, reconhecidos pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, e cruzam localidades turísticas como Macchu Picchu, cartão-postal peruano e da América do Sul.
“Uma coisa importante que aprendi com minha experiência ao implementar trilhas na América Central é a importância dos antigos leitos de trilhas, alguns com milhares de anos, para implementação de trilhas modernas”, conta James Barborak, especialista na gestão e implementação de áreas protegidas.
James, que é assessor do Centro de Gestão de Áreas Protegidas da Universidade Estadual do Colorado, trabalhou em cerca de 30 países, vários deles na América Latina, com a implementação de áreas protegidas e trilhas. “A civilização maia, por exemplo, construiu oito sistemas de trilhas com caminhos de pedras para conectar suas cidades-estado do México à Honduras e muitos destes caminhos ainda são visíveis”, pontua.
Num passado mais recente, os próprios caminhos abertos pelos invasores e colonizadores europeus também pode servir de base para resgatar trilhas no continente. “Existe uma ampla rede de infraestrutura já existente e que incorpora ainda o caráter de patrimônio cultural e histórico que poderia ser usada para o desenvolvimento de trilhas na região”, reforça James.
O assessor aposta ainda na realização de workshops nos países para fomentar a criação desse sistema pan-americano de trilhas, discutir as demandas, ouvir e envolver os atores locais, fundamentais não apenas para criar, mas também para manter as trilhas. Além disso, James aponta a importância de ter um fundo de financiamento para aquisição de terras e para realizar as atividades de capacitação.
Já entre os principais desafios para implementar trilhas em um território com a complexidade e diversidade da América Latina, James ressalta a disputa das trilhas e áreas naturais com as guerrilhas, o tráfico de drogas e imigrantes ilegais.
Do Alasca à Patagônia, um quebra-cabeça de peças ainda em sua maioria esparsas começa a se formar e os trilheiros sonhadores não limitam seus sonhos às fronteiras geopolíticas. “Precisamos trocar o conceito de fronteira com o significado de separação, por fronteira como sinônimo de integração, o local onde os povos dão as mãos”, destaca Pedro da Cunha e Menezes, diretor de comunicação da Rede Brasileira de Trilhas.
O caminho, com o perdão do trocadilho, é longo. O sonho, porém, é mesmo o primeiro passo em qualquer trilha.
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