Reportagens

Uma castanha brasileira que ajuda a proteger o Cerrado

Com produção de baru, cooperativa situada no noroeste de Minas Gerais fortalece agricultores locais e gera renda aliada à conservação

Vinicius Nunes ·
29 de maio de 2026

Ao chegar na casa de Adão (59) e Luísa (56), logo nos deparamos com uma árvore grande na entrada. Na paisagem do Cerrado mineiro, além de um ótimo provedor de sombra, aquele baruzeiro simboliza a principal fonte de renda de todos os 44 moradores naquele assentamento: a castanha de baru. 

Distantes cerca de 650 quilômetros de Belo Horizonte, no noroeste de Minas Gerais, os moradores do município de Arinos aliam os saberes tradicionais, geração de renda, segurança alimentar e a conservação da biodiversidade do Cerrado por meio da Cooperativa Regional de Base na Agricultura Familiar e Extrativismo Ltda – COPABASE. E no centro dessa iniciativa, tal qual o quintal de Adão e Luísa, está o baru.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Nativo do Cerrado, o baruzeiro (Dipteryx alata) conquistou espaço no mercado alimentício devido ao alto valor nutricional das castanhas no interior dos seus frutos. Trata-se de uma noz rica em proteínas, fibras, ácidos graxos e minerais. Numa história digna de patinho feio, a planta, antes tida como mera composição de paisagem do Cerrado, hoje se tornou peça-chave para a produção e renda de agricultores familiares na região. Em 2025, a COPABASE produziu 12,5 toneladas de baru. No ano passado, o mercado global de baru foi avaliado em 420 milhões de dólares

A convite do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) – que apoia a cooperativa a partir do projeto COPAÍBAS –, ((o))eco conheceu o trabalho realizado na região, que abrange o mosaico ambiental Veredas-Peruaçu, localizado entre os estados de Minas Gerais e Goiás. O cenário integra a paisagem eternizada por Guimarães Rosa no livro “Grande Sertão: Veredas”, que completa 70 anos de sua primeira publicação em maio deste ano.

Paisagem eternizada por Guimarães Rosa no livro “Grande Sertão Veredas” que completa 70 anos de sua publicação. Foto: Yuri Cruvinel/FUNBIO

A COPABASE foi criada em 2008. Luiza faz parte desde 2010, e Adão, vendo o sucesso da esposa, decidiu se filiar oficialmente no começo desse ano. Hoje ela conseguiu garantir sua aposentadoria guardando as notas fiscais da COPABASE, enquanto Adão espera conquistar esse direito o quanto antes.

Embora trabalhassem com o extrativismo de baru há trinta anos, o casal relata que arrecadava muito pouco. A demanda física, somada aos gastos com deslocamento e transporte, tornavam esse comércio uma árdua operação. Antes da cooperativa, sua fazenda trabalhava com uma agricultura essencialmente de subsistência – produziam milho, feijão, acerola, e parte da produção era consumida pela família e o excedente da colheita era negociado. “Vender de porta em porta era muito mais difícil”, lembra Adão.

A técnica agrônoma da cooperativa, Anny Caroliny Pereira, ou simplesmente Carol, como prefere ser chamada, explica que o principal suporte da COPABASE está na estruturação da produção e na missão de garantir autonomia de serviço. O apoio vai desde a orientação sobre poda, controle de pragas, até mesmo na disponibilização de maquinário, como micro-tratores ou roçadeira para o descasque da castanha de baru. Em termos estratégicos, um dos principais auxílios está no cuidado da cooperativa em enviar uma equipe própria para buscar os produtos nos assentamentos, economizando tempo, gasolina e recursos dos agricultores. 

O assentamento onde ficam Adão e Luiza possui 49 hectares. Um mapeamento feito pela própria COPABASE contabilizou 500 baruzeiros em seu lote de terra. “hoje eles são um exemplo do extrativismo do baru e coquinho”, conta Carol. Ela afirma que as remessas do casal nos últimos anos tiveram uma média de 140 quilos de baru entregues por mês, e 600 quilos de coquinho azedo (Butia capitata) em 2025 – este último que também é fruto nativo do Cerrado, e usado essencialmente para a comercialização de polpas de frutas.

