A bacia hidrográfica exerce o importante papel de ser processadora dos volumes de água recebidos pelas chuvas. É uma verdadeira fábrica natural de água que recebe, processa, libera em curto espaço de tempo ou faz estoque para liberações futuras. É, portanto, um sistema de entrada e saída, propício para uma análise de contabilidade dos valores numéricos que representam as várias etapas do processamento.
A hidrologia tradicional, ensinada e empregada no Brasil, usa modelos matemáticos e softwares para descrever e analisar os comportamentos hidrológicos de uma bacia hidrográfica.
Eles processam dados, mas precisam de direcionamentos prévios e pensados pelos profissionais envolvidos nos planejamentos de produção de água. E nada melhor para pensar a bacia do que começar fazendo uma simples contabilidade de água dos vários caminhos que os volumes provenientes das chuvas percorrem após atingirem a superfície.
E depois de quase 60 anos de dedicação à hidrologia e de 25 anos de estudos de comportamentos hidrológico de pequenas bacias hidrográficas para abastecimento de núcleos populacionais, chegamos à conclusão de que estava faltando uma hidrologia aplicada à produção de água, já que a tradicional concentrava atenções na utilização.
Desenvolvemos, então, a Hidrologia Aplicada às Pequenas Bacias Hidrográficas, que também pode ser denominada de Hidrologia Aplicada à Produção de Água. O fundamento deste novo conceito está na metodologia criada e denominada Contabilidade de Água, que se propõe a substituir os modelos matemáticos nas análises e tratamentos das pequenas bacias.
Esta nova maneira de tratar as pequenas bacias está muito bem explicada nos primeiros 70 vídeos expostos no canal do YouTube denominado Faculdade da Água. São vídeos com duração aproximada de 20 minutos cada um.
Vamos usar o Sistema Cantareira, composto de várias pequenas bacias hidrográficas e responsável pelo abastecimento de grande parte da cidade de São Paulo, para demonstrar que é possível, com uma simples contabilidade de água, verificar a capacidade máxima de produção de água do conjunto das pequenas unidades que compõem o Sistema.
Sabemos que pela outorga, que é o instrumento legal de autorização de volumes de captação, a Sabesp pode bombear até 33 metros cúbicos por segundo, em condições normais, 31 em períodos de atenção e 23 em épocas de restrição. Mas será que esses valores estão levando em conta a capacidade hidrológica de produção de água das bacias componentes do Sistema? A pergunta parece ousada para um Sistema que é objeto de muitos estudos da hidrologia tradicional.
Ao buscar informações sobre ele vamos encontrar um bom número de tabelas, gráficos e equações matemáticas que, usando dados históricos, procuram descrever comportamentos que possam ser utilizados para determinar as possibilidades de produção e de captação de água. Mas os dados históricos podem estar mascarando resultados atuais para um processo que está criando realidades novas e com acelerado desenvolvimento. O passado hidrológico já está muito distante do presente e as bacias hidrográficas já passaram por alterações de difícil retorno (ou até mesmo de impossibilidade de qualquer retorno). Talvez a utilização de dados históricos para a confecção de modelos de previsão possa explicar o fato de que nem sempre as coisas estejam acontecendo como previstas. Mas vamos lá ao Sistema Cantareira:
1) As bacias que drenam para a captação somam uma área de
228.270 hectares, recebendo precipitação média anual de 1.450 mm;
2) A evapotranspiração e outras perdas, como exportações e percolações profundas, por exemplo, podem ser consideradas como sendo de 80% (75% de evapotranspiração e mais 5% de outras perdas). A precipitação que pode estar efetivamente contribuindo para o Sistema (precipitação útil) é, portanto, de 290mm/ano (1.450mm x 0,20);
3) Compatibilizando unidades e multiplicando a área pela precipitação útil chega-se ao um volume de 662.006.200 metros cúbicos por ano;
4) Dividindo essa quantidade pelo número de segundos por ano, encontra-se o valor de 20,97 metros cúbicos por segundo.
O valor de 20,97 metros cúbicos por segundo mostra, então, que essa é a capacidade hidrológica de produção de água das bacias que compõem o Sistema. Não há, portanto, razões para uma outorga de 33 metros cúbicos por segundo e nem a retirada até mesmo dos 23 autorizados para os períodos de restrição. Se a capacidade de produção de água não for respeitada, o Sistema Cantareira estará sempre caminhando para o colapso. Há, ainda, um possível agravante, pois as mudanças climáticas vêm indicando uma queda nos valores de precipitações anuais para a região das bacias. Os 1.450 mm usados nos cálculos podem estar em processo de queda, agravando a situação.
Uma gestão hídrica comprometida com a segurança do abastecimento precisa partir da capacidade real de produção de água das bacias hidrográficas, e não apenas dos limites legais de captação ou de modelos baseados em séries históricas. A Contabilidade de Água propõe justamente essa mudança de perspectiva, ao oferecer um método simples e diretamente vinculado ao funcionamento atual das bacias. No caso do Sistema Cantareira, a comparação entre a capacidade hidrológica estimada e os volumes autorizados de retirada reforça a necessidade de reavaliar os critérios de outorga, especialmente em um contexto de mudanças climáticas.
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