O Grupo K da Copa do Mundo de 2026 é formado por Colômbia, Portugal, República Democrática do Congo e Uzbequistão, que agora nas quartas de finais da competição já deram adeus aos gramados. Mas ainda competem no campo da conservação.
Colômbia
Assim como no Brasil, o futebol colombiano tornou-se palco de disputas políticas. A icônica camisa amarela da seleção colombiana tornou-se peça da campanha presidencial de Abelardo de la Espriella, candidato de ultradireita e futuro presidente da Colômbia, escolhido democraticamente na última eleição. Nos gramados, Los Cafeteros conseguiu manter o primeiro lugar no grupo K, com 5 pontos, e avançou nos 16 avos, perdendo nas oitavas de final para a Suíça, nos pênaltis.
No âmbito ambiental, o país manteve a vice-liderança da chave. A Colômbia abriga ecossistemas estratégicos, como o Páramo de Sumapaz, e protege 17.2% da área territorial e 41.12% da área marinha.
Apesar disso, o país possui 42% de cobertura amazônica, correspondente a 7% da floresta, mas enfrenta desafios históricos: conflitos agrários, rota do narcotráfico e pressão extrativista. Por décadas, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) ocuparam territórios protegidos, o que de certa forma manteve a floresta em pé. O acordo de paz de 2016 entre o governo colombiano e as Farc, embora necessário, teve efeitos colaterais, o aumento do desmatamento na Amazônia colombiana, além de cortes de um terço do orçamento de órgãos ambientais, o que fragilizaram a fiscalização. Já a tensão entre a presença de empresas petrolíferas e a conservação desencadeou protestos durante a 1ª Conferência para a Transição Pós-Fóssil, em Santa Marta, realizada este ano, onde organizações indígenas da Amazônia cobraram participação ativa na governança climática. Para eles, a transição energética não pode ser decidida sem quem vive e protege a floresta.

Diante desse longo histórico, a Colômbia conta hoje com 1.849 áreas protegidas. O jogo político, porém, pode alterar esse placar. O governo de Gustavo Petro será sucedido por uma gestão de ideologia oposta, o que levanta incertezas sobre o futuro da política ambiental colombiana. Resta saber se o verde da floresta terá o mesmo peso que o amarelo da camisa nas próximas disputas dentro e fora de campo.
Portugal
Portugal chegou à Copa do Mundo de 2026 como uma das seleções mais experientes do torneio. A nova camisa vermelha, lançada pela Puma com detalhes de ondas que aludem às grandes navegações, carrega o espírito de um país que já foi potência marítima. No campo ambiental, o país protege apenas 16,85% de suas áreas marinhas, com grande avanço em 2024, com a expansão da maior rede de áreas marinhas protegidas da Europa, nos Açores. Apesar dos avanços recentes, ainda não apresentou formalmente seus compromissos de biodiversidade em seus planos de gestão territorial. No total, são 442 áreas protegidas, com 23.02% da cobertura terrestre sob a gestão ambiental, o que garante ao país a liderança do grupo K.

RD do Congo
No futebol, a República Democrática do Congo (RD Congo) se destacou internacionalmente pela figura de Michel Kuka Mboladinga, famoso por permanecer imóvel por 90 minutos durante as partidas da seleção congolesa para homenagear Patrice Lumumba, líder da independência do país e referência para o movimento anticolonialista africano.
Assim como nas arquibancadas, o período de colonização belga também gerou ruídos no campo ambiental. Em texto para a IUCN, o congolês Bila-Isia Inogwabini destaca que o sistema de criação de áreas protegidas no país ocorria a partir de leis federais antidemocráticas, excluindo as comunidades locais da gestão desses territórios. A primeira unidade de conservação africana, o Parque Nacional de Virunga, foi criado durante a colonização belga, passando por cima de territórios tradicionalmente ocupados por povos indígenas, desconsiderando suas formas de vida e organização social. Após a independência, em 1960, o país atravessou diferentes situações políticas, especialmente com o avanço da Guerra Fria – período marcado pela expulsão de povos indígenas do Parque Nacional Kahuzi-Biega, em 1970.
Durante anos, esse modelo fragilizou a confiança da população na proteção de territórios naturais, abrindo espaço para caça, conflitos armados e exploração de petróleo. Dentre essas, a caça é uma das grandes preocupações internacionais quando se trata da conservação da biodiversidade do país. De acordo com um relatório de 2016 da Fauna & Flora International, da Wildlife Conservation Society e de outros parceiros, os gorilas-da-montanha sofreram um declínio alarmante de 77% desde 1995, como resultado da caça ilegal, da agitação civil e da perda de habitat devido à mineração. Apesar de ser considerado um dos 10 países mais biodiversos do mundo, abrigar a segunda maior floresta tropical do mundo e ser o país mais biodiverso da África, a RD Congo protege apenas 14,95% de seu território, com apenas 60 áreas protegidas.

Uzbequistão
Conhecida como “Lobos Brancos”, a seleção do Uzbequistão disputou sob o comando do italiano Fabio Cannavaro, o time carrega a experiência de nomes como o capitão Eldor Shomurodov, artilheiro histórico com 45 gols, e a tradição de uma das melhores seleções da Ásia Central. A estreia em mundiais, no entanto, ocorre em um momento em que o país enfrenta seu maior desafio fora dos gramados: a recuperação de um dos maiores desastres ambientais do planeta.
O cenário ecológico do Uzbequistão é marcado pela tragédia do Mar de Aral, que já foi o quarto maior lago do mundo, mas que perdeu mais de 90% de sua área. A tragédia é resultado de políticas de irrigação implementadas pelos soviéticos para estimular a plantação de algodão. Entre as consequências estão a salinização do solo, o colapso da pesca artesanal e o declínio de espécies locais. Para conter a desertificação, a iniciativa “Yashil Makon”, que prevê o plantio de dois bilhões de árvores até 2030, com o objetivo de trazer terras áridas de volta à vida e aumentar a biodiversidade local. No entanto, os esforços não são proporcionais na conservação. O país possui apenas 52 áreas protegidas, que cobrem apenas 14,11% do território.

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