Salada Verde

Mesmo considerando apenas o primeiro mandato de Lula, Bolsonaro desmatou mais

Enquanto o petista terminou o 1º mandato, em 2007, com 11.651 km2, e redução de mais de 60% no desmatamento, até o momento, o governo Bolsonaro aumentou em 73% a devastação, com mais de 13.235 km² derrubados em 2021

Juliana Arini ·
17 de outubro de 2022 · 1 anos atrás
Salada Verde
Sua porção fresquinha de informações sobre o meio ambiente

Combater as derrubadas no Brasil sempre foi um tema ignorado durante as eleições. Com o aumento da pressão internacional para o país voltar à lista dos países com propostas de mitigação da crise climática, em 2022, a importância do tema mudou. Uma das grandes razões é o fato de as mudanças no uso da terra, com o desmatamento, alçarem o Brasil para a posição, nada honrosa, de quarto maior emissor de gases que aquecem o planeta. 

Com a pressão internacional crescendo sobre um país com a economia dependente de exportações de commodities agrícolas, falar de desmatamento virou quase uma moda entre os candidatos à presidência, mesmo entre quem nunca lidou diretamente com essa questão, com os candidatos do Novo e do União Brasil. 

A tendência não poderia deixar de ser diferente no primeiro debate entre Jair Bolsonaro, do PL, e Luíz Inácio Lula da Silva, do PT, após o primeiro turno das eleições. O enfrentamento ocorreu neste domingo (16), e foi promovido pelo UOL em parceria com a Band, a Folha de S.Paulo e a TV Cultura.

Uma das disputas narrativas entre os candidatos foi, justamente, sobre quem era o mais efetivo “protetor das florestas” brasileiras. Como é de costume na política, ambos os candidatos ignoraram as suas falhas e, claro, focaram nos resultados positivos. 

Lula relembrou a intensificação da redução do desmatamento em seu governo, marcado no primeiro ano pelo segundo maior índice de derrubadas da série histórica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), com 27,7 mil quilômetros quadrados de desmatamento. 

O tema foi abordado no terceiro bloco, quando ambos também discutiam sobre economia. “Foi no nosso governo o menor desmatamento da Amazônia. Foi no nosso governo. E o seu é o maior todo ano. Vocês estão brincando de desmatar, vocês estão brincando de abrir cerca, vocês estão brincando de derrubar árvore, vocês vão ver o que vai acontecer com o comércio brasileiro, porque o brasileiro do agronegócio que é sério, aquele que quer ganhar dinheiro, aquele que quer exportar, sabe que não pode invadir a Amazônia. Então, nós vamos ganhar as eleições para poder cuidar da Amazônia, e não permitir que haja invasão em terra indígena, em garimpo ilegal, e muito menos alguém querer plantar milho, soja ou algum outro produto no lugar que não se pode plantar. Nós temos 30 milhões ​​de alqueires de terras degradadas que podem ser recuperadas para plantar o que quiser no país. Então eu queria que você explicasse um pouco o desmatamento da Amazônia da forma irresponsável que está acontecendo agora no seu governo”, disse Lula.

Já Bolsonaro continuou negando os grande avanço de derrubadas promovidas em sua gestão, se baseando no fato de não ter atingido o pico de desmatamento, como ocorreu na gestão petista. 

“Dá um Google em casa aí: ‘Desmatamento 2003 a 2006’, quatro anos do governo Lula. Depois dá um Google: ‘Desmatamento, Jair Bolsonaro, 2019 a 22’. No seu governo foi desmatado mais do que o dobro do que no meu. Dá um Google em casa (…). Deixa eu terminar, Lula. Dá um Google em casa. Você desmatou duas vezes e meio mais do que no meu governo, Lula”, confrontou Jair Bolsonaro.

Em contrapartida, Lula insistiu na redução recorde de sua gestão. “Eu vou lhe falar uma coisa. Pode dar o Google, pode dar o que você quiser, você vai perceber que quando eu ganhei as eleições tinha um desmatamento de 27 mil quilômetros. Caiu para quatro mil quilômetros. O Brasil participou da COP 15, em Copenhagen, participou do encontro de Paris, em que o Brasil era elogiado porque o Brasil era o país que menos desmatava e que mais cuidava da questão ambiental. Não existiu nenhum governo que fizesse o que a gente fez na questão ambiental. E agora nós vamos fazer mais, porque nós vamos fazer com que a agricultura de baixo carbono possa fazer com que o Brasil receba, sabe, quem sabe muito dinheiro da União Europeia e de outros países, por conta do sequestro de gás de efeito estufa que nós vamos fazer preservando a Amazônia, coisa que você não sabe. Nós vamos tentar fazer da biodiversidade da Amazônia uma forma de enriquecimento daquele povo da Amazônia, de quase 30 milhões de pessoas que moram lá, e não desmatar, e não desmontar como vocês estão fazendo. Destruição. Essa é a palavra: destruição, invasão de terra indígena, garimpo ilegal, coisa que nós vamos proibir. No nosso governo não vai ter… aliás, eu vou te dar uma novidade: eu vou criar o Ministério dos Povos Originários. Esse país vai ter o Ministério dos Povos Originários. Os indígenas vão indicar um ministro nesse país”, disse o petista. 

