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Planta carnívora rara reaparece no Nordeste após décadas sem registros

Espécie aquática foi encontrada em área alagada do Cerrado do Piauí e pode ser classificada como ameaçada de extinção no Brasil

Karina Pinheiro ·
13 de março de 2026

Uma espécie rara de planta carnívora aquática foi registrada pela primeira vez no Nordeste do Brasil. Pesquisadores identificaram a Utricularia warmingii em uma área alagada no município de Campo Maior, no Piauí, ampliando o conhecimento sobre a distribuição da espécie e levantando novos alertas sobre seu risco de extinção no país.

O registro foi feito durante um inventário de plantas aquáticas realizado em 2023 por pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI), com participação do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). Os resultados foram publicados na revista científica Kew Bulletin e indicam que a espécie pode ser classificada como “Em Perigo” no Brasil, devido à ocorrência restrita, populações isoladas e às ameaças crescentes aos ambientes aquáticos onde vive.

A Utricularia warmingii pertence à família Lentibulariaceae e vive submersa em águas rasas. A planta mede cerca de seis centímetros e captura pequenos organismos aquáticos por meio de estruturas microscópicas semelhantes a armadilhas, chamadas utrículas, que funcionam como minúsculas bolsas de sucção. As flores surgem em uma haste inflada cheia de ar, o que ajuda a planta a flutuar na superfície, exibindo pétalas brancas com tons amarelos e vermelhos.

Apesar de ocorrer em alguns países da América do Sul, como Bolívia, Colômbia e Venezuela, os registros da espécie são raros e espaçados. No Brasil, havia ocorrências históricas no Pantanal e em áreas do Sudeste, mas algumas dessas populações podem ter desaparecido ao longo do tempo. Em São Paulo, por exemplo, não há registros desde 1939, o que indica possível extinção local. A coleta que originou a descrição científica da espécie foi feita em Caldas, em Minas Gerais, em 1877, e a ausência de novos registros na região levanta a hipótese de desaparecimento também naquele estado.

Segundo o professor Francisco Ernandes Leite Sousa, da UFPI e líder da pesquisa, a nova ocorrência amplia o mapa conhecido da espécie, mas também evidencia sua vulnerabilidade. “Até agora, a população encontrada parece estar restrita a um único local, e novas buscas na região não localizaram outras ocorrências”, afirma.

Para o pesquisador Paulo Minatel Gonella, do Instituto Nacional da Mata Atlântica e coautor do estudo, espécies como a Utricularia warmingii podem parecer amplamente distribuídas quando observadas no mapa, mas na prática ocupam apenas pequenos fragmentos de habitat. “Isso as torna especialmente vulneráveis à perda de áreas úmidas”, explica.

Os ambientes onde a planta ocorre (lagoas rasas e áreas alagadas temporárias) estão entre os ecossistemas mais ameaçados do planeta. Mudanças no regime de cheias, expansão agropecuária, uso de fertilizantes, introdução de espécies invasoras e alterações na paisagem podem comprometer a qualidade da água e a sobrevivência dessas plantas altamente especializadas.

No Brasil, os registros confirmados indicam populações separadas por grandes distâncias e presentes em poucos locais isolados. A área real ocupada pela espécie no país é estimada em cerca de 36 quilômetros quadrados, um território extremamente reduzido. Esse isolamento diminui as chances de recolonização natural caso uma população desapareça, aumentando o risco de extinção regional.

A descoberta também revela lacunas importantes no conhecimento sobre a flora brasileira. Segundo os pesquisadores, regiões do interior do Nordeste ainda são pouco estudadas do ponto de vista botânico. Novos levantamentos podem revelar tanto populações desconhecidas de espécies raras quanto plantas ainda não descritas pela ciência.

  • Karina Pinheiro

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), possui interesse na área científica e ambiental, com experiência na área há mais de 2 anos.

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