Quando compramos uma bandeja de carne no supermercado, geralmente olhamos o preço, o corte e a marca. Mas há uma parte dessa história que não cabe na embalagem. Não vemos as propriedades pelas quais o animal passou, as condições de trabalho envolvidas na produção ou se houve conversão de vegetação nativa ao longo dessa cadeia. Ainda assim, tudo isso faz parte da história daquele produto. O que não aparece na embalagem também tem um custo, e esse custo é pago por territórios, trabalhadores e pelo meio ambiente.
O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil, ocupando cerca de 23% do território nacional segundo a Embrapa, e possui papel fundamental na manutenção do ciclo hidrológico do país. Ainda assim, dados do IPAM mostram que ele é um dos biomas mais afetados pela cadeia pecuária, com mais da metade de sua área já convertida para usos agrícolas. Em 2024, o Cerrado concentrou 52,5% de toda a área desmatada no Brasil, mais do que qualquer outro bioma naquele ano. A agropecuária, por sua vez, é apontada pelo MapBiomas como o principal vetor de perda de vegetação nativa no país nos últimos seis anos. É nesse contexto que a pecuária bovina ganha especial relevância: o Cerrado concentra o maior rebanho bovino entre os biomas brasileiros e tem forte participação nas emissões associadas à atividade.
Durante a produção bovina, um mesmo animal pode passar por diferentes propriedades nas etapas de cria, recria e engorda. A carne originada no Cerrado chega a mais de 1.500 frigoríficos em todo o Brasil antes de seguir para distribuidores, atacadistas e supermercados. No entanto, os sistemas tradicionais de controle costumam monitorar apenas a última fazenda antes do abate. As fazendas anteriores, conhecidas como fornecedores indiretos, são muito mais difíceis de acompanhar. É aí que se abre uma das principais lacunas da rastreabilidade da pecuária brasileira. O que não é rastreado pode sumir dos relatórios oficiais, mas suas consequências continuam presentes na terra e na vida de quem lá habita.
A falta de transparência também mascara violações aos direitos humanos. Em 2024, a análise da Lista Suja do Trabalho Escravo feita pela Radiografia da Pecuária do Cerrado identificou 16 casos em estabelecimentos pecuários localizados no bioma, envolvendo 85 trabalhadores resgatados. Esses casos representavam 25% dos registros de trabalho análogo à escravidão na pecuária brasileira naquele período.
Iniciativas como a do Pasto ao Prato mostram como a transparência pode ajudar a reduzir essas lacunas de informação. Por meio de um aplicativo, qualquer pessoa pode consultar o carimbo de inspeção sanitária de uma embalagem de carne, identificar a unidade frigorífica onde ela foi processada e acessar indicadores socioambientais associados à sua cadeia de fornecedores. Ao registrar o produto e o local onde ele foi encontrado, o usuário também contribui para ampliar uma base de dados sobre os caminhos da carne até os pontos de venda. Trata-se de uma inversão importante de lógica: o consumidor, historicamente colocado como o elo passivo no fim da cadeia, ganha ferramentas para entender melhor o produto que encontra na prateleira e cobrar mais transparência de quem o produz e comercializa.
No entanto, em uma indústria bilionária, a responsabilidade de fiscalizar não pode recair apenas sobre quem compra. Iniciativas como o Protocolo de Monitoramento Voluntário de Fornecedores de Gado no Cerrado (lançado em 2024 e atualizado em 2026) surgem para padronizar a compra responsável ao estabelecer critérios sobre desmatamento, trabalho escravo, embargos ambientais e invasão de terras indígenas e quilombolas. Contudo, análises da Radiografia da Pecuária do Cerrado apontam gargalos severos na cobertura e implementação desse protocolo. O estudo defende a necessidade urgente de monitorar fornecedores indiretos, dar transparência pública aos dados das Guias de Trânsito Animal (GTA) e do Cadastro Ambiental Rural (CAR), além de criar um sistema nacional e obrigatório de rastreabilidade animal.
