Estar em meio à maior floresta tropical do planeta não garante cidades mais arborizadas. Na Amazônia Legal, sete dos nove estados estão abaixo da média nacional nesse quesito, e cinco capitais figuram entre as dez piores do país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nesse cenário, Palmas (Tocantins) surge como exceção: é a terceira capital mais arborizada do Brasil e quer plantar mais 100 mil mudas até 2028. Mas o desafio vai além dos números: especialistas alertam para maior atenção à biodiversidade e ao planejamento urbano.
Segundo o Censo Demográfico 2022, cerca de 88,7% das vias de Palmas têm pelo menos uma árvore. A metodologia utilizada pelo IBGE considera a porcentagem de árvores plantadas no entorno dos domicílios, podendo ser ao longo da calçada e/ ou em canteiro, mesmo que apenas em parte. Para o presidente da Fundação Municipal de Meio Ambiente (FMA), Isac Braz da Cunha, a quantia conquistada ainda não é o suficiente: “É nossa prioridade máxima aumentar o número de árvores. Até o final deste governo [2028] vamos atingir mais 100 mil mudas, com certeza”, promete.
Cunha informa que, até agora, chegando à metade do segundo ano de gestão, 10 mil mudas foram plantadas na cidade e 16 mil estão prontas para ir ao solo após o período de estiagem. O foco inicial é a avenida Teotônio Segurado – recentemente renomeada como Siqueira Campos, em homenagem ao pai do prefeito –, a maior da Região Norte e a mais longa avenida em linha reta do Brasil, com 26 km de extensão. “Será uma avenida-parque”, antecipa o presidente da fundação.
“Estamos apostando na arborização para manter o conforto térmico diante das mudanças climáticas. Não somos uma cidade com muitos poluentes e confiamos nas árvores para manter o clima agradável”, complementa. Para efeito de comparação, Palmas emitiu quase 16x menos gases de efeito estufa em 2024 (924.666 milhões de toneladas de CO2) que São Paulo (14.704.375 MtCO2).

Empresas adotam jardins e ajudam a expandir áreas verdes
Parte da estratégia da prefeitura envolve mobilizar o setor privado. Apesar de estar em um estado marcado pelo agronegócio, o setor de comércio e serviços privados concentra a maior fatia da atividade econômica local e, por isso, é mobilizado pela prefeitura como aliado na ampliação da arborização urbana.
Por meio do programa “Adote um Jardim”, mais de 200 empresas da capital se comprometem com ajardinamento, conservação e embelezamento de espaços públicos em torno dos estabelecimentos. É o caso de Junior Maracaípe, proprietário de um restaurante de massas, que há quatro anos coloca suas próprias mãos na terra e cultiva desde espécies medicinais, como babosa, capim-santo e erva-cidreira, a frutíferas, como manga. “Tem uma hortelã bem grande que uso para o kibe do restaurante”, exemplifica.


Tudo começou como uma forma de terapia, enquanto ele lidava com um problema de saúde. “Decidi fazer algo fora da curva, cuidar de algo além de mim, e começou uma paixão. Hoje estou curado da doença e indico essa ‘terapia’ para todos”, conta. Hoje, ele tem orgulho do jardim que atrai clientes. “Tem dia que a cidade está parada e o nosso restaurante cheio. É um lugar fresco, arborizado e aconchegante. Vejo que os clientes vêm não só pela comida, mas em busca dessa paz que uma área verde traz, né? As pessoas se conectam com a natureza, observam os passarinhos que vivem no jardim”, diz, orgulhoso.
Como um pai que admira um filho crescendo, ele acompanha a biodiversidade que vem junto do verde: “já é a terceira geração de periquito que passa por aqui”. De acordo com Maracaípe, os empresários do “Adote um Jardim” se encontram, fazem doações e trocas de mudas, mantêm uma troca de aprendizados frequentemente. “Passo uns 40 minutos, 1 hora do meu dia para o jardim”, relata.
Quantidade não basta, diz pesquisador
Embora a cidade tenha bons índices de cobertura vegetal, há desafios e melhorias pela frente. O biólogo Renato Torres Pinheiro, professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), estuda há duas décadas a relação das árvores com a biodiversidade animal, em especial das aves. “Já constatamos em Palmas a relação entre a riqueza de aves e a abundância de espécies de árvores nativas. Em contraponto, as árvores exóticas influenciam negativamente a presença de aves”, analisa.
Ou seja, as espécies que já fazem parte originalmente daquele bioma (no caso de Palmas, predominantemente o Cerrado) contribuem para a presença de aves, enquanto aquelas trazidas de fora, ainda que bonitas e aparentemente inofensivas, afastam esses animais. “Nós trabalhamos primeiramente com 80 quadras, o que é mais da metade do gradiente de urbanização do plano diretor da cidade, e percebemos isso. Recentemente, refizemos esse trabalho com outra dinâmica e encontramos a mesma relação”, acrescenta.
Segundo o professor, mais importante do que estabelecer metas de plantio é definir que espécies regionais sejam priorizadas. Pinheiro também critica a falta de orientação técnica para moradores que plantam por conta própria. “Por mais que seja com boa intenção, é preciso conscientizar que a arborização é mais complexa do que somente sair plantando. É preciso avaliar espécie, localização, distância de calçadas e redes elétricas”, explica.

