Um antigo sonho do engenheiro florestal Miguel Milano vai se concretizar durante a Conferência Nacional de Unidades de Conservação para a Biodiversidade (UCBIO), a se realizar em Curitiba, de 7 a 9 de junho. Como parte da programação do evento será lançado, oficialmente, o Instituto Miguel Milano que concederá anualmente o Prêmio Miguel Milano de Conservação da Natureza no valor de R$ 100 mil. A organização receberá candidaturas em fluxo contínuo. Foi dessa forma, que ele escolheu celebrar seus 70 anos, dos quais quase cinquenta dedicados à conservação da natureza, por meio de inúmeras atividades que tem exercido ao longo dessa inspiradora trajetória.
Não deve ter sido mero acaso ter nascido em 27 de maio, Dia Nacional da Mata Atlântica. Para desfrutar da vida na maturidade, ele poderia simplesmente se aposentar. Mas o compromisso que o tem impulsionado, por décadas, falou mais alto e o levou por outro caminho, longe da zona de conforto, como tem sido a sua própria existência. Como legado vivo, o ambientalista resolveu criar esse incentivo para pessoas que têm buscado soluções inovadoras voltadas à proteção da natureza no Brasil. É dessa forma que ele também sente estar homenageando a esposa, as duas filhas e os três netos, entusiastas dos seus sonhos e contribuições reais à qualidade ambiental e ao bem-estar humano.
As relações familiares, de trabalho e de amizade de Milano têm girado em torno das causas da natureza que considera cruciais aos tempos desafiadores que vivemos. Nesse percurso, além de ter atuado por 25 anos como professor do curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Milano tem participado ativamente de inúmeras organizações de tradição em defesa da natureza. Algumas, ele ajudou a criar, como foi o caso da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, instituída em 1990, onde atuou como diretor por 16 anos. De lá, assumiu a direção executiva da representação regional da Fundação Avina para o Sul do Brasil e o Pantanal. Em artigo que assinou em 2019, pela comemoração de 15 anos de ((o))eco, ele recorda que foi justamente nessa época que incentivou e acompanhou a criação do site que viria a se consolidar como referência no jornalismo ambiental brasileiro.
Com bom humor, Milano relata que muita gente costuma dizer que ele atuou como mãe ou pai do ((o))eco. Mas ele assume na narrativa um papel “de parteiro do seu nascimento”. Como apaixonado pelas causas ambientais, com uma participação dinâmica na agenda de conservação da natureza e intelectual bem informado, ele conseguiu fortalecer uma sólida relação de amizade e troca de ideias com os jornalistas Marcos Sá Corrêa e Manoel Francisco Brito (Kiko Brito), além do cientista político Sérgio Abranches, fundadores do site em 2004. No veículo já atuou como presidente do conselho, além de continuar como conselheiro, colunista eventual e leitor assíduo.
Em reconhecimento às suas contribuições às causas de proteção da natureza no Brasil, Sá Corrêa e Kiko Brito dedicaram um capítulo à trajetória do engenheiro florestal no livro Água mole em pedra dura: dez histórias da luta pelo meio ambiente (Senac Rio, 2006). Em 2022, com apoio da Fundação Grupo O Boticário, ((o))eco lançou o e-book Olhar perto, enxergar longe: crônicas ambientais atemporais, uma coletânea de 98 colunas que Sá Corrêa escreveu para o site, entre 2004 e 2011, tendo Milano assinado o prefácio da publicação.
Em 2026, as sementes de um novo projeto, no qual acredita, foram lançadas aos ventos. A realização da UCBIO representa um esforço de continuidade dos debates e reflexões dos famosos Congressos Brasileiros de Unidades de Conservação, os CBUCs, série de eventos que Milano também liderou nas suas quatro primeiras edições, deixando a sua organização quando migrou da Fundação O Boticário para a Fundação Avina.


Com a descontinuidade dos CBUCs, cuja última edição ocorreu em 2018, e a falta de um fórum apropriado para o debate qualificado do tema, veio a ideia de fazer o novo evento. O UCBIO, organizado em parceria pela Rede Pró-Unidades de Conservação (outra articulação social que ajudou a construir) e pela Associação Caatinga, tem novamente a assinatura de Milano. Para essa programação, são esperados em Curitiba mais de 700 participantes.
Morando em meio à natureza em Urupema, a cidade mais fria do Brasil, localizada na Serra Catarinense, Milano se dedica a um negócio familiar que envolve uma pousada e uma vinícola. De lá, ele continua empenhado na luta ambiental, especialmente em defesa da araucária (Araucaria angustifolia), também conhecida como pinheiro-brasileiro ou pinheiro-do-paraná, espécie da Mata Atlântica em extinção, fundamental ao presente e ao futuro do bioma e da sua biodiversidade. Segue, também, atuando com projetos nacionais e internacionais de créditos de carbono, envolvendo proteção e restauração de florestas tropicais pela empresa Permian Global.
Para o engenheiro florestal, diante dos grandes dilemas ambientais da sociedade contemporânea, uma das principais saídas passa pelos avanços educacionais em todos os níveis. “Precisamos educar para a perspectiva de existência de limites planetários”, uma vez que estamos consumindo além da capacidade de provisão dos ecossistemas e isso tem consequências ambientais, sociais e econômicas já perceptíveis globalmente.
Embora não existam respostas simples para questões que envolvem grande complexidade, como o cenário de degradação ambiental no Brasil e no mundo, Milano considera que “se há algo que se possa fazer também pela conservação da natureza é investir em educação de qualidade baseada em ciência”.
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