Dentro do universo fotográfico em que estou envolvido desde 1992, uma das atividades que mais me atrai é garimpar imagens e olhares dos grandes mestres da fotografia, (aqueles que faziam mágicas com simples caixas-pretas e negativos de vidro), de lugares que já passei, e comparar dentro das discrepâncias temporais, o que mudou, o que nada criou, o que o ser humano transformou. E Marc Ferrez foi um destes artistas do documento impresso, que o Brasil viu percorrer sobre seu solo. Nasceu no Rio de Janeiro em 1843, apenas quatro anos após a fotografia ser oficialmente inventada pelo francês Louis Daguerre (apesar de um outro francês, Hercules Florence, ser considerado o pai da fotografia). Começou a fotografar nos seus tenros vinte e poucos anos, e em 1867 foi contratado como fotógrafo oficial da Marinha Imperial.
Sua predileção por paisagens se intensificou e o consagrou ao se tornar membro da Comissão Geográfica e Geológica do Império, e a formar o acervo mais rico de imagens do Brasil, sem paralelo com outros fotógrafos. Suas fotos são de uma beleza natural ímpar, imprimindo lugares muitas vezes despercebidos por nossa frenética agitação moderna, como a curiosa foto do Corcovado sem o Cristo Redentor! Imagino ironicamente as novas gerações cariocas e hordas de turistas admirando esta imagem, não permitindo que seus inconscientes da memória possam aceitar um Corcovado sem a eternizada estátua.
Ferrez, no entanto, e como a grande maioria dos fotógrafos da época, se tornou grande retratista, principalmente dos membros da família imperial brasileira, mas também se enveredando para o registro dos olhares enigmáticos dos índios bororos e cenas comuns dos mercados e mercadores. Apesar das parcas possibilidades tecnológicas, inovou ao utilizar flash de magnésio para iluminar as minas de Morro Velho, em Minas Gerais, e a produzir as maiores chapas coloidais panorâmicas do mundo, com cerca de 1,20 m
Suas fotos do Rio de Janeiro nos trazem a nostálgica beleza da Baía de Guanabara, de praias desertas abençoadas pelo Pão de Açúcar (sem bondinho!), as centenárias palmeiras imperiais do Jardim Botânico e a Praia de Ipanema com vista do Morro Dois Irmãos. Doces tempos idos aqueles em que a única coisa perdida era o olhar sobre o mar calmo e deserto.
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