No discurso da vitória, o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva, que se encaminha ao quarto mandato após grande virada impulsionada pela população nas ruas e nas redes sociais, defendeu a soberania digital brasileira. Em sua fala, o presidente acenou para medidas como a atração de data centers e o desenvolvimento de uma inteligência artificial (IA) nacional.
Ainda que a necessidade de diminuir a dependência do país de plataformas e infraestruturas estrangeiras para dados em larga escala tenha ficado clara, é importante evitar o erro de atrair grandes projetos de data centers sem que os impactos ambientais sejam mapeados e as contrapartidas para a conservação e a mitigação desses impactos sejam garantidas.
No plano de governo, a chapa vencedora prevê que a expansão de data centers e infraestruturas de IA seja acompanhada de salvaguardas socioambientais obrigatórias e exigências de eficiência energética. Inclusive a utilização progressiva de fontes 100% renováveis e a avaliação de impactos sobre o sistema elétrico, hídrico e populações locais.
No entanto, parece que esse será um dos principais desafios socioambientais no novo governo.
Enquanto a soberania digital entra em pauta, um projeto de data center hiperescalável no interior paulista, do tipo ideal para lidar com volumes massivos de dados, não espera que a ideia seja regulamentada para sair do papel.
5º maior datacenter do Brasil em construção
A cidade de Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba, em São Paulo, sediará o RiverHook Village 18, um campus de data center hiperescalável projetado para figurar entre os maiores empreendimentos de infraestrutura digital da América do Sul.
O projeto, com investimento de R$ 5 bilhões, prevê a ocupação de um terreno de mais de 500 mil metros quadrados às margens da Via Estrutural e promete ser o 5º maior do Brasil. O equipamento terá capacidade instalada inicial de 150 megawatts (MW), com possibilidade de expansão para até 300 MW.
A notícia da construção chegou à população pelas redes sociais do prefeito, Ricardo Piorino (PL) e do portal da prefeitura, em 28 de abril de 2026. As obras estavam previstas para iniciar em outubro. Tudo certo. Menos o impacto ambiental e as contrapartidas previstas para esse tipo de projeto, cujos estudos ainda não estão disponíveis.
A falta de transparência levou moradores do Vale do Paraíba Paulista a acionar o Ministério Público de São Paulo, questionando a instalação e apresentando uma petição para a paralisação do projeto. O pedido aponta que, até o momento, não foi divulgada nenhuma informação oficial sobre o processo de licenciamento deste empreendimento, nem foi realizada qualquer metodologia de consulta à população.
A principal preocupação é a pressão que o equipamento geraria na demanda por energia da região.
O Village 18 terá resfriamento sem consumo de água, com o objetivo de que ele não seja uma ameaça tão direta aos recursos hídricos. O sistema adotado opera como o resfriamento do motor de um carro: um líquido refrigerante circula em tubos selados, absorvendo calor diretamente dos processadores e dissipando-o por meio de um trocador de calor externo, sem jamais entrar em contato com o ar livre e sem evaporação.
A solução elimina as torres de resfriamento evaporativas tradicionais, que consomem milhões de litros de água por ano em grandes instalações. Isso faz com que haja economia de água, mas pode aumentar o consumo de energia.
A conta fica no território
O funcionamento do data center a plena carga pode consumir, sozinho, o mesmo que toda a indústria de Pindamonhangaba.
Considerando a potência inicial do projeto de 150 MW, o data center consumiria em torno de 1,3 milhão de MWh durante o ano, o mesmo que todas as unidades industriais do município consumiram em 2024, segundo dados da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo. O consumo ainda representa quase 9 vezes mais do que o consumo residencial anual total da cidade. Na fase de expansão, com capacidade aumentada para 300 MW, a demanda por energia pode superar o consumo atual das casas em até 17 vezes.
Além disso, o circuito fechado economiza, mas não zera o uso de água. Não só o líquido refrigerante precisa ser abastecido e trocado de tempos em tempos, como a água também é usada para a geração de energia por hidrelétricas, para a fabricação dos chips que compõem o equipamento, assim como para a manutenção e limpeza. Ou seja, mesmo que o resfriamento não precise de água, a pressão sobre o recurso ainda vai aumentar.
Somadas, a alta demanda por energia e água pode comprometer o abastecimento e aumentar as contas da população. O Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) aponta que, sem regras, o custo de aumentar o consumo elétrico vai para as tarifas de todo mundo. Por exemplo, o instituto cita os Estados Unidos, onde os data centers causaram recordes de demanda energética e fizeram com que a conta de luz de residências e pequenos negócios ficasse mais cara.
Quem atende o aumento da demanda energética
A eletricidade que vai abastecer o data center vem do Sistema Interligado Nacional (SIN), ou seja, não precisa ser produzida em Pindamonhangaba. Mas a demanda cresce, e alguém precisa suprí-la. Até porque, o Village 18 não é o primeiro, nem o único equipamento do tipo chegando no país.
Isso significa que quando as hidrelétricas não derem conta desse boom de data centers, em algum lugar, mais uma termelétrica vai ser construída.
O próprio projeto paulista prevê, numa segunda fase, a possibilidade de gerar energia no próprio local. Na prática, isso significaria pequenas termelétricas dentro do terreno.
A proposta toca em uma disputa familiar da região. Por cerca de três anos, moradores e organizações do Vale se mobilizaram contra a instalação de uma mega usina termelétrica em Caçapava.
Por gerarem energia com a queima de combustíveis, as termelétricas podem elevar a poluição do ar pela emissão de óxidos de nitrogênio e material particulado fino (PM2,5), ligados à asma e ao câncer. No Vale do Paraíba, o problema pesa mais. Encaixada entre a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira, a região tem dispersão de poluentes prejudicada. Foi esse o argumento, aliás, que ajudou a barrar a usina de Caçapava, cujo processo de licenciamento foi arquivado pelo IBAMA.
A preocupação atinge também quem planta. Os projetos do IPESA estão presentes no Vale há pelo menos duas décadas, incluindo programas de agroecologia, sustentabilidade, saneamento rural e conservação ambiental. Nos assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Tremembé, vizinha de Pindamonhangaba, agricultores que praticam agroecologia e participam do nosso projeto de educação agroflorestal demonstram receio com a distribuição de água.
Salvaguardas ainda não chegaram
Hoje não há, no Brasil, regulamentação de licenciamento ambiental específica para data centers. Quando a atividade entrou nas normas, as instalações eram pequenas e de baixo impacto, e por isso podiam ser licenciadas por autodeclaração. Segundo o coletivo Mulheres pelo Clima do Vale do Paraíba, a própria empresa anunciou que a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) indicou esse caminho para o Village 18. Até agora, o único documento emitido pela prefeitura é a certidão de uso e ocupação do solo.
O Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata – PL 278/2026), sancionado em setembro, não fecha essa lacuna. O texto não proíbe diretamente o uso de combustíveis fósseis e organizações como o Idec, o Instituto Terramar e a Coalizão Direitos na Rede cobram a análise de impactos cumulativos, já que vários projetos são previstos para a região. Campinas, Jundiaí e a região metropolitana de São Paulo acumulam anúncios de novos data centers. E é um maior que o outro.
Enquanto as salvaguardas ambientais para os data centers são apenas uma promessa no plano de governo, de nada nos servem. Precisamos que a regulamentação do Redata, com ampla participação da sociedade civil, saia do papel. Assim, o projeto de soberania digital nacional se torna viável sem que o custo seja o direito constitucional ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, à vida, à saúde e à dignidade da pessoa humana.
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