Reportagens

Os Woehl, a Mata Atlântica e os anfíbios – uma história de amor

Germano e Elza, premiados por seu trabalho em prol da conservação, dedicam sua vida e suas economias para proteger as florestas remanescentes do interior de Santa Catarina

Duda Menegassi ·
18 de junho de 2026

Enquanto viam os amigos gastarem dinheiro com viagens, carros e restaurantes, Germano e Elza economizavam tudo que podiam. O motivo era o mais nobre possível: comprar um pedaço de terra para deixar a floresta em pé. Assim, de pouco em pouco e ao longo de duas décadas, chegaram a cerca de 1 mil hectares de Mata Atlântica adquiridas e transformadas em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) no interior de Santa Catarina. “Enquanto o pessoal viajava, a gente comprava um pedacinho de Mata Atlântica”, resume Elza Nishimura Woehl com o sorriso contente de quem faria todas as mesmas escolhas sem hesitar.

“Nós compramos pedacinho por pedacinho, fomos comprando o terreno de uma antiga madeireira. Era um sonho”, completa Germano Woehl Júnior. O sonho começou a virar realidade em 2004, com a compra da primeira área. De lá para cá, chegaram hoje a um total de 14 RPPNs, distribuídas entre Guaramirim e Itaiópolis, que misturam matas primárias com outras em processo de regeneração.

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O trabalho do casal em prol da Mata Atlântica foi reconhecido na última semana na 1ª edição do Prêmio Miguel Milano de Conservação da Natureza, dado aos dois durante a UCBIO. A premiação incluiu um valor de R$ 100 mil que, de acordo com Elza, “será usado integralmente na proteção das nossas RPPNs”.

“Estamos honrados e bastante motivados de continuar lutando pela conservação da natureza”, acrescenta Germano.

Das 14 reservas atuais, duas foram compradas com recursos de doações por meio do Instituto Rã-Bugio para a Conservação da Biodiversidade, fundado pelo casal em 2003. Já as outras 12 foram adquiridas “com nossas economias”, contam.

A criação do instituto ajudou a formalizar e dar um CNPJ ao trabalho que os dois já faziam desde 1998, quando decidiram transformar os anfíbios em tema de uma exposição fotográfica itinerante que percorreu escolas do município de Guaramirim, onde hoje está a sede do instituto e residência do casal, em parceria com a Secretaria de Educação Municipal. O objetivo: explicar aos alunos a importância de proteger rãs, sapos e pererecas, e desmistificar sua fama de criaturas feias e assustadoras. No ano seguinte, com recursos da Fundação Grupo Boticário, conseguiram expandir o projeto pelo estado.

Num segundo projeto, repetiram a fórmula de unir jovens e educação ambiental para transformar sua relação com a natureza, em especial com anfíbios. Dessa vez, baseado no município catarinense de Corupá, conseguiram mobilizar a população inteira da cidade no monitoramento dos sapos, que estavam sendo atacados por carrapatos e morrendo. 

“Trabalhamos em todas as escolas do município, 350 alunos trabalharam ativamente no projeto e eles envolveram seus familiares. E foi um trabalho científico”, destaca Germano. 

Os alunos aprenderam a medir os sapos, identificar macho e fêmea e as técnicas para tirar os carrapatos. “As crianças saíam da aula e corriam para casa para procurar sapos com carrapatos. E aí quando encontravam, juntavam três, quatro para trabalhar e tirar. E preenchiam uma ficha com tamanho, sexo, tudo”, lembra Elza.

A iniciativa de educação ambiental do instituto levou cerca de 70 mil estudantes às trilhas interpretativas da RPPN Santuário Rã-Bugio, onde tiveram a chance de aprender e se sensibilizar sobre o bioma. “Nós sempre acreditamos que levar os estudantes para trilha é uma das melhores ferramentas de conscientização porque permite eles terem contato direto com a natureza e começarem a ter um pouco mais de consciência ou pelo menos começar a refletir a importância de tudo aquilo lá”, pondera Elza, formada em Educação Física, mas hoje uma educadora ambiental.

Elza e Germano em uma das trilhas na RPPN Santuário Rã-Bugio. Foto: Acervo Pessoal

A paixão e curiosidade que os anfíbios despertam nos jovens é a mesma que até hoje move os dois. Quando se conheceram, em 1981, Germano e Elza ainda não eram ambientalistas tampouco poderiam imaginar que contribuiriam para dezenas de artigos científicos sobre anfíbios. 

Na época, ele ainda estava na graduação em Física (nos anos seguintes somaria esse diploma aos de mestrado e doutorado na área), mas já carregava a curiosidade inata que fez com que aos 11 anos decidisse que viraria “pesquisador”. Ela, vinda de uma família de agricultores do norte do Paraná, onde colheu algodão até os 17 anos, tinha testemunhado a destruição das florestas a sua volta. 

A união potencializou nos dois uma relação de carinho e cuidado que já nutriam pela natureza e seus seres. E aí veio “Pili”, nome dado a uma perereca de cerca de três centímetros que apareceu na cozinha e viveu com eles por cerca de um ano, mudando a rotina diária do casal para garantir que ela não saltasse por engano numa panela quente. 

Pili foi o primeiro anfíbio que Germano fotografou. Dando origem, a partir de 1996, ao hobby que viraria a vida do catarinense ao avesso, fazendo-o meio físico, meio herpetólogo e 100% ambientalista.

Elza recebeu seu próprio chamado. Ou melhor, coaxar. Ela conta que quando se mudaram para Guaramirim, perguntaram a um dos vizinhos se havia alguma espécie de anfíbio comum antigamente que eles não viam mais. “Ele sem hesitar respondeu: Sim, a rã-bugio!  Antes a gente ouvia muito o coaxar dela, e faz anos que não ouço mais”, relembra. 

Durante meses Elza ficou com isso na cabeça, até que um dia “eu subi o morro a noite e ouvi um coaxar diferente, bem próximo do som emitido pelo macaco bugio. Pronto, finalmente descobri”. Não à toa, a rã-bugio (Physalaemus olfersii) virou nome do instituto. 

A rã-bugio (Physalaemus olfersii). Foto: Germano Woehl

A gestão das reservas resulta também em conflitos com caçadores, passarinheiros e outros infratores. Em 28 junho de 2022, a residência do casal e sede da RPPN Santuário Rã-bugio, localizada em Guaramirim, foi alvo de múltiplos tiros. Os disparos, feitos por um homem numa moto, atingiram as placas da reserva e a frente da casa onde moram Germano e Elza. Sete tiros atravessaram a porta da garagem e entraram na sala de jantar. Na ocasião, apenas Elza estava em casa, no piso superior, e não foi atingida.

“O tiro foi exatamente no local da mesa onde eu fico, por horas, usando o computador. O cara veio para matar”, contou Germano à época para ((o))eco. A Polícia Militar foi acionada, mas não localizou o autor dos disparos. A investigação foi conduzida pela Polícia Civil, mas quatro anos depois, ninguém foi preso.

Os dois, porém, seguem firmes no seu propósito maior de defender a Mata Atlântica. Seja pela ciência, pela conservação ou pela educação. “Nossa dedicação sempre foi intensa pela causa ambiental e nós trabalhamos tentando fazer as pessoas gostarem da natureza”, pontua Germano. Tratam-se, afinal, de dois apaixonados. E o amor, afinal, é uma força que contagia.

O casal Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl são os primeiros ganhadores do prêmio Miguel Milano de Conservação da Natureza. Foto: Marcio Isensee e Sá
  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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