Análises

Proteger a biodiversidade exige conectar territórios

Brasil levou a COP 17 da Biodiversidade proposta que reforça necessidade de investir em corredores de biodiversidade e redes ecológicas que não se limitem às áreas protegidas

Maria Cecília Wey de Brito ·
30 de outubro de 2026

Criar áreas protegidas é uma das principais formas de conservar a biodiversidade. Mas os limites desenhados nos mapas não conseguem atender todas as necessidades das espécies. Animais se deslocam em busca de alimento e parceiros reprodutivos, sementes são dispersas entre ambientes e populações dependem do intercâmbio genético para manter sua diversidade. Com o avanço do aquecimento global, eleva-se a necessidade de se deslocar para novos territórios em busca de água, comida ou temperatura mais seguras. Quando a vegetação nativa fica dividida em fragmentos isolados, esses processos são afetados.

A fragmentação é também, por si só, uma condição de vulnerabilidade da vegetação nativa. Áreas de bordas de fragmentos de vegetação estão mais expostas aos eventos extremos, como granizo, ventanias, aumento de temperatura e luminosidade, excesso ou falta de chuva. Se perto de áreas produtivas, correm o risco de serem atingidas por agroquímicos. Em caso de fogo, são as áreas de borda, menos densas, que favorecem o avanço das chamas.

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A dimensão do desafio aparece nos dados recentes do MapBiomas: o Brasil possui 3,41 milhões de fragmentos de vegetação nativa e, em 46% dos municípios, a área média desses fragmentos é inferior a 25 hectares. A fragmentação, associada à transformação dos ambientes naturais por atividades humanas, dificulta o deslocamento das espécies e reduz as possibilidades de manutenção de suas populações.

É por isso que políticas de conservação e restauração precisam englobar critérios de conectividade ecológica. Corredores ecológicos ajudam a estabelecer ligações entre áreas naturais, favorecendo a circulação dos organismos, a dispersão de sementes e o fluxo genético. No caso do Brasil, nosso país já dispõe de instrumentos para agir. A Lei nº 9.985, de 2000, que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), prevê corredores ecológicos para facilitar o movimento das espécies e a recolonização de áreas degradadas. A legislação oferece uma base para incorporar a conectividade à gestão das áreas protegidas.

No Pontal do Paranapanema, no oeste paulista, o projeto Corredores de Vida, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), mostra uma aplicação desse princípio. Um corredor de 12 quilômetros, com 2,4 milhões de árvores plantadas, conecta o Parque Estadual Morro do Diabo à Estação Ecológica Mico-Leão-Preto. A iniciativa combina restauração florestal e articulação com proprietários rurais e comunidades locais.

Experiências como essa mostram que a conservação precisa ultrapassar os limites das unidades de conservação. A conectividade depende da proteção de remanescentes, da recuperação de áreas degradadas e de escolhas sobre o uso do território. Também exige critérios técnicos: traçar uma ligação no mapa não garante que ela seja utilizada pelas espécies. É preciso considerar suas necessidades, as características da paisagem e o monitoramento dos resultados.

O exemplo brasileiro pode inspirar o mundo e o tema esteve em debate ao longo deste ano, nas conversas prévias e durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), em um momento de avaliação dos compromissos internacionais de conservação. Este é um tema que deve continuar nas conversas, dada sua crescente importância e a falta de escala nessa frente. 

O Brasil, em nome do Chile, Colômbia, Cuba, Venezuela e México levou a proposta de estabelecer um quinto elemento programático dedicado à conectividade a ser incorporado no Programa de Trabalho sobre Áreas Protegidas (PoWPA), da CDB. Isso se deu na reunião do Órgão Subsidiário de Assessoramento Científico, Técnico e Tecnológico da CDB (SBSTTA-28), realizada em julho e agosto de 2026. A proposta busca oferecer uma estrutura coerente para integrar redes ecológicas e corredores de biodiversidade, áreas de conexão entre habitats, inclusive os chamados stepping stones, incorporar planejamento espacial integrado e restauração ecológica, reforçar atividades de adaptação às mudanças climáticas e conectividade em políticas e planejamentos setoriais. Até a data da publicação desse texto ainda não havia consenso sobre a aprovação da proposta brasileira.

Incorporar a conectividade à criação e à gestão de áreas protegidas e orientar a restauração para locais capazes de restabelecer ligações ecológicas são passos concretos e urgentes. Elevar as funções ecossistêmicas das áreas de conservação é um dos próximos passos na conservação da natureza, rumo ao mundo que queremos para nós e para as futuras gerações.

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