A renda associada às espécies nativas do biomas traduz-se em mais Cerrado de pé. “Dentro do assentamento, outros vizinhos deixam de derrubar os coquinhos por saberem que Adão e Luiza vão colher os frutos. Esse diálogo trouxe uma segurança”, avalia Carol.

O aumento da demanda da cooperativa pelo baru, coletado e vendido por pequenos agricultores locais, também alterou as dinâmicas com os grandes fazendeiros do entorno. Antes, Adão lembra que ele e outros do assentamento tinham liberdade para entrar nos terrenos vizinhos e coletar o baru caído das árvores. Hoje, os proprietários cobram taxas pelo serviço. 

Antes da valorização da castanha, o baruzeiro era visto como apenas uma árvore que compunha a paisagem do Cerrado. Sua madeira era usada na construção de casas, móveis e currais. A castanha até era usada para produção de paçoca, mas apenas para consumo interno. “Hoje eles reconhecem que a árvore viva, em pé, tem mais valor do que quando é derrubada”, destaca Carol.

A comercialização da castanha de baru vai além das fronteiras de Arinos. O status de um “super-alimento” tornaram a demanda internacional cada vez maior. Em 2025, a COPABASE alcançou um novo patamar, com o sinal verde para exportar baru para países da União Européia e Estados Unidos. “Eles abrem o acesso ao mercado privado e tudo isso gera mais renda para o cooperado”, reforça Paula Ceotto, gerente de projetos do FUNBIO que lidera o COPAÍBAS.

Produção diversificada

Além da extração do baru, a cooperativa trabalha com o fomento de Sistemas Agroflorestais (SAFs) voltados para um manejo sustentável da terra. A colheita é usada principalmente para a produção de polpas de frutas congeladas, comercializadas entre as cidades vizinhas de Arinos, no noroeste mineiro.

Os SAFs valorizam frutos nativos do Cerrado como a mangaba, cagaita, coquinho azedo e araticum. Além de outras frutas muito comercializadas como maracujá e goiaba.

Haroldo Barbosa (63) aderiu ao modelo das SAFs ainda em 2014, cinco anos depois de aderir à cooperativa. Além de ter aumentado sua renda, o agricultor revela a importância de manter a área preservada. “Eu não desmatei porque onde a gente vive, a gente precisa caçar árvores para se refrescar do calor, entende? A gente não tem o direito de piorar a terra”, reflete.

Com seu micro-trator fornecido pela COPABASE, Haroldo consegue coletar mais de 12 toneladas de goiaba no ano. “Esse aqui (o micro-trator) foi uma mão na roda”, brinca. Além das frutas, ele cultiva açafrão, feijão, cria porcos e galinhas para sua família. Apesar da demanda física do trabalho, ele celebra a capacidade de garantir seu próprio sustento. “Hoje eu mal vou ao mercado, compro muita pouca coisa”, diz.

Desde os anos 1990, Haroldo integra o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Segundo ele, o trabalho de organizações como a COPABASE trazem dignidade, e ajudam a potencializar a capacidade de comercialização dos cooperados. A diversidade de frutos produzidos garante que haja uma renda distribuída ao longo do ano, num modelo que traz segurança financeira e alimentar para os mesmos, conta o agricultor.

O agricultor Haroldo, ao lado da agrônoma Carol. Cooperativa ajuda a promover agroecologia na região. Foto: Yuri Cruvinel/FUNBIO

Caminhos para a expansão

Dionete Figueiredo, gestora da cooperativa, explica que, com maior estruturação financeira, foi possível expandir sua capacidade de produção e dar as garantias necessárias para quem trabalha junto com a COPABASE. “Antes demorava ali uns três meses para pagar, a gente era muito pequenininho e não tinha capital de giro. Hoje a gente já consegue acessar mais mercado, estamos  conseguindo vencer essas barreiras”, celebra.

A cooperativa possui uