Análises

Quando o chorume transborda, transborda também a responsabilidade ambiental

A proteção das águas brasileiras exige uma visão integrada. Resíduos sólidos, saneamento, recursos hídricos e saúde pública não podem continuar sendo tratados como políticas isoladas

Antonio Marcos Barreto ·
7 de julho de 2026

O recente vazamento de chorume no Centro de Tratamento de Resíduos de Seropédica, confirmado pelo Instituto Estadual do Ambiente (INEA), não representa apenas uma ocorrência operacional. É um episódio que expõe, mais uma vez, a complexidade da gestão dos resíduos sólidos urbanos e a necessidade de colocar o tratamento dos lixiviados no centro da agenda ambiental brasileira.

Ao orientar os moradores da região a não utilizarem água de poços, nascentes, rios e córregos até a conclusão das análises laboratoriais, o próprio órgão ambiental reconhece que o episódio possui potencial para comprometer a qualidade dos recursos hídricos e a segurança sanitária da população. Trata-se de uma medida prudente, compatível com o princípio da precaução, que deve nortear toda política pública voltada à proteção ambiental.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Esse fato, entretanto, suscita uma reflexão mais ampla.

Nas últimas décadas, o Brasil avançou significativamente ao substituir milhares de lixões por aterros sanitários licenciados. Foi um passo civilizatório importante. Contudo, ainda persiste um desafio técnico que permanece subestimado: a gestão dos lixiviados.

O chorume é um dos efluentes mais complexos produzidos pela atividade humana. Sua composição varia ao longo do tempo e pode conter elevadas concentrações de matéria orgânica, nitrogênio amoniacal, sais dissolvidos, metais, compostos orgânicos persistentes, contaminantes emergentes e outras substâncias que desafiam os processos convencionais de tratamento.

Por isso, a gestão dos lixiviados não pode ser vista como uma atividade acessória da operação de aterros sanitários. Ela deve constituir um dos principais pilares do licenciamento ambiental, da fiscalização e da gestão de riscos.

O episódio de Seropédica ocorre justamente quando o país debate a revisão da Resolução CONAMA nº 430/2011, responsável por disciplinar o lançamento de efluentes no Brasil. Essa coincidência reforça a importância de construirmos uma regulação cada vez mais aderente ao conhecimento científico, capaz de estimular tecnologias apropriadas para efluentes complexos, fortalecer o monitoramento ambiental e assegurar que a conformidade decorra da efetiva redução da carga poluidora, e não apenas do atendimento formal a parâmetros tradicionais.

A proteção das águas brasileiras exige uma visão integrada. Resíduos sólidos, saneamento, recursos hídricos e saúde pública não podem continuar sendo tratados como políticas isoladas. O que acontece dentro dos limites de um aterro pode produzir consequências muito além de seus muros, alcançando rios, aquíferos, ecossistemas e comunidades.

Também é preciso reconhecer a postura técnica do INEA ao agir rapidamente diante do incidente, determinando medidas emergenciais, monitoramento ambiental e orientações preventivas à população. Transparência, rapidez e rigor técnico são elementos essenciais para preservar a confiança da sociedade e minimizar riscos.

Mais importante do que identificar responsabilidades individuais é transformar esse episódio em aprendizado institucional.

É hora de fortalecer planos de contingência, ampliar o monitoramento em tempo real, aperfeiçoar a infraestrutura de armazenamento e tratamento dos lixiviados, incorporar sistemas redundantes de segurança e garantir que informações ambientais relevantes sejam disponibilizadas de forma transparente para a sociedade.

A sustentabilidade de um aterro sanitário não pode ser medida apenas pela quantidade de resíduos que recebe. Ela deve ser avaliada, sobretudo, por sua capacidade de impedir que os impactos ambientais ultrapassem seus limites operacionais.

Quando o chorume transborda, transborda também a responsabilidade coletiva de aperfeiçoarmos nossas políticas públicas, nossa engenharia e nossa governança ambiental.

O episódio de Seropédica deve servir como um alerta. Não apenas para corrigirmos um problema pontual, mas para fortalecermos todo o sistema brasileiro de gestão ambiental, em benefício das presentes e das futuras gerações.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Antonio Marcos Barreto

    Vice-presidente Nacional da ANAMMA (Associação Nacional de Órgãos Municipais de Meio Ambiente)

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Análises
1 de julho de 2026

O Mar não é Estação de Tratamento: o futuro das nossas águas no Conama

Revisão da Resolução Conama nº 430/2011, um dos principais instrumentos de controle de poluição hídrica no Brasil, exige responsabilidade com a vida marinha

Reportagens
25 de outubro de 2023

Estudo traça perfil dos poluentes encontrados em uma das principais bacias hidrográficas de São Paulo

Pesquisadores da Unicamp analisaram amostras coletadas em 15 pontos da bacia composta pelos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Foram detectados 45 contaminantes – incluindo compostos ainda não regulados pela legislação – decorrentes de efluentes agrícola, industrial e doméstico

Colunas
9 de setembro de 2025

A água que falta nas torneiras começa no esgoto que sobra nos rios

A crise hídrica na região metropolitana do RJ não pode ser entendida apenas como um problema de escassez natural, mas como resultado de uma gestão pública que historicamente negligenciou o saneamento

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.