
Senti-me envergonhado. Eu, um agente do Governo, escoltado por um moleque descalço armado de metralhadora, isso há menos de 1 km do quartel do 6º Batalhão de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Fora isso, a visita saiu bem. O convidado oficial declarou-se impressionado com o “Mutirão Reflorestamento”. A iniciativa, além de pioneira, é muito bem sucedida. Fato é, contudo, que durante o almoço que seguiu a visita, o assunto não rondou o plantio de mudas, mas deteve-se em armamentos, munições e volência.
Em 1999, assumi a direção do Parque Nacional da Floresta da Tijuca. Na época o Parque implementou um ambicioso projeto para erradicar os acampamentos de caçadores que grassavam no seu interior. Em dois anos foram desativados mais de 70 pontos de caça. O trabalho não poderia ter sido feito sem a cooperação do Batalhão Florestal da PM cuja ajuda, apesar de prestimosa, exigiu muito planejamento.
A maioria dos acampamentos estava nas bordas das favelas. Como o apoio da PM resumia-se a uma guarnição de três a cinco homens, era impensável desmontar as estruturas levantadas para a caça e descer direto para o asfalto, pois teríamos que atravessar “território inimigo”. Assim, antes de qualquer operação, era sempre imperativo definir uma rota de escape – sempre longuíssima – que evitasse a passagem por essas áreas cujo controle fugia às autoridades legalmente constituídas.
De outra feita, acompanhei um tenente bombeiro e sua tropa em um combate a incêndio na encosta do Morro do Elefante. Começamos a debelar labaredas ao meio dia. Só extinguimos o último foco muito além das duas da manhã. Naquela altura era impossível sermos resgatados por helicóptero. O caminho de volta ao Parque por dentro da mata demoraria mais de três horas. Descer por uma das favelas do Andaraí seria o óbvio, pois nos tomaria apenas cerca de uma hora. Prevaleceu a cautela. Ninguém queria ser confundido com a PM na calada da noite. Caminhamos cerca de duas horas e meia por uma trilha alternativa que nos deixou na estrada Grajau-Jacarepaguá.
Depois que deixei o Parque, me mudei do Brasil. Mesmo assim, vou ao Rio com muita frequência. Sempre subo um pico diferente. Ao longo do meu quase meio século de vida, até a virada de 2011 para 2012, subi todos os cumes do Município acima de 100 metros de altitude acessiveis por trilhas, exceto dois cujos caminhos passam necessariamente dentro de favelas.
Em 30 de dezembro de 2011, contudo, Thiago Haussig, funcionário do Parque Nacional da Floresta da Tijuca convidou-me para topar uma das figurinhas que me faltavam para completar o album, o Irmão Maior, bem em cima do Leblon e com vistas extraordinárias de toda a Zona Sul da cidade. Só havia um pequenino problema: a trilha começa bem dentro da favela do Vidigal.
No cume, a 533 metros de altitude, apesar do dia nublado abriram-se esplêndidas vistas da Lagoa, da Pedra da Gávea e das Ilhas Cagarras. Um espetáculo difícil de traduzir em palavras. Enquanto o assistíamos boquiabertos, chegaram dois grupos distintos de turistas estrangeiros que se juntaram a nós na atitude de deslumbramento. Depois ainda apareceu mais uma turma, dessa vez de jovens moradoras do Vidigal. Não gostaram da companhia. Uma delas nos olhou contrafeita e praguejou: “na época do tráfico isso aqui era mais privé”.
Pois é, mesmo em uma cidade plural e democrática, nem tudo é perfeito para todo mundo. No que me toca, prefiro assim…



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