Cobrar transparência não é um mero detalhe burocrático, mas uma condição para que seja possível cobrar responsabilidades ao longo da cadeia. Não deveria ser necessário que o cidadão se torne um detetive antes de colocar a refeição na mesa, nem que organizações da sociedade civil assumam sozinhas a tarefa de reconstruir um caminho que empresas e o poder público têm condições de tornar mais transparente.O Cerrado e seus trabalhadores não podem continuar pagando uma conta que desaparece na etiqueta do supermercado.
Se uma pessoa precisa baixar um aplicativo, escanear o carimbo de inspeção sanitária de uma embalagem e pesquisar informações sobre a cadeia daquela carne para descobrir se existem riscos socioambientais associados àquele produto, há uma pergunta que precisa ser feita às empresas: por que essa informação não está disponível de forma simples, pública e acessível?
A pergunta central não é apenas de onde vem a carne, mas o que acontece ao longo do caminho. Tornar esse rastro visível é um dever compartilhado por empresas, órgãos reguladores e por toda a sociedade, que tem o direito de saber exatamente o que existe entre o pasto e a prateleira.
Referências
DEL LAMA, Carolina et al. Relatório Anual do Desmatamento no Brasil – RAD2024. São Paulo: MapBiomas, 2025. Disponível em: https://alerta.mapbiomas.org/. Acesso em: 1 set. 2026.
IPAM. Cerrado perdeu uma área equivalente a um Goiás e meio em 41 anos. IPAM, 2026. Disponível em: https://ipam.org.br/cerrado-perdeu-uma-area-equivalente-a-um-goias-e-meio-em-41-anos/. Acesso em: 2 set. 2026.
PROFOREST; IMAFLORA. Protocolo do Cerrado: Protocolo de Monitoramento Voluntário de Fornecedores de Gado no Cerrado. [S. l.]: Proforest; Imaflora, 2026. Disponível em: https://static1.squarespace.com/static/610417b3588db6073a076aa0/t/69c6964348e8e255b3e14509/1774622275217/PM_PT_1.1_2026_DIGITAL.pdf. Acesso em: 2 set. 2026.
RIBEIRO, J. F.; WALTER, B. T. Principais fitofisionomias do bioma Cerrado. In: EMBRAPA CERRADOS. Coleção Entomológica da Embrapa Cerrados. Brasília, DF: Embrapa Cerrados, [s.d.]. Disponível em: https://www.embrapa.br/web/cerrados/colecao-entomologica/bioma-cerrado. Acesso em: 2 set. 2026.
ZU ERMGASSEN, E. K. H. J. et al. Radiografia da pecuária do Cerrado. do Pasto ao Prato, jun. 2025. DOI: 10.48650/H7NE-D408.
Revisão:
Ludivisk Nascimento – Mobilizador territorial do Engajamundo
Nathalia Marangoni – Consultora Do Pasto ao Prato
As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.
Este conteúdo faz parte do projeto Cerrado em Pauta, com apoio do CEPF Cerrado
O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, da União Europeia, da Fundação Franklinia, da Fundação Hans Wilsdorf, do Fundo Global para o Meio Ambiente, do Governo do Canadá, do Governo do Japão, da Fundação Hempel, The Nature Conservancy e do Banco Mundial. Uma meta fundamental é garantir que a sociedade civil esteja envolvida com a conservação da biodiversidade.
O Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) atua como a Equipe de Implementação Regional do CEPF. A missão do IEB é fortalecer os atores sociais e o seu protagonismo na construção de uma sociedade justa e sustentável, por meio de formação de pessoas, fortalecimento e articulação de instituições e grupos comunitários, e geração e disseminação de conhecimentos
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Navegando pelo retrocesso
A segurança da população não pode depender da disposição de legisladores em reconhecer os limites ecológicos, nem ficar subordinada aos interesses setoriais instalados no Congresso →
Vitória de Lula é celebrada por organizações socioambientais
Combate ao desmatamento e à crise climática embalam posicionamento de organizações que celebraram a reeleição do presidente, e derrota de Flávio Bolsonaro →
Holanda anuncia aporte de até US$ 500 milhões para fundo de proteção de florestas tropicais
Investimento no TFFF foi anunciado um dia após a reeleição de Lula e eleva a US$ 7,8 bilhões as contribuições públicas prometidas ao mecanismo →

