Salada Verde

Governo atrasa divulgação de dados do Desmatamento

Divulgados regularmente desde 2008, os números do sistema Deter estão atrasados 3 meses. A razão parece ser falta de organização do MMA.

Gustavo Faleiros · Eduardo Pegurier ·
20 de julho de 2012 · 14 anos atrás
Salada Verde
Sua porção fresquinha de informações sobre o meio ambiente

Imagine se de um mês para o outro, o Ministério do Planejamento decidisse que o IBGE não deveria divulgar os dados da inflação. Certamente a transparência do governo seria questionada pelos mercados. Mas é exatamente isso que o Ministério do Meio Ambiente tem feito com os dados de desmatamento medidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), através do sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real, o Deter.

A razão parece ser prosaica: desde a gestão de Carlos Minc, o ministério gosta de fazer a divulgação desses dados em um evento próprio. Segundo Dalton Valeriano, coordenador do Programa Amazônico do INPE, os dados estão prontos e “estamos implorando para divulgá-los”, mas o Ministério do Meio Ambiente explicou que está atrasado no seu calendário de tarefas por conta da Rio+20, e ainda não encontrou tempo para fazer a divulgação.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



((o))eco procurou o Ministério do Meio Ambiente, que através de sua assessoria de imprensa, disse desconhecer o assunto, a qual afirmou ser de responsabilidade do INPE.

Os dados do Deter estão atrasados há 3 meses. No site do INPE, o último dado disponível para download é o de março. O calendário de divulgação é mensal entre maio e outubro de cada ano. Quando começam as chuvas, em novembro, passa a ser bimensal. Felizmente, o IBAMA continua a receber essas informações, pois os dados do Deter são essenciais para operações em campo de combate ao desmatamento. Segundo o INPE, hoje o IBAMA já recebe – e não sofreu qualquer interrupção – atualizações diárias.

A regularidade e a transparência na divulgação dos dados do Deter começou em 2008, depois da polêmica entre o INPE e o governo do Mato Grosso. Naquele ano, os dados indicavam uma alta no desmatamento naquele estado, o que levaria ao corte de financiamento público a produtores rurais que haviam desmatado. O então governador Blairo Maggi contestou os dados do INPE, o que levou a uma maior transparência na metodologia de cálculo do corte raso e da degradação florestal.

Calculados com base nas imagens geradas pelo sensor Modis, a bordo de satélites da NASA, os números indicam tendências de grandes desmatamentos na Amazônia e orientam as ações de repressão. O mesmo tipo de imagens é utilizado pela ONG Imazon em seu Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), cujos dados dos meses de abril, maio e junho já estão disponíveis. Baixe aqui o último boletim com dados de junho

O atraso incomoda os técnicos do INPE e atrapalha àqueles que dependem desses dados. O projeto InfoAmazonia.org, o mapa interativo de ((o))eco, utiliza os dados do Deter para levar a seus leitores a visualização mensal das tendências do desmatamento. A atualização do InfoAmazonia foi prejudicada pelo atraso do governo.

O curioso é que o Ministério do Meio Ambiente não tem qualquer interesse escuso em atrasar a divulgação. Ao contrário, as notícias são boas, o desmatamento está em queda. Trata-se apenas de falta de organização.

Veja abaixo o gráfico do desmatamento até quando parou de ser divulgado em março. Embora com picos sazonais, a tendência tem sido de declínio. O Imazon informou que houve uma queda de 66% do desmatamento em junho desse ano comparado a junho de 2011.

Quando o Ministério do Meio Ambiente encontrar um espaço na sua agenda, poderemos comemorar.

  • Gustavo Faleiros

    Editor da Rainforest Investigations Network (RIN). Co-fundador do InfoAmazonia e entusiasta do geojornalismo. Baterista dos Eventos Extremos

  • Eduardo Pegurier

    Mestre em Economia, é professor da PUC-Rio e conselheiro de ((o))eco. Faz fé que podemos ser prósperos, justos e proteger a biodiversidade.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Colunas
24 de março de 2026

Se nós os parimos, por que eles nos matam? 

Essa não é uma pergunta para as mulheres responderem sozinhas, porque a violência de gênero não pode continuar sendo tratada como uma pauta feminina

Salada Verde
24 de março de 2026

Inspirado pelo SUS, estado do Rio lança rede de atendimento à fauna silvestre

Com investimento de R$100 milhões, iniciativa prevê unidades móveis, criação de centro de pesquisa e quatro novos centros de atendimento e reabilitação da fauna

Salada Verde
24 de março de 2026

IBGE lança atualização do Mapa de Regiões Fitoecológicas do Brasil

Mapa de Regiões Fitoecológicas inclui vegetações "relíquias" e florestas resistentes à seca. Revisão amplia o conhecimento sobre o patrimônio natural do país

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.