Análises

Falta de formação em gestão ainda desafia área da conservação no Brasil

Imersão realizada na Grande Reserva Mata Atlântica reuniu profissionais de diferentes biomas, conectou experiência internacional e reforçou a necessidade de integrar gestão, território e pessoas

Claudia Guadagnin ·
30 de abril de 2026

A primeira edição brasileira do Curso de Conservação Efetiva, promovido pela Effective Conservation Training Iniciative (ECTI), em parceria com a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) reuniu, ao longo de quase dez dias – de 11 a 20 de abril – profissionais de diferentes regiões do país para conversar sobre um dos principais desafios do setor: a ausência de formação estruturada em gestão para lideranças que atuam na conservação da natureza no país.

Realizada no território da Grande Reserva Mata Atlântica, a imersão, idealizada pelo biólogo conservacionista Ignacio Jiménez e implementada no Brasil em parceria com a SPVS, reuniu 20 profissionais de 15 organizações, representando diferentes biomas e modelos de atuação.

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Estiveram presentes representantes de entidades como Associação Mar BrasilMater NaturaLegado das ÁguasRede TrilhasAssociação Mico-Leão-DouradoFundação Grupo Boticário de Proteção à NaturezaFundação Pró-Natureza – FunaturaInstituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM)Projeto TamarRefaunaOnçafari, Instituto de Pesquisas Cananéia – IpeCInstituto Cerrados, e Instituto Homem Pantaneiro.

“Via de regra, o que se percebe no cenário é a presença de pessoas com formação em áreas como biologia ou engenharia, por exemplo, entre outras, que passam a ocupar cargos de gestão e acabam dedicando a maior parte do tempo à burocracia dos projetos e à coordenação de pessoas”, afirma Ricardo Borges, coordenador de comunicação e parcerias estratégicas da Grande Reserva.

Gestão no centro da agenda

A formação combinou uma etapa online, baseada no estudo do livro Produção de Natureza, de autoria de Ignacio, com a imersão presencial voltada à aplicação prática de ferramentas de liderança, cultura organizacional e governança. A proposta foi aproximar o campo da conservação de metodologias já consolidadas no ambiente corporativo.

“A conservação é uma atividade complexa, que exige habilidades que vão muito além do conhecimento técnico”, afirma Ricardo.

Para Clóvis Borges, diretor da SPVS, o avanço da agenda no país passa, necessariamente, por esse reposicionamento.

“A conservação da biodiversidade no Brasil entrou em uma nova fase. Não basta ampliar áreas protegidas ou gerar conhecimento técnico: é preciso garantir que as organizações sejam capazes de operar com eficiência, estratégia e capacidade de articulação. O que esse curso evidencia é que o investimento em liderança e gestão é hoje uma das alavancas mais relevantes para transformar potencial em resultado concreto nos territórios”.

Durante o encontro, os participantes tiveram contato com especialistas internacionais e lideranças brasileiras, em uma programação que mesclou palestras, dinâmicas e experiências em campo.

Ignacio Jiménez, idealizador do curso. Foto: Gabriel Marchi

Relações humanas como ponto de atenção

Entre os principais aprendizados destacados pelos participantes está a centralidade das relações humanas para o sucesso de projetos de conservação. Para Caio Louzada, pesquisador do Instituto de Pesquisas Cananéia, o curso contribuiu para reposicionar a forma como os projetos são conduzidos.

“A gente passa a entender que a conservação é feita de pessoas. Quando conseguimos compreender melhor esses atores e construir conexões mais profundas, fica mais viável conciliar interesses que, muitas vezes, são divergentes”, afirma.

A aplicabilidade dos conteúdos também foi apontada como um diferencial. Para Laila Murebe, coordenadora técnica da Associação Mico-Leão-Dourado, a experiência trouxe ferramentas concretas para o cotidiano profissional.

“Foi a primeira imersão que fiz com tantas possibilidades aplicáveis ao meu dia a dia, trabalho e vida pessoal. Dinâmicas como escuta ativa e comunicação não violenta têm impacto direto na forma como lideramos equipes e nos relacionamos com diferentes atores envolvidos com nossos projetos”, diz.

Outro eixo que ganhou força ao longo da formação foi a integração entre conservação, território e geração de valor. Para Mariana Vasquez, gestora da Reserva Natural Serra do Tombador, da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, essa mudança de abordagem amplia o impacto das iniciativas.

“A conservação está diretamente conectada a benefícios para comunidades, ao diálogo com financiadores e à construção de soluções viáveis no território”.

O curso também funcionou como um espaço de articulação entre organizações. Segundo os organizadores, já durante a imersão foram identificadas oportunidades de cooperação, troca de metodologias e construção de projetos conjuntos.

“O que se forma aqui é uma rede. As pessoas saem mais conectadas e com mais capacidade de atuação conjunta”, diz Ricardo Borges.

Brasil no centro de uma agenda global

Para o idealizador do curso, Ignacio Jiménez, a chegada da iniciativa ao Brasil tem um significado estratégico na agenda internacional de conservação.

“A conservação efetiva não acontece por acaso. Ela depende de pessoas preparadas para tomar decisões difíceis, liderar equipes, lidar com conflitos e construir alianças. Em muitos países, o principal gargalo não está na falta de conhecimento técnico, mas na ausência de formação em gestão. Trazer esse curso para o Brasil é reconhecer o enorme potencial do país e contribuir para que suas lideranças estejam à altura desse desafio”.

A realização do curso no país reforça o papel estratégico do Brasil na agenda global, ainda subaproveitado frente à sua dimensão territorial e biodiversidade.

“O Brasil pode ser líder mundial nesse campo, mas ainda não reconheceu plenamente esse papel”, conclui Ignacio.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Claudia Guadagnin

    Jornalista, pós-graduada em Antropologia Cultural e mestra em Direitos Humanos e Políticas Públicas.

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