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Publicado originalmente por DeSmog
Nunca desperdice uma boa crise. Essa parece ser a estratégia daqueles ligados à indústria dos combustíveis fósseis, que tentam aproveitar o conflito relacionado ao petróleo no Golfo Pérsico para consolidar mais um capítulo de extração de petróleo.
A premiê da província canadense de Alberta, Danielle Smith, apontou a guerra em curso como justificativa para impulsionar a infraestrutura de exportação de betume. Durante uma coletiva de imprensa em Calgary, ela disse que: “Estamos aqui para ajudar… Parte da forma como podemos ajudar é, claro, com a expansão dos oleodutos da Costa Oeste”. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, foi rápido em promover o projeto que propõe a exploração da offshore Bay du Nord, em Newfoundland, como “um projeto muito atraente”, que produzirá “petróleo de baixíssimo carbono”.
Argumentos semelhantes em favor da extração de petróleo também foram mobilizados quatro anos antes, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o que levou aliados europeus a restringirem importações de energia russa e elevou os preços.
Esta é a chamada “Doutrina do Choque” em ação, na qual interesses ligados ao petróleo exploram crises como conflitos armados para impulsionar ainda mais a extração. A autora canadense Naomi Klein cunhou o termo em seu livro de 2008 de mesmo nome sobre “a ascensão do capitalismo de desastre”.
Produtores de petróleo fora da região do Golfo agora colhem lucros extraordinários, enquanto publicamente tentam conter o entusiasmo. “A ideia de que a indústria lucra com guerra e morte não é algo que um vice-presidente de relações públicas queira promover”, disse Mark Jones, pesquisador de ciência política do Baker Institute da Universidade Rice. Investidores canadenses do setor de petróleo também estão entusiasmados, chamando o conflito com o Irã de uma “grande oportunidade” para as empresas de petróleo do país.
Embora produtores de combustíveis fósseis possam obter lucros de curto prazo com a instabilidade de preços causada pela guerra, os consumidores, por sua vez, estão exigindo um fornecimento de energia mais ético, sustentável e seguro.
As vendas de veículos elétricos (VEs) acabam de ultrapassar as de carros a gasolina na Europa, com compras de VEs crescendo incríveis 50% em relação ao mesmo período do ano passado. A União Europeia também viu a geração de energia renovável superar os combustíveis fósseis pela primeira vez em 2025, um marco enraizado no último choque de segurança energética, quando a Rússia marchou sobre Kiev. Por décadas, a energia baseada em carbono foi praticamente a única opção para economias em rápido desenvolvimento na Ásia. A China impulsionou a demanda global por petróleo por mais de vinte anos, que só atingiu seu pico em 2024. Esse cálculo de segurança energética se inverteu nos últimos anos, com energia eólica, solar e baterias já superando os combustíveis fósseis em termos de custo, sem o risco adicional de interrupções catastróficas no fornecimento que estão ocorrendo agora no Golfo Pérsico.
Os potenciais compradores de GNL do Canadá são justamente os países mais afetados pela recente guerra de Trump. Para entender o quão instáveis podem ser as cadeias de fornecimento de combustíveis fósseis, considere que o Irã atingiu a maior instalação de GNL do mundo, no Catar, com um drone de US$ 30 mil, interrompendo a produção de um quinto da oferta global. O Catar declarou força maior, o que significa que se eximiu de contratos legais de fornecimento para países como Índia e Paquistão, que dependem do Catar para 50% e 99% de seu abastecimento, respectivamente.
O Paquistão, em particular, já enfrentou essa situação antes. Os preços globais do gás dispararam após a invasão da Ucrânia, provocando um pânico energético na Europa. Contratos de fornecimento de GNL do Paquistão foram prontamente ignorados por intermediários internacionais, que redirecionaram suas cargas para a Europa em busca de lucros elevados. Desde então, o Paquistão passou a investir fortemente em energias renováveis, e a atual crise de abastecimento deverá apenas acelerar essa transição.
O atual conflito no Irã pode ser visto como o “momento Ucrânia” da Ásia. No entanto, ao contrário da Europa em 2022, países como a Índia agora têm alternativas à energia instável, na forma de renováveis cada vez mais acessíveis. Energia solar e armazenamento em baterias já superam os combustíveis fósseis em termos de custos nivelados de operação, e em breve também serão mais baratos até mesmo em custos de capital.
Isso significa que uma nova instalação solar combinada com armazenamento de energia custará menos do que construir uma usina a carvão ou GNL, sem gastos contínuos de combustível ou riscos de interrupção no fornecimento. Esse ponto de virada iminente impulsionará ainda mais a transição global para energias renováveis.
Essa guerra não durará para sempre (espera-se), e talvez nos próximos meses o fornecimento de energia retorne a algo próximo da normalidade. A questão para o Canadá e seus potenciais clientes de exportação é se devemos dobrar a aposta na infraestrutura de combustíveis fósseis, desestabilizando ainda mais a geopolítica e o clima. Especialistas que acompanham a rápida transição energética têm uma visão oposta.
“Você quer investir em uma indústria que está morrendo, onde talvez consiga alguns ganhos extraordinários? Este não é um mercado de crescimento sustentável para empregos ou para a economia”, disse o analista de energia da Ember, Daan Walter, ao National Observer.
Esta guerra brutal e a aceleração da transição energética colocam os canadenses diante de uma escolha clara: de que lado da história queremos estar?
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