Durante um dia normal de trabalho no Parque Nacional do Juruena, no extremo norte do Mato Grosso, os Agentes Temporários Ambientais (ATAs) contratados pelo Programa Monitora, do ICMBio, realizavam a coleta de dados sobre a biodiversidade ao longo da trilha utilizada pelo programa, na porção sul da unidade de conservação. O que não estava no planejamento de campo era um encontro com garimpeiros, que tem invadido a área protegida atrás de ouro. Os infratores dispararam tiros para o alto, afugentando a equipe do Monitora. Pelo menos três dos agentes são indígenas da etnia Apiaká, que tem o território da sua Terra Indígena sobreposta ao parque.
O episódio de intimidação foi relatado por diversas fontes que acompanham o dia a dia da gestão: “[Os garimpeiros] abriram uma estrada lá para dentro do parque que foi bater em uma trilha do Programa Monitora… Quando o pessoal tava fazendo limpeza da trilha, deram de cara com os garimpeiros e os garimpeiros desceram bala neles”, afirmou um servidor do ICMBio que preferiu não se identificar.
O incidente é sintoma de um problema que se avoluma: a presença e expansão do garimpo dentro do quarto maior parque nacional do país. Esse crescimento foi confirmado em um recente relatório, resultado do trabalho da Amazon Conservation Association e do Instituto Centro de Vida (ICV), com informações geradas pelo MAAP (Monitoring of the Andes Amazon Program), que utilizou a interpretação de imagens de satélite de altíssima resolução.
A análise baseada em alertas de desmatamento por mineração aponta um aumento significativo dentro do parque num intervalo de apenas oito meses. Entre agosto de 2025 e abril de 2026, a área impactada saltou de 10,5 hectares para 79,5 hectares, um aumento de 660%.

((o))eco conversou com gestores, especialistas e fontes locais para entender os motivos desse aumento recente. O argumento que parece consenso é a valorização do ouro no mercado, que vem crescendo há seis anos. O metal precioso passou de aproximadamente R$ 200 a grama em 2020 para atuais R$ 820. Com isso, a invasão de áreas protegidas, mesmo arriscada e difícil logisticamente, torna-se atraente para os garimpeiros.
Para Valter Glória, gestor do Núcleo de Gestão Integrada (NGI) Serra do Cachimbo, responsável por UCs federais entre Pará e Mato Grosso, há motivos adicionais para esse avanço. “Fazendo a gestão de fato do parque, verificamos essa questão do avanço do garimpo. Muito disso [se deve] ao preço do ouro, que está sendo super valorizado. Mas também à gestão em si, que historicamente tem poucos servidores atuando. Por isso eu atribuo também à pouca presença do estado aqui no território”.

Valter destaca a dificuldade de acesso e afirma que o ICMBio tem feito operações na região. “Estamos trabalhando. Temos desenvolvido ações de fiscalização aqui e à medida que a gente consegue, estamos tentando dar uma resposta para o avanço do garimpo aqui, principalmente nessa parte sul do parque, onde a gente consegue chegar tanto no modal terrestre como no aéreo”.
Quando conversou com a reportagem, a equipe do ICMBio estava realizando uma operação justamente nas áreas de garimpo no extremo sul do parque. Nas imagens obtidas por ((o))eco, é possível ver o tamanho do estrago à floresta. Pelo menos duas escavadeiras hidráulicas, uma serraria móvel circular e um barracão de lona utilizado pelos garimpeiros foram inutilizados. O problema, como sempre, é encontrar os financiadores das atividades, uma vez que os poucos trabalhadores encontrados (a maioria foge) não se dispõe a falar. “Nunca o dono está ali. O cara que compra a máquina, os equipamentos, a alimentação e o resto necessário nunca está dentro do garimpo”, conclui Valter.



