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Rematamento pode ser a política mais urgente para salvar a Amazônia

Transformar áreas já desmatadas em sistemas produtivos de base florestal surge como estratégia decisiva diante do fracasso das medidas tradicionais

22 de janeiro de 2026
  • Gustavo Nascimento

    Preto, faixa preta, jornalista e coordenador de projetos em O Mundo que Queremos

O avanço das mudanças climáticas tornou evidente aquilo que por muito tempo ignoramos, que a floresta é a tecnologia mais barata e eficiente já criada para remover carbono da atmosfera. Enquanto o mundo investe bilhões em soluções de captura artificial, a Amazônia segue desempenhando esse papel de forma natural, gratuita e em larga escala. Mesmo assim, a região continua sofrendo pressões crescentes, tanto de degradação ambiental quanto de vulnerabilidade social, e o país ainda não encontrou uma resposta capaz de conciliar preservação, desenvolvimento e estabilidade territorial.

É nesse contexto que um novo estudo do projeto Amazônia 2030 apresenta uma proposta simples, um tanto quanto óbvia, mais ainda assim, inovadora, o “rematamento” das áreas já desmatadas

Com 85 milhões de hectares abertos ao longo das últimas décadas, muitos deles abandonados ou subutilizados, a Amazônia concentra um paradoxo que combina destruição ambiental com baixa produtividade econômica. O estudo, “Para proteger a Floresta Amazônica, precisamos Rematar as Áreas Desmatadas”, argumenta que a saída não depende apenas de fiscalização, embora ela seja indispensável, mas da conversão dessas áreas degradadas em sistemas produtivos de base florestal, como agroflorestas, cultivos perenes, silvicultura tecnificada e restauração com manejo comercial. Em vez de expandir a fronteira agrícola, expandimos a atividade econômica dentro do que já foi destruído.

A proposta mostra que a região possui 35 milhões de hectares aptos ao rematamento sem qualquer conflito com a produção de soja ou gado. Além disso, a Amazônia já movimenta 7,2 bilhões de dólares por ano com produtos compatíveis com a floresta, mas captura apenas 3 por cento de um mercado global que ultrapassa 233 bilhões de dólares. É uma diferença que revela o tamanho da oportunidade, mas também o custo da falta de políticas públicas efetivas que coloquem a economia da floresta no centro do desenvolvimento regional.

Os pesquisadores ressaltam que a ausência de alternativas econômicas sólidas mantém parte significativa da população dependente de atividades ilegais ou de baixa produtividade, como grilagem, extração predatória e pecuária extensiva. Sem empregos verdes e cadeias produtivas estruturadas, a conservação se torna frágil. Não basta proteger o que está de pé, é preciso dar destino produtivo ao que já foi derrubado. Rematar, nesse sentido, não é retornar ao passado, mas organizar o futuro.

Há, porém, obstáculos importantes. A questão fundiária permanece o maior deles. Sem regularização de áreas antigas e sem proteção efetiva das florestas públicas, investidores e produtores continuam expostos à insegurança jurídica, o que inviabiliza a escala necessária. Também falta financiamento apropriado para atividades que levam anos até gerar retorno. O capital existe, mas não encontra instrumentos compatíveis com o ciclo produtivo florestal, como contratos futuros, fundos garantidores e mecanismos vinculados ao crédito de carbono. A isso se soma a necessidade de tecnologia e capacitação, já que uma economia florestal moderna depende de máquinas adaptadas, operadores treinados e extensionistas capazes de orientar a transição.

Mesmo diante desses desafios, o estudo apresenta recomendações claras:

  1. Integrar conservação ambiental e segurança pública, porque a experiência recente mostra que políticas ambientais fortes reduzem conflitos, enfraquecem mercados ilegais e ampliam a presença do Estado em regiões vulneráveis. 
  2. Priorizar os territórios mais críticos, onde a degradação e a violência se sobrepõem, e onde ações coordenadas entre órgãos ambientais, forças de segurança e governos locais podem gerar resultados mais rápidos. 
  3. Fortalecer os órgãos de fiscalização, garantindo equipes, tecnologia e recursos suficientes para sustentar políticas de longo prazo. 

Por fim, é fundamental desenvolver instrumentos financeiros e programas de capacitação que permitam que o rematamento se transforme em uma atividade economicamente viável para produtores locais.

Se quisermos proteger a Amazônia e enfrentar a crise climática, não basta preservar o que está de pé. Precisamos olhar para o que já foi destruído e transformá-lo em uma base produtiva capaz de gerar renda, empregos e estabilidade territorial. O rematamento não é apenas uma alternativa econômica, é uma estratégia ambiental, climática e social. Em um momento em que o mundo busca soluções urgentes e de impacto imediato, poucas políticas oferecem tanto retorno por tão pouco custo.

A Amazônia será decisiva para o futuro do Brasil e do planeta. Mas, para que isso aconteça, precisamos de políticas que reconheçam a floresta como infraestrutura essencial e tratem as áreas degradadas como parte da solução, não como terra perdida. Rematar o que foi derrubado é reconstruir possibilidades. É, acima de tudo, criar condições para que a floresta em pé continue existindo.

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