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Itaipu e Belo Monte deixam de gerar R$ 1 bilhão em receita por causa do desmatamento

Estudo mostra como o enfraquecimento dos “rios voadores” impactam reservatórios das duas maiores hidrelétricas do Brasil, deixando de produzir energia capaz de abastecer 1,5 milhão de pessoas

Marcio Isensee e Sá ·
15 de junho de 2026

A Amazônia não é apenas um patrimônio ambiental, mas um ativo econômico valioso para o Brasil. Um novo estudo do Climate Policy Initiative (CPI/PUC-Rio) e do projeto Amazônia 2030, com autoria de João Pedro Arbache e Gustavo R. S. Pinto, mostra como o desmatamento da Amazônia impacta os rios voadores, grandes corredores atmosféricos que transportam vapor d’água da Amazônia para outras regiões da América do Sul. O enfraquecimento dessas correntes compromete o abastecimento de água e a estabilidade climática em diversas regiões do país.

Em um país como o Brasil, onde a hidroeletricidade é a principal fonte de energia, responsável por 60% da geração, essa dinâmica custa muito caro e compromete a capacidade de o Sistema Interligado Nacional (SIN) atender à demanda nacional. 

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Em sua participação na Conferência Nacional de Unidades de Conservação para Biodiversidade (UCBIO) o autor do estudo, Gustavo Pinto – pesquisador sênior do CPI/PUC-Rio –, detalhou o impacto nas duas principais hidrelétricas brasileiras: Itaipu e Belo Monte. Segundo os dados, ambas perdem anualmente o potencial de 3.780 GWh de energia, o que representa um prejuízo anual de mais de R$ 1 bilhão em receita para as usinas. “Qual o tamanho [dessa perda]? Eu tô deixando de alimentar o estado inteiro de Rondônia, ou o suficiente para 1,5 milhão de pessoas”, afirmou o pesquisador.

Figura publicada no estudo detalha a relação entre os rios voadores, efeito do desmatamento e o abastecimento Fonte: CPI/PUC-Rio, 2025.

A reconstrução dos ventos no Brasil

Em entrevista exclusiva para ((o))eco, os autores mostraram como a pesquisa utilizou dados robustos e detalhados para reconstruir a trajetória dos ventos no país de 1980 para cá. Segundo os pesquisadores, a análise é feita para cada pixel de 27 km por 27 km do território, exigindo um poder computacional tão elevado que os autores utilizam um supercluster da Universidade de Nova York (NYU) para processar as informações em tempo humano. “O que esse projeto faz é quantificar com um ferramental super preciso, com dados de altíssima frequência e qualidade”, afirma João Pedro Arbache, pesquisador sênior do CPI/PUC-Rio.

A camada econômica também foi super importante para o estudo ao aplicarem técnicas avançadas de econometria, desenvolvidas nos últimos 30 anos para isolar o “efeito causal” do desmatamento na redução das chuvas. “Então o somatório dessas três questões: o poder computacional, disponibilidade de dados com o aumento da capacidade de medição dos satélites e análises econométricas, permitiram que a gente fizesse essa análise”, afirmou Gustavo Pinto.

O estudo concluiu, também, que o problema vai muito além das duas usinas citadas e assume um caráter sistêmico, uma vez que 17 das 20 maiores hidrelétricas brasileiras estão posicionadas justamente na rota desses rios voadores. “Quando a falta de chuvas atinge o sistema de forma generalizada, o setor elétrico perde sua capacidade de equilíbrio, sendo forçado a acionar usinas termelétricas – uma alternativa mais cara e poluente”, acrescenta Gustavo. Além do impacto no bolso do consumidor, o uso de térmicas intensifica a emissão de gases de efeito estufa, agravando ainda mais a crise ambiental.

Percurso dos rios voadores foi definido a partir de dados confiáveis e detalhados e mostra a influência das chuvas nas maiores hidrelétricas do país. Fonte: CPI/PUC-Rio com base nos dados de Copernicus-ERA5 (2023), ONS (2023) e MapBiomas (2023), 2025.

O papel das áreas protegidas 

O método utilizado pelos pesquisadores determina “áreas de influência” do desmatamento na Amazônia para as usinas hidrelétricas (mesmo as mais distantes, como Itaipu que está a 1.000 km de distância do bioma). A pesquisa permite medir o valor de cada “pedacinho de floresta” para cada usina específica, identificando quais áreas são mais críticas para manter o fluxo de água através dos rios voadores.

Os autores explicam que muitas áreas críticas para o fornecimento de água às hidrelétricas contam com Unidades de Conservação protegendo não apenas a biodiversidade e o carbono, mas também a infraestrutura natural necessária para a geração de energia. Porém, destacam a necessidade de ampliar esse instrumento como política pública.

Gustavo Pinto apresenta o resultado do estudo durante a UCBio. Foto: Marcio Isensee e Sá

Com essas informações, é possível criar estratégias de conservação e restauração no bioma, sendo as áreas protegidas fundamentais nesse processo. As unidades de conservação (UCs), quando bem geridas, funcionam como guardiãs da floresta que é a infraestrutura que mantém o ciclo da água e os “rios voadores” ativos. 

“[As UCs estão] protegendo, conservando essa nossa infraestrutura natural efetivamente, que está nos provendo serviços ecossistêmicos que são essenciais para o nosso desenvolvimento, para a nossa estabilidade econômica, para a nossa soberania nacional”, enfatizou Gustavo Pinto em sua apresentação.

Se a justificativa da proteção da biodiversidade para criação e manutenção das áreas protegidas não for suficiente para convencer, talvez o aspecto econômico e uma possível crise no sistema elétrico do país possam ser argumentos suficientes para tomada de ações em prol da conservação. Para João Pedro, “O papel das UCS já é comprovadamente eficaz para segurar o desmatamento, mas agora sabemos que elas também estão ‘jogando’ água para o restante do país”.

Aplicações em outras áreas da economia

Com a publicação dos resultados relativos ao setor elétrico, os autores identificaram a capacidade de expansão e análise para outras áreas da economia brasileira que também são afetadas pela mudança no ciclo hídrico. Eles confirmam que estão expandindo a pesquisa para outros quatro pilares vitais da economia brasileira: Agricultura, Transporte hidroviário, abastecimento de água e resiliência a incêndios. O pesquisador Gustavo Pinto antecipou que os resultados devem apontar para a influência da redução de disponibilidade hídrica nesses setores: “A gente já tem alguns resultados preliminares para esses outros setores e a nossa expectativa é conseguir divulgar esses resultados, publicar esses estudos o quanto antes. Já há alguns resultados preliminares que ainda estão em investigação, mas em princípio há efeito [da redução dos rios voadores] em outros setores [da economia]”.

Segundo os autores, a ideia é “demonstrar que o valor econômico da Amazônia para a sociedade brasileira é sistêmico e vai muito além das fronteiras do bioma”, conclui Arbache.

  • Marcio Isensee e Sá

    Marcio Isensee e Sá é comunicador e gestor de conteúdo, especializado em jornalismo e audiovisual socioambiental. Atua na lid...

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