Para Matt Finer, diretor do MAAP e especialista sênior em Pesquisa, é necessário enfrentar o garimpo ilegal com um esforço coordenado e sustentado ao longo do tempo, não apenas nos territórios diretamente afetados. “Os dados mostram uma rápida expansão da atividade, o que necessariamente exige capacidade de mobilização e recursos econômicos, mas não permitem determinar quem está por trás da operação ou qual seria sua estrutura de financiamento”, explica.
A presença de facções criminosas
“A turma que está dentro do parque é a galera que está mais disposta a ir pro lado errado da coisa”. A afirmação é de uma fonte que preferiu não se identificar e que acredita no envolvimento de facções criminosas no garimpo da região. Notícias recentes corroboram essa visão.
Em fevereiro deste ano, em um local conhecido como Garimpo Juruena, que fica próximo aos limites do parque, ocorreu um confronto entre policiais e possíveis integrantes da facção criminosa Comando Vermelho. Outros relatos de fontes locais também indicam que o crime organizado passou a atuar na região, provavelmente migrando de outras áreas do estado: “Com as operações lá [na terra indígena] Yanomami, esse pessoal migrou, né? E a fiscalização também está batendo forte na Terra Indígena Sararé, [perto] da Bolívia. Lá na Sararé quem domina é o CV [Comando Vermelho] e esses caras estão migrando para cá”, afirmou uma fonte na condição de anonimato.
Segundo reportagem do Fantástico em junho de 2026, que acompanhou uma das operações dentro da TI Sararé, a facção, que inicialmente atuava como segurança armada dos garimpeiros, ampliou sua presença e dominou áreas de mineração ilegal, usando o ouro para financiar outras atividades criminosas. “[Há] facilidade de lavar o dinheiro, de movimentar muita grana em pouco tempo. Ouro é liquidez. A gente brinca que se você tiver ouro, você troca em pão na padaria, né?”, esclarece a fonte ouvida por ((o))eco.

