De Paulo Roberto Ferreira, Professor – Penápolis – SP
Sr. Editor:
É surpreendente a cegueira de todas as instituições ligadas à questão ambiental no Brasil, principalmente aquelas que monitoram o desmatamento constante das áreas ainda preservadas da Floresta Amazônica. Sabem que o desmatamento está aumentando, monitoram a retirada da madeira nobre (um dos produtos agregados ao desmatamento), culpam as madeireiras, fazem alarde diante da ineficácia governamental frente à devastação, mas teimam em não enfocar o problema na sua raiz.
Sou paulista, vivo no devastado interior caipira do estado de São Paulo, convivo com a depredação das reservas de Mata Atlântica e Cerrado desde quando me conheço por gente e nunca vi uma ação que realmente fosse eficaz contra o verdadeiro fulcro do problema. Sei que o crescimento populacional do país é o responsável pela devastação ambiental que toma de assalto nossas reservas naturais. Sei, também, que há um fluxo histórico de habitantes dos estados da Região Sul para Centro-Oeste e Norte do Brasil. Há tempos acompanho a migração dos filhos de gaúchos, catarinenses e paranaenses para as regiões ainda não “tomadas” da Natureza para o assentamento humano. Essas famílias, cada vez em maior número, deixam seus estados natais e rumam para as extensas áreas sem habitantes do Centro-Oeste e Norte do país, comprando por ninharias grandes extensões ainda cobertas pela floresta. Para tomarem conta das áreas, onde vão para criar gado ou plantar lavouras, derrubam a mata, fazem queimadas, depredam mananciais, agem como se estivessem acima da Lei, com a conivência das instituições que deveriam impedir a devastação. Nada há que se faça para poder convencer os novos “colonizadores” da ameaça que eles representam para toda a humanidade que depende dos sistemas ecológicos brasileiros.
Precisamos mudar o discurso, senhor editor. Deixar de culpar as madeireiras apenas (bastaria um decreto governamental coerente para erradicar todas as madeireiras da região a ser preservada até que se faça um balanço do tamanho da devastação que elas já causaram e da viabilidade da exploração equilibrada dos recursos naturais por estas empresas, que não possuem a menor ética cidadã), passar a focar o problema pela sua vertente mais verdadeira: impedir que os filhos dos gaúchos arrebentem o pulmão do mundo com sua egoísta busca de um “lugar ao sol”. É preciso ouvir a voz da experiência que aconselha mais cuidado na cessão de direitos de exploração, seja para quem for. A Amazônia corre o risco de acabar por culpa da idiotia da opinião pública brasileira, que culpa as serrarias pela devastação de áreas que são capazes de oferecer recursos madeireiros que elas não esgotariam em tão pouco tempo como se as acusa de estarem esgotando. Mas, como dar vez e voz a cidadãos que estão deixando seus estados onde não podem mais ficar porque suas áreas não comportam mais divisões agrárias?
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