A realidade

De acordo com o PRODES (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal), do INPE, quando Lula iniciou a sua gestão, em 2003, a taxa de desmatamento era de 25.396 quilômetros quadrados (km²). No ano seguinte, o desmatamento atingiu a segunda maior alta da série histórica, com 27.772 km² em 2004. Em 2005, esse número passou a cair, com o registro de 19.014 km² de área desmatada. 

Mas, ao contrário do que Lula alega, foi a também petista Dilma Rousseff – não citada nessa parte do debate – quem de fato entregou o menor índice da série histórica nacional, em 2012, quando foram registrados 4.571 km² de perda na cobertura florestal. 

Outra questão esquecida por Lula é o impacto das grandes hidrelétricas construídas na Amazônia sobre os atuais índices de derrubada. A relação é direta: tanto Porto Velho, em Rondônia, quanto Altamira, no Pará, estão há anos na lista de municípios que mais desmatam na Amazônia desde que essas obras foram construídas, apesar da grande articulação contrária do terceiro setor, que já alertava para essa tendência.

Já o presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro também segue esquecido de seu passado anti-ambiental. O que inclui a nomeação de um ministro que declarou publicamente que a meta era “Passar a Boiada”, até o fato de sua gestão ter sido marcada pelo desmonte das agências ambientais, como o Ibama, Icmbio, responsáveis diretos pelo comando e controle. 

Também foi no governo de Jair Bolsonaro que as queimadas ultrapassaram o limite da série histórica, atingindo quase 30% de todo o bioma Pantanal, e o país abandonou instrumentos de enfrentamento às mudanças climáticas, como o Fundo Amazônia.  

Focando apenas no tema “desmatamento”, a gestão de Jair Bolsonaro pode não ter índices como do governo Lula, porém, em termos de “descontrole”, ou seja, a escalada direta de devastação das florestas, a sua atuação foi muito pior.  

A título de uma base igualitária, se compararmos os quatro primeiros anos de Lula e Bolsonaro, o candidato do PL tem uma performance pior, mesmo se desconsiderarmos completamente o segundo mandato de Lula e os ganhos da gestão Dilma. 

Enquanto o petista terminou o primeiro mandato, em 2007, com 11.651 km2, e redução de mais de 60% nos índices, Bolsonaro entrega o país, em 2022, com mais de 13.038 km² (o dado consolidado de 2021) e um aumento de 73% na devastação da Amazônia, isso desconsiderando os resultados do Prodes de 2022. 

E, ao contrário do que declara Jair Bolsonaro, a situação do final de seu governo tende a não ser confortável para a floresta. Em agosto de 2022, a área degradada no bioma foi 54 vezes maior do que a do mesmo mês, em 2021. O desmatamento acumulado também teve recorde de 8 mil km².

Ainda em agosto, a área degradada na Amazônia pela extração de madeira e queimadas chegou a quase 1.000 km², com um aumento de 5.322% em relação a agosto de 2021.  Os dados, divulgados em 16 de setembro, são do Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

  • Juliana Arini

    Repórter, fotógrafa e documentarista há duas décadas cobre a questão energética, a crise climática, o desmatamento e as queimadas.

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Comentários 7

  1. alberto krakhecke diz:

    reportagem mentirosa. Lamento, mas esconde os dados corretos. E, qualquer comparação, deve ser feita em igual período de cada governo. O desmatamento dos 3 primeiros anos do Lula foi o dobro que os primeiros 3 anos do Bolsonaro. Não adianta comparar anos posteriores do Lula pq não temos como comparar com o futuro do Bolsonaro, que nem vai mais ter como comparar pq não foi reeleito. Falta com a verdade esta reportagem.


    1. alberto krakhecke diz:

      Retire o comentário.. Não publiquem.


  2. Manoel diz:

    Deve ter um engano na matéria. O governo Lula terminou em 2006 e não 2007. Os índices mostrados deveriam ser de 2006 e não de 2007.


  3. André diz:

    Eu sou L mas a informação aqui está equivocada.
    A comparação é entre 2003 a 2006 e 2019 e 2022 (anos completos ou até a data de hoje), e nesta época foi pior mesmo.


    1. William diz:

      Oi André, isso mesmo, não faz sentido, apresentam números piores, soma tudo e dizem que foram melhores “isso desconsiderando os resultados do Prodes de 2022”. Se estão desconsiderando os dados oficiais estão usando quais no lugar? É fato que Lula pegou o desmatamento crescendo descontrolado e entregou diminuindo, e era nisso que devia se focar. A menos que tenham outras fontes que não citam, de fato em números absolutos, sem considerar o contexto, anos anteriores, a queda no desmatamento que o governo dele conseguiu, o desmatamento na época do Lula foi pior.


      1. Ricardo Silva diz:

        Foi pior e muito. Jogo com porcentagens e uma evolução industrial inferior mostram a mentira dessa reportagem. Silvio Santos adoraria isso no programa dele.
        http://terrabrasilis.dpi.inpe.br/app/dashboard/deforestation/biomes/legal_amazon/rates