Há dez anos, o biólogo coordenou a elaboração de um manual de arborização para a prefeitura e participou da construção de uma base de dados com mais de 30 mil árvores geolocalizadas, mas afirma que ambos seguem subutilizados. “Ele ficou na gaveta, para falar a verdade. Fizeram umas 500 cópias no dia do lançamento e por isso mesmo ficou. Já a base de dados tinha o diagnóstico individual de cada uma das 30 mil árvores e deveria ser usada para auxiliar na manutenção, mas não vi nenhuma gestão usufruir”, denuncia.
Segundo Isac Cunha, da FMA, a prefeitura está revendo como lida com os plantios independentes da população. Ex-superintendente do Ibama e ex-presidente do órgão ambiental no estado, ele tem mais de 30 anos de experiência no setor e diz que se inspira em trocas de experiências com as demais capitais do país para aprimorar o gerenciamento da arborização. “Vim de Porto Alegre agora e conheci o sistema que eles utilizam. Diferente daqui, eles não doam as plantas do viveiro, os moradores têm que pedir o serviço e a prefeitura vai lá e faz”, pondera. Agora, Cunha pensa em adotar esse modelo em Palmas, para garantir maior controle ao processo. “Plantar uma árvore, eu sempre digo, é como adotar um animal, tem responsabilidade pela vida inteira dela”, conclui.
De acordo com ele, as mudas do viveiro municipal são nativas e frutíferas e a Fundação dispõe de dois engenheiros florestais e dois agrônomos no corpo técnico. “Outra atualização é que vamos separar um lote de mudas para serem doadas só a partir de 1,5 de altura, porque elas, sendo um pouco mais maduras, têm mais chances de sobreviver ao plantio, o risco de serem quebradas ou vítimas de vandalismo é menor. Além disso, estamos adotando a cultura de somente a Prefeitura fazer a poda dessas árvores, ninguém pode ficar podando aleatoriamente, mesmo que tenha boas intenções.”

Áreas verdes existem, mas nem sempre cumprem sua função
Renato Torres Pinheiro alerta também para espaços que, na sua opinião, estão à margem da política ambiental da cidade: as chamadas “áreas verdes não edificantes”, como faixas de terreno às margens de rodovias ou em zonas protegidas, onde construções são proibidas. De acordo com o professor, essas áreas foram concebidas pelos planejadores da cidade para promover conforto bioclimático e deveriam ser abundantemente arborizadas, promovendo maior permeabilidade do solo e redução de ilhas de calor – um respiro de natureza em meio à infraestrutura urbana. “Fizemos um estudo e atestamos que, em 75% a 80% das quadras, as áreas verdes, edificantes ou de esporte e lazer, não cumprem o seu papel por não terem árvores o suficiente”, informa.
Por outro lado, o presidente da FMA destaca que uma empresa foi contratada para fazer um estudo indicando as principais zonas da cidade com potencial para unidade de conservação. A ideia é que essa pesquisa seja concluída até meados de julho deste ano e contemple a catalogação de todas as áreas verdes indicadas no plano diretor municipal. “Nossa intenção é fazer um trabalho junto com a população e empresas que queiram adotar árvores, seguindo as orientações do plano diretor, para que todo canto de uma área comercial, as áreas não edificantes, todo espaço possa ser usado de modo sustentável”, promete.
Cunha acredita que o fato de ser uma cidade tão nova, com apenas 37 anos, é uma vantagem, porque “pode começar sua história já com o pé-direito”. Quando perguntado sobre de onde a Fundação de Meio Ambiente tira dinheiro para essas ações, ele explica que tem um orçamento total de R$ 2,6 milhões, incluindo outras responsabilidades do órgão, como o combate à pesca ilegal, preservação de recursos hídricos e prevenção de incêndios. “O município está passando por uma dificuldade muito grande de queda de arrecadação, então cada pasta tem que ser criativa. Na Fundação do Meio Ambiente, o caminho que encontrei foi de conversão de multas, que tem dado um bom resultado porque é uma forma do empreendedor participar desse processo”, enfatiza.

O Programa Municipal de Conversão de Multas Ambientais (PMCMA) permite que pessoas físicas ou jurídicas autuadas por infrações ambientais substituam o pagamento da multa por investimentos em ações concretas de preservação, recuperação ou melhoria do meio ambiente. Ou seja, em vez de quitar o valor diretamente em dinheiro, o infrator pode executar um projeto próprio ou aderir a iniciativas selecionadas pela Fundação, com descontos que podem chegar a 60% sobre o valor da penalidade. “Pode doar equipamentos, como drone, computadores, há várias opções, mas colocamos como prioridade o plantio de árvores”, descreve.
Para prover um futuro para essas políticas, o gestor levanta a bandeira de que o meio ambiente precisa de um teto orçamentário, como acontece nas pastas de educação e saúde, e que deve ser de pelo menos 3% do total do cofre público. “Se fosse assim, seria intocável, era um recurso garantido. A ideia tem sido bem aceita, estou semeando pelo Tocantins e a proposta é engrossar a fileira com os deputados federais de todos os estados, com a bancada da floresta”, prospecta.
Maior verba para a fundação poderia ser usada também para ter uma “viatura do meio ambiente”, mais uma ideia de Cunha para aprimorar a política de arborização. Inspirado no inventário arbóreo de São Paulo, esse transporte rodaria a cidade equipado de câmera 360º e laser para escanear as ruas para catalogar a espécie, saúde, altura e localização exata de cada árvore. O objetivo é prevenir mais facilmente quedas e monitorar as necessidades das plantas, como tratamento de doenças ou podas. “Só que não é barato, tem uma empresa especializada que vende essa tecnologia, é uma meta captar recurso para isso”, vislumbra. Aliar tecnologia, planejamento e estratégia baseada na biodiversidade, confia o gestor, pode ser a solução para deixar a cidade mais verde e mais resiliente.
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