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“Uma história das florestas brasileiras”: um almanaque abrangente de nossas formações florestais

((o))eco recomenda - Zé Pedro Oliveira Costa usa de sua vasta experiência sobre as matas tupiniquins para revisitar a história do Brasil sob a perspectiva de nossos diferentes biomas

Cristiane Prizibisczki ·
28 de outubro de 2022

Acaba de chegar às livrarias o que pode ser considerado um  “almanaque” das formações florestais tupiniquins. Escrito pelo pesquisador e ambientalista José Pedro de Oliveira Costa, o livro “Uma história das florestas brasileiras” é, ao mesmo tempo, uma revisão histórica de nossas diferentes matas e um apelo pela sua conservação.

Com um currículo que acumula os cargos de professor e pesquisador da USP, ex-secretário nacional de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, ex- secretário de Meio Ambiente de São Paulo, incansável criador de áreas protegidas – são mais de 150 – e defensor de primatas, Zé Pedro, como gosta de ser chamado, usa de sua vasta experiência para recontar a história do Brasil por meio das transformações em suas diferentes formações vegetais.

Da densa vegetação amazônica ao alagado Pantanal, Zé Pedro relembra como os grandes ciclos econômicos pelos quais o país passou, desde a época de seu descobrimento, impactaram nossos biomas, destaca a relação simbiótica que brasileiros originários têm com a natureza, e detalha como ela foi retratada, ao longo dos últimos séculos, nas diferentes formas de expressão humana. 

Em entrevista concedida a ((o))eco, Zé Pedro conta um pouco mais sobre esta sua obra, cuja semente foi plantada lá na década de 1970, e como ela pode ajudar o Brasil – e os brasileiros – a olhar com mais cuidado e interesse para nossas florestas. Afinal, são elas as responsáveis por formar a nossa identidade, diz.

((o))eco – Na obra você fala de todos os biomas brasileiros e também das diferentes formas que nos relacionamos com ele e os retratamos, além dos esforços de preservação. Por que um livro tão abrangente?

Zé Pedro – Eu tive, vamos dizer assim, que inventar um jeito de contar porque a floresta é importante. Ela é importante por questões físicas, certo? De garantir a água, a qualidade do ar, a contenção das encostas etc. Mas ela tem uma outra importância também, que é cultural. Daí eu fui trabalhando no tema e achando que em todo lugar tinha floresta pra falar. Então foi a hora que eu peguei a literatura e depois já caiu pra música e mais recentemente, numa nova incursão [ao texto] eu escrevi sobre a floresta e a juventude, a floresta e os interesses econômicos. E por que tão abrangente? Porque o livro tenta ser um convencimento das pessoas que Brasil sem floresta é igual a um deserto.

“Conservar a vegetação natural dos sítios de beleza excepcional e a biodiversidade de um país é preservar sua identidade. Esse é o verdadeiro significado de civilização” – pag. 217

Desde quando a semente do livro foi plantada com o seu mestrado, no final da década de 1970, até a publicação neste ano, bastante tempo se passou. Você acha que lutar pela conservação da natureza está mais difícil hoje do que era antes?

Olha, não está mais difícil, o trabalho hoje está perto do impossível. Nós tivemos a gestão do Salles no Ministério do Meio Ambiente e ele fez o que fez, teve aquela fantasia de que o vice-presidente Mourão iria com o exército cuidar da Amazônia e foi uma espécie de tapar o sol com a peneira, porque ele ficou quase dois anos e saiu dizendo que não conseguia fazer aquilo. E agora recentemente nós estamos vivendo uma mentira absurda. Na época dos militares… e eu absolutamente não sou a favor da ditadura militar, tive gente da família torturada, uma coisa absolutamente horrível, nociva, mas nessa época havia uma consciência ambiental. A Maria Tereza [Jorge Pádua] conseguiu ampliar o sistema de parques nacionais, o Paulo Nogueira Neto criou o sistema de estações ecológicas. Eu mesmo participei, ajudando a desenhar a [estação ecológica] Juréia, a Área de Proteção Ambiental da Serra da Mantiqueira. Então a gente progredia nesse sentido. Ninguém falava para não vacinar, ninguém falava para destruir a Amazônia. É claro que abrir a Transamazônica obviamente destrói, mas existia também uma consciência no sentido de proteger. Mas, a partir da Dilma, nós passamos a ter criação de área protegida zero. O Bolsonaro não cria nem área de dez mil hectares para uma espécie de primata ameaçado da Amazônia. Ao mesmo tempo temos grileiros, garimpeiros invadindo áreas indígenas, reservas, estações ecológicas. Eu conversei com cinco ou seis ex-ministros do meio ambiente e todos concordaram que o ator mais destruidor da natureza no Brasil é o governo.

“O jornalista e escritor Fernando Gabeira acentuou a seguinte semelhança linguística: ‘Matar e desmatar são verbos que têm uma forte relação entre si” – pag. 221

Qual foi seu objetivo ao lançar o livro?

A pretensão do livro é, o quanto possível, interferir no comportamento de todos, especialmente de quem tem mais responsabilidade, no sentido de que a gente mantenha a nossa biodiversidade, que lute o máximo possível para mantê-la. Para isso, eu mostro alguns instrumentos, não são todos, mas aqueles que acho que poderiam ser mais, digamos assim, atraentes. O livro é basicamente uma denúncia. Ele denuncia não só este governo que está aí como também denuncia outros governos e o que não está sendo feito [para preservar]. Porque está claramente explícito que nós estamos na contramão. Eu sou suspeito, mas o livro chega com essa preocupação: olha, estamos indo para o abismo.

“A Amazônia, apesar de já bastante espoliada, ainda é a casa de centenas de etnias que têm direito ao seu livre desenvolvimento, assim como nós temos o direito ao ar que respiramos. Destruir essas culturas ou deixar que sejam destruídas é assassínio que deve ser levado aos mais elevados tribunais que a civilização pode construir. No entender dos ambientalistas brasileiros, a Amazônia é o termômetro de nossa civilidade e incivilidade” – pag. 224

Como você se sente em relação ao futuro do Brasil e das nossas florestas? Está otimista ou pessimista?

Eu tenho cinco ou seis projetos que estão aguardando os próximos dias para saber que rumo eles tomam. Tem um, por exemplo, de avaliação dos sítios do patrimônio mundial. Se Bolsonaro ganhar, não vai ter sentido fazer isso. Se o Lula ganhar, se a gente tiver a grandeza e a glória da Marina Silva como ministra de novo, teremos muito diálogo. Mas o que eu acho é o seguinte: o mais importante não é saber se a pessoa é otimista ou pessimista, o mais importante é a gente estar ciente que está atuando. Então, com otimismo ou sem otimismo, vou continuar trabalhando, negociando, conversando com as pessoas e mostrando a elas a importância das nossas florestas para elas mesmas.

O livro “Uma história das florestas brasileiras” pode ser encontrado nas maiores livrarias do país ou pela internet.

  • Cristiane Prizibisczki

    Cristiane Prizibisczki é Alumni do Wolfson College – Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde participou do Press Fellow...

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