Na Terra Indígena Sararé, citada acima, a situação é crítica. Segundo diagnóstico realizado pela publicado pela OPAN (Operação Amazônia Nativa), a Terra Indígena se tornou o território com o maior número de alertas de garimpo ilegal no Brasil em 2025, com 1.814 registros. A violência pela presença de grupos armados e as ameaças à saúde pela contaminação da água por mercúrio e até cianeto (substância extremamente tóxica) são uma realidade naquele território, conforme exposto no diagnóstico.
Pressão nas terras indígenas
A Terra Indígena Apiaká Pontal e Isolados ainda aguarda seu processo de regularização e tem 100% do seu território sobreposto ao Parque Nacional. O povo Apiaká vem pleiteando formalmente junto à FUNAI a demarcação de suas terras tradicionais desde o ano 2000, mas em meio ao moroso processo de demarcação, foi criado o Parque Nacional do Juruena, em 2006. Durante esse período, um grupo de Apiaká reocupou a porção sul do território, onde hoje se localiza a Aldeia Matrinchã, a maior e mais importante da Terra Indígena e que está distante apenas alguns quilômetros do garimpo que mais cresce na região.
Para um Indigenista da OPAN, que preferiu não ter seu nome divulgado, o contexto da Terra Indígena Apiaká Pontal e Isolados é bem diferente do que ocorreu em Sararé, mas há riscos e pressões. “Os indígenas da aldeia Matrinchã tem reportado que eles vêm sentindo o garimpo chegando perto da aldeia. Quando desligam o barulho motor [do gerador] a diesel, eles começam a escutar o barulho das máquinas do garimpo”, conta.
Ele explica que o garimpo pressiona as lideranças através do assédio para entrada em novas áreas: “volta e meia as balsas de garimpo entram ali no rio Matrinchã [ou Rio São João da Barra] e tentam ter a anuência das lideranças. Existe o assédio”.
Para o indigenista, uma característica que fortalece a resistência dos Apiakás é o fato de possuírem uma fonte de renda já consolidada e legalizada, a partir do turismo da pesca esportiva. “Não existe nenhum Apiaká envolvido com nenhum garimpo ou garimpeiro… a gente vê isso graças a geração de renda [da pesca esportiva], porque dificulta ainda mais eles abrirem algum diálogo”, pontua.
Por outro lado, há também o risco à saúde dos indígenas e pessoas que consomem e dependem da água do Rio São João da Barra, principal afluente do Rio Juruena. Em estudo publicado recentemente na Springer Nature, pesquisadoras Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) avaliaram a bioacumulação de mercúrio (Hg), utilizado na atividade garimpeira, em peixes não-predadores – matrinchã (Brycon falcatus) e o piau-três-pintas (Leporinus friderici) – e nos rios, para mensurar os riscos à saúde de populações que dependem da pesca para subsistência.
No Rio São João da Barra, os resultados mostraram que o sedimento está contaminado com uma concentração perigosa de mercúrio, atingindo valores de até 0,55 µg/g. Isso excede significativamente o limite de 0,17 µg/g estabelecido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Em relação aos peixes coletados no mesmo rio, a matrinxã e o piau apresentaram médias de concentração de mercúrio de 0,18 µg/g e 0,46 µg/g, respectivamente. Embora esses valores individuais estejam abaixo do limite geral da OMS para espécies não-carnívoras (0,5 µg/g), eles representam um perigo severo para os indígenas devido ao volume elevado no consumo diário.
Existe uma grande preocupação com a segurança das lideranças. A comunidade possui uma dependência logística em relação à infraestrutura do garimpo, pois o “Porto do Garimpo” é o acesso mais próximo e viável para a entrada e saída da aldeia. Como este porto está situado fora dos limites da terra indígena e é uma área de influência direta dos garimpeiros, as lideranças Apiaká acabam sendo forçadas a manter uma política de “boa vizinhança” para garantir o trânsito seguro de pessoas e suprimentos, o que as coloca em uma posição de vulnerabilidade a riscos de vigilância e retaliações. “A gente teme e eles temem [por suas] lideranças, a segurança deles. O acesso à aldeia passa pelo porto do garimpo, eles terminam correndo risco”, conclui o indigenista.
Histórico de pressões (e mortes)
O ano é 1988 e a edição no 1890 da Revista Manchete estampou o título “A nova febre do ouro” em uma reportagem de 16 páginas sobre o Garimpo do Juruena. Segunda a reportagem, lá “há mais ouro do que em Serra Pelada, suficiente para pagar a dívida externa”. O texto é assinado pelo jornalista Luiz Carlos Sarmento e as fotos do repórter fotográfico Gil Pinheiro ilustram um sem número de revólveres, espingardas, munição e ouro, muito ouro – nos colares, nas pepitas, nos dentes. O cotidiano violento da região se resume na fala de um dos entrevistados: “Aqui não se mata por motivo fútil. Mata-se sem motivo mesmo. São 50 mortos por mês”.
E nem os profissionais do maior periódico da época escaparam desta violência. Durante o período no garimpo, o fotógrafo foi alvejado de raspão durante um tiroteio entre garimpeiros. “Ali estava toda a história do garimpo, a violência de gente desesperada, que luta no vazio por um enriquecimento duvidoso”, afirmou ao descrever o ocorrido publicado na mesma reportagem de abril de 1988.


A área onde se estabeleceu o Garimpo do Juruena há pelo menos 60 anos, localiza-se entre os rios São João da Barra e Juruena. O Rio São João da Barra é um importante afluente do médio-baixo Juruena. A geologia deste “bico” formado pela confluência é extremamente rica em ouro, especialmente na porção ao sul de uma serra que atravessa a região e segue em direção ao Amazonas e ao Pará.
“Nos anos 80, o Garimpo do Juruena era tão relevante que recebia shows de artistas nacionais famosos, como Zé Ramalho, Amado Batista e Gretchen”, afirma outra fonte que preferiu não se identificar por morar em Alta Floresta.
A presença da atividade garimpeira remonta a décadas de ausência do Estado e ação ilegal de grupos econômicos locais e nacionais. Para o autor do recente estudo, Matt Finer, só uma ação integrada, que alcance as cadeias de financiamento e mercado de compra e venda podem mudar o cenário. “O monitoramento contínuo, a fiscalização, o controle das cadeias de fornecimento e ações destinadas a interromper os fluxos financeiros que permitem a expansão do garimpo ilegal precisam atuar de forma conjunta”, conclui.
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