Os cumes vertiginosos e repletos de neve da cordilheira do Himalaia, na Ásia, onde está o ponto mais alto do mundo, são uma paisagem conhecida, principalmente entre montanhistas e amantes de esportes de aventura. O volume crescente de turistas que se aventuram aos pés, nos acampamentos base, ou até os 8.848 metros do topo do Everest, tem gerado, porém, um problema maior do que filas na montanha: o lixo. E a própria logística da montanha desafia a retirada desses resíduos. Essa é a verdadeira jornada do documentário “Um Passo a Mais”, que convida o público a participar da solução.
Dirigido pelo fotógrafo Rafael Duarte, da Bambalaio Filmes, o documentário acompanha a expedição do empresário e montanhista Bernardo Fonseca ao Everest, no Nepal. Mas o cume funciona menos como destino da história do que como chamariz para falar sobre a responsabilidade de montanhistas e visitantes com os ambientes naturais. “A gente quis focar na solução. Vamos lembrar que o problema existe e o tamanho do problema, mas vamos mostrar o que pode ser feito”, resume o fotógrafo sobre o coração do projeto, que se propõe a procurar pessoas e organizações que estão tentando enfrentar o desafio dos resíduos.
Lançado digitalmente em dezembro de 2025, o filme está sendo disponibilizado gratuitamente no YouTube até segunda-feira (31/08). Após esse período, o documentário pode ser conferido no catálogo do streaming brasileiro Aquarius.
A mais de 8 mil metros de altitude, qualquer decisão pode ser uma questão de sobrevivência. Uma rajada de vento leva uma barraca, um equipamento cai sem que seja possível recuperá-lo e cada quilo carregado torna mais difícil atravessar alguns dos trechos mais perigosos do Everest. É nesse cenário extremo, onde até recolher o próprio lixo pode se tornar um desafio, que o documentário procura fazer uma pergunta diferente daquela que costuma acompanhar as imagens de resíduos acumulados na montanha mais alta do planeta: diante de um problema que já existe, o que pode ser feito para começar a revertê-lo?


“Quem é que está dando voz ou empoderando quem já faz o bem? Eu não quero ser mais um para criticar. Eu quero pegar essa mensagem e dar escala para ela”, afirma Bernardo Fonseca, CEO da empresa X3M que organiza eventos esportivos na natureza, sobre o propósito do filme.
Um dos exemplos apresentados é o ‘Carry Me Back’ (Me carregue de volta, em tradução livre), iniciativa situada no Vale do Khumbu, no caminho que leva ao acampamento-base do Everest. O projeto, lançada em 2019 e que opera regularmente desde 2022, mobiliza visitantes que estejam retornando para levar consigo sacos de 1 quilo de resíduos plásticos na descida, ajudando a transportá-los para pontos onde podem ser tratados adequadamente. Estima-se que entre 30 e 40 mil pessoas percorrem essa trilha anualmente. De acordo com os dados do projeto, mais de 40 toneladas de resíduos já foram retiradas dessa forma.
Para o empresário, a força da iniciativa está justamente na soma de esforços aparentemente pequenos. “É um trabalho de formiguinha, mas é um trabalho de formiguinha que dá muito certo. Porque ele também dá trabalho para quem mora na região”, conta.
E se cada um que passa na trilha leva um quilo adicional na mochila para ajudar a retirar o lixo da montanha… É dessa lógica que nasce o título do documentário. Fazer apenas a própria parte, defendem Bernardo e Rafael, já não basta diante de um passivo acumulado durante décadas. “Não basta você fazer o seu, você vai ter que fazer o do outro. Você vai ter que coletar o seu, mas vai ter que pegar o lixo que o amigo deixou cair também”, diz o diretor. É o “passo a mais” proposto pelo filme.


A ideia, porém, não é construir uma imagem idealizada – e irreal – de uma expedição sem impactos. O próprio filme mostra os limites dessa ambição. Nos campos mais altos do Everest, explica Bernardo, a prioridade pode rapidamente tornar-se a sobrevivência. “A última coisa que a pessoa pensa na hora da sobrevivência é o lixo. Então, se você já não tiver planejado isso, ele vai ficar para trás mesmo”, afirma.
Essa contradição foi incorporada conscientemente à narrativa. Equipamentos podem ser perdidos, barracas destruídas e objetos levados pelo vento. O princípio de não deixar rastros precisa, nesse contexto, ganhar outra dimensão: reduzir o impacto sempre que possível e retirar mais do que foi deixado.
Foi o que a equipe tentou colocar em prática. Além de trazer os oito quilos de resíduos exigidos pelo governo nepales, política que tenta minimizar o problema do lixo no Everest, Bernardo incluiu na sua expedição a retirada de outros 100 quilos de resíduos acima do acampamento-base, transportados montanha abaixo com auxílio de um helicóptero. As emissões de carbono associadas ao voo da aeronave contratada foram posteriormente compensadas.
“Usamos o helicóptero como ferramenta porque a alternativa seria contratar sherpas para descerem com peso extra de lixo e aí tem todo um dilema ético sobre colocar a vida dessas pessoas em risco”, explica Rafael.
Experiente em alta montanha, Bernardo acredita que regras mais rígidas sobre os resíduos produzidos na montanha, inclusive os dejetos humanos, podem ajudar a mudar comportamentos. Ainda que ele veja avanço no Everest ao longo dos últimos anos, inclusive com expedições específicas de limpeza dos campings mais altos, a gestão ainda depende excessivamente da iniciativa de operadores e dos próprios montanhistas.
A mensagem do filme não se restringe à montanha mais alta do mundo. “Esse deve ser um comportamento cotidiano, especialmente entre quem já frequenta ambientes naturais. É pegar o lixo deixado por outros quando você vai fazer uma trilha, por exemplo”, encoraja Rafael.

Não à toa o filme conta com a parceria da Leave No Trace, iniciativa que promove o mínimo impacto em ambientes naturais. A expectativa é que o documentário seja usado como ferramenta de impacto socioambiental, compartilha o fotógrafo.
“É raro alguém falar que viu um filme lindo sobre lixo. A gente tentou fazer um filme lindo sobre lixo. Agora, o nosso objetivo vai ser se a pessoa sentar numa roda de debate, se aquela pessoa mudar o hábito. Não só catar o seu próprio lixo, que eu estou considerando que é uma obrigação mínima. A gente está indo já para o passo a mais”, resume o diretor do filme, que já foi selecionado para 13 festivais internacionais.
Para Bernardo Fonseca, é essa mudança, e não a conquista do cume, que mediria o sucesso do projeto. “A sementinha do filme é muito menos sobre performance no Everest e muito mais sobre conscientização, sobre boas práticas. Só que a gente usa o Everest como chamariz. E se conseguirmos mudar algo e alguém, é a verdadeira conquista do projeto”, completa.
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