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O desmatamento não escapa nem das revistas de bordo

Feitas para passar o tempo, as entretidas páginas da publicação da Air France traz, entre anúncios de relógios caros, um libelo contra a degradação do Pantanal e da Amazônia.

10 de outubro de 2007 · 19 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

“Olha o Rio Amazonas!” diz, em voz alta, a passageira da poltrona 16F, mal o Airbus decola de Milão, rumo aos Alpes italianos, envoltos em nuvens de tempestade. Não, ela não vira miragem. Estava, simplesmente, de olho pregado na revista de bordo. E, de fato, a Air France Magazine, número 126, dedica nove páginas ao Brasil – espaço de sobra para reabastecer instantaneamente o ufanismo daquela brasileira que, tudo indica, trazia para casa as saudades adquiridas durante as férias na Europa.

Melhor assim. Sem prestar maior atenção ao texto da jornalista Elisabeth Leclerc, publicado em francês e inglês, ou mesmo às fotografias de Yann Arthus-Bertrand, escancaradas em páginas duplas, ela nem notou que, por baixo do título “Brasil, terra de água”, havia um libelo contra nossa imprudência ambiental. E libelo é coisa rara de se encontrar entre anúncios de relógios Vaucheron Constantin, guias dos “melhores pequenos hotéis do mundo” ou reportagens do gênero “Dez bons motivos para visitar Kiev”.

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Arthus-Bertrand é mais conhecido como paisagista. Fotografa, sempre, a terra vista do alto. A quem o nome não diz nada, talvez lhe sirva de apresentação a capa, exposta há anos em vitrines de livrarias, em que uma clareira forma um coração no meio de uma floresta da Nova Caledônia. Até no Saara ele conseguiu flagrar, da cesta de um balão, a presença da vida no deserto, pela sombra de uma caravana que o sol baixo projeta nas dunas vermelhas.

Mas a Amazônia ele pegou pelo avesso. Fora a clássica fotografia aérea de abertura, com o labirinto fluvial serpenteando na selva até onde o horizonte se dissolve em calor e umidade, o resto é uma paisagem onde a natureza está faltando. Há o rio, “perto de Manaus”, atravancado por troncos que bóiam a caminho das serrarias. O Pantanal, resumido ao arabesco que as patas dos bois desenham no chão. E a desolação de um garimpo em Poconé, onde o solo não passa de barro gretado.

Revista de bordo, como se sabe, não é feita para incomodar ninguém. Isso, os aviões cada vez maiores e as poltronas cada vez menores fazem melhor do que qualquer jornalista. Na mesma edição, a Escócia e até o Yunnam, o ermo da China “mais próximo do paraíso”, oferecem um doce consolo à imagem lúgubre da Amazônia, descrita por Elisabeth Leclercq como lugar condenado pela conspiração de avarezas que é o atual modelo de desenvolvimento regional. “A indústria florestal”, diz ela, “penetra o coração da selva e ameaça os ecossistemas”.

Ela conta que, em 40 anos, 17% da floresta já caiu. E que, “nesse ritmo”, pelo menos 40% terão sumido até 2050. “O desflorestamento pouco beneficia a população local”, segundo Leclercq. “Serve principalmente para abrir terras para a o cultivo agrícola a baixo custo.” No Pantanal, a exuberância das 650 espécies de aves e 250 de peixes “está ameaçada pela superpopulação dos pastos, a introdução de gramíneas exóticas e a derrubada das florestas periféricas”. O garimpo contaminou os rios “com 5 mil toneladas de mercúrio”. E por aí vai. Como diria a passageira da 16F, chegamos lá.

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