Diante do aumento das chuvas intensas, das ondas de calor e de outros eventos climáticos extremos, fica evidente que o modelo de desenvolvimento urbano baseado quase exclusivamente em concreto e infraestrutura cinza já não responde aos desafios das cidades. O crescimento urbano é necessário, mas tem ganhos significativos ao incorporar a natureza ao planejamento convencional. Integrar ecossistemas às obras públicas amplia a eficiência da infraestrutura, fortalece a adaptação à mudança do clima e gera benefícios para a população.
As Soluções Baseadas na Natureza (SBN) representam esse caminho. São estratégias que utilizam a própria natureza para enfrentar problemas urbanos, por meio de iniciativas como arborização, parques lineares e jardins de chuva. Além de reduzir riscos de inundações e alagamentos, essas soluções contribuem para o conforto térmico, a conservação da biodiversidade, a oferta de áreas de lazer e a melhoria da qualidade de vida.
Apesar dessas vantagens, o conhecimento sobre o tema ainda é limitado. A pesquisa Natureza e Cidades: a relação dos brasileiros com as mudanças climáticas, realizada pela Fundação Grupo Boticário em parceria com a UNESCO, mostra que 90% da população desconhece o conceito de SBN. Quando informados sobre o que são essas soluções, 98% dos entrevistados se mostram favoráveis à sua implementação. Parques, praças, bosques, telhados verdes e o plantio de árvores aparecem entre as iniciativas mais valorizadas.
Além do desconhecimento público, outro obstáculo para a implementação dessas soluções é a escassez de profissionais capacitados na temática de SBN. Projetos urbanos com soluções baseadas na natureza exigem integração entre engenharia, planejamento urbano, ecologia urbana e gestão pública. Não se trata de ampliar áreas verdes de forma estética, mas de compreender qual problema urbano e social precisa ser resolvido.
Engenheiros, arquitetos, urbanistas, biólogos, geógrafos e gestores públicos ainda encontram poucas oportunidades de formação nessa área. Como consequência, estados e municípios enfrentam dificuldades para viabilizar projetos de Soluções Baseadas na Natureza. Enquanto a demanda por essas competências cresce, a formação profissional continua voltada, em grande parte, ao modelo tradicional de infraestrutura cinza.
Ampliar a capacitação é essencial para que a adaptação climática seja incorporada às políticas públicas. Iniciativas desenvolvidas pela Fundação Grupo Boticário, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a Fundação Getulio Vargas e a agência alemã GIZ, já oferecem formações gratuitas voltadas à integração de ecossistemas ao planejamento urbano e à gestão pública. Em uma delas, 1.275 gestores federais receberam orientações sobre Adaptação baseada em Ecossistemas.
Outro desafio é o financiamento. Embora as SBN sejam reconhecidas por seus benefícios, ainda representam uma parcela pequena dos investimentos em infraestrutura urbana. Todos os anos, mais de R$ 200 bilhões em empréstimos são destinados aos municípios, principalmente para obras convencionais. Direcionar parte desses recursos para projetos que integrem natureza e infraestrutura ampliaria a capacidade de adaptação das cidades sem comprometer seu desenvolvimento, de forma inteligente e sustentável.
Construir cidades com a natureza significa superar a falsa oposição entre desenvolvimento e conservação. Rios, solos permeáveis, árvores e outros ecossistemas também são infraestrutura. O país já sabe que precisa mudar; agora precisa formar pessoas capazes de fazer essa mudança acontecer, transformando o desafio da crise climática em oportunidades de inovação, segurança e bem-estar para o presente e o futuro.
As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Desmatamento na Amazônia chega ao menor patamar desde 2013
Terras Indígenas são as áreas menos desmatadas, com o equivalente a somente 1,7% do total derrubado na região; quase 60% das TIs tiveram desmatamento zero →
O que a decisão sobre o zoneamento de São Paulo revela sobre o planejamento ambiental das cidades
São Paulo instituiu um Plano de Ação Climática e um Orçamento Climático. Mas esses instrumentos serão contraditórios se, simultaneamente, o zoneamento ampliar a impermeabilização →
O problema e as soluções para o lixo na montanha mais alta do mundo
Documentário acompanha brasileiro em jornada no Everest e convida a sociedade a assumir responsabilidade sobre os cuidados com os ambientes naturais →
