Os prejuízos do desmatamento não se limitam apenas à perda, em si, da vegetação nativa. O avanço na destruição de ambientes naturais cria ilhas, cada vez menores e mais isoladas, de vegetação. Essa fragmentação dos habitats naturais é uma das principais ameaças à biodiversidade. No Brasil, um novo levantamento do MapBiomas apresenta um raio-x de onde estão essas ilhas de vegetação e como a paisagem natural brasileira mudou – e se fragmentou – nos últimos 38 anos. Do lado da solução, propostas brasileiras apresentadas nessa semana durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), na Armênia, reforçam investimentos na implementação de corredores ecológicos.
De acordo com o MapBiomas, em 1986, o país tinha 2,35 milhões de fragmentos de vegetação nativa, com uma área média de 287 hectares. Em 2024, o número de fragmentos subiu para 3,41 milhões e encolheu, com área média de 163 hectares. Os dados fazem parte do módulo de Degradação do MapBiomas.
Mais de um terço desses fragmentos está na Mata Atlântica, bioma que ocupava a maior parte da costa brasileira e historicamente o mais desmatado, reduzido a cerca de um quinto da cobertura original. O resultado de séculos de desmatamento e a expansão das mais populosas capitais brasileiras são 1,38 milhão de fragmentos. Além disso, o bioma abriga as menores áreas médias de remanescentes, com apenas 25 hectares.
O município de São João de Meriti, na região da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, domínios ancestrais da Mata Atlântica, é o recordista da parte debaixo da tabela, com 1,9 hectares de área média para cada fragmento de vegetação nativa.
A realidade de São João de Meriti não é um ponto fora da curva. Quase metade dos municípios brasileiros têm área média de fragmentos inferior a 25 hectares, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. No Pampa, bioma do Rio Grande do Sul, as menores áreas médias possuem 81 hectares.
Em segundo lugar na lista da fragmentação entre os biomas está o Cerrado, com 957 mil fragmentos, os menores deles com média de 105 hectares.
A Amazônia ainda concentra as maiores e mais contínuas áreas de vegetação, porém o bioma também testemunhou o avanço no número de fragmentos, que mais que triplicaram entre 1986 e 2024, saltando de 144 mil para 519 mil. Em paralelo, a área média caiu de 2,7 mil hectares para 662 hectares, uma redução de 76%.
O estado do Amazonas é o que apresenta os melhores índices de vegetação nativa continua, com fragmentos com, em média, 4 mil hectares.
“Essa redução da conectividade afeta diretamente a capacidade de dispersão e reprodução das espécies nativas que vivem nesses fragmentos, reduzindo o fluxo gênico e aumentando o risco de extinções locais. Quanto mais fragmentada fica a paisagem, menor é a área média de seus fragmentos, e isso é muito ruim em termos ambientais porque aumenta drasticamente a exposição aos efeitos de borda e ao fogo, especialmente em anos de eventos climáticos extremos”, explica Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e coordenador técnico do grupo de Degradação do MapBiomas.
Corredores ecológicos: o caminho da solução e a COP17
A importância dos corredores ecológicos tem sido um dos debates centrais na agenda brasileira da COP da Biodiversidade, na Armênia. A delegação brasileira na conferência defende a criação de um quinto elemento dedicado à conectividade ecológica no Programa de Trabalho sobre Áreas Protegidas da COP, atualmente em revisão para alinhamento com as metas estabelecidas no Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, aprovado em 2022.
A proposta busca oferecer aos países instrumentos para planejar, implementar e monitorar a conectividade entre áreas naturais. De acordo com o WWF, que apoia a proposta junto com a Convenção sobre Espécies Migratórias, ela prevê a incorporação dessas conexões ao planejamento territorial, incluindo ambientes terrestres, aquáticos e marinhos; a participação efetiva de povos indígenas, comunidades locais e outros atores na gestão dessas áreas, com respeito aos seus direitos e conhecimentos; a cooperação entre países e setores econômicos; e o fortalecimento de abordagens e indicadores nacionais para acompanhar a conectividade e avaliar os resultados das medidas adotadas.
“A aprovação do quinto elemento poderá contribuir para a implementação de diferentes metas do Marco Global de Biodiversidade, incluindo aquelas relacionadas ao planejamento territorial, marinho e de água doce, à restauração de ecossistemas, à conservação de espécies e à integração da biodiversidade às políticas públicas. Também poderá fortalecer a cooperação entre países na conservação de ecossistemas compartilhados e de espécies migratórias, cujos deslocamentos ultrapassam as fronteiras nacionais”, afirma Michel Santos, gerente de Políticas Públicas do WWF-Brasil.
A conectividade já é um dos pilares expressos pelo Marco Global de Biodiversidade. O acordo estabelece que, até 2030, pelo menos 30% das áreas terrestres, de águas interiores, costeiras e marinhas deverão estar efetivamente conservadas, protegidas e bem conectadas. Embora 17,5% das áreas terrestres e de águas continentais do planeta estejam protegidas ou conservadas, apenas 8,5% das terras protegidas estão bem conectadas.
Programa Estadual no Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, o governo estadual instituiu sua própria e pioneira política para enfrentar a fragmentação da Mata Atlântica fluminense. O Programa Estadual de Corredores Ecológicos (Decreto Estadual nº 50.533/2026), publicado em outubro e anunciado durante a COP17, estabelece diretrizes para identificar, reconhecer e implementar corredores ecológicos no estado que vão desde remanescentes de Mata Atlântica a áreas marinhas e costeiras, como manguezais, recifes e ilhas costeiras.
A instituição dos corredores será feita com base em estudos técnicos e consulta pública, e as áreas reconhecidas poderão receber prioridade em políticas de conservação e restauração, inclusive na destinação de recursos de compensações ambientais e fundos estaduais, explica a Secretaria do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS-RJ).
Entre as estratégias previstas pelo programa está a priorização de investimentos em restauração ecológica em áreas-chave para conexão de remanescentes florestais e unidades de conservação. A proposta inclui a recuperação de matas ciliares, nascentes e áreas degradadas, além do incentivo à criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), do pagamento por serviços ambientais e do apoio à agroecologia.
Um elemento comum de fragmentação são as rodovias e infraestruturas como linhões e gasodutos. Para mitigar esses impactos, o programa prevê a implantação de passagens de fauna e a incorporação de soluções de conectividade ecológica ao planejamento e licenciamento ambiental.
Nos ambientes costeiros e marinhos, a política visa proteger e recuperar áreas de reprodução, alimentação e descanso de espécies, como manguezais e estuários, além de rotas migratórias. O objetivo é conciliar a conservação da biodiversidade marinha com atividades como pesca artesanal, aquicultura sustentável e turismo de natureza.
“Com esse decreto, estamos criando condições para conectar áreas protegidas, recuperar paisagens degradadas e integrar os diferentes atores do território em uma estratégia comum. Queremos que a proteção da biodiversidade também gere oportunidades de desenvolvimento, fortaleça a segurança hídrica e aumente a resiliência das nossas cidades e comunidades”, destacou Rodrigo Mascarenhas, secretário de Estado do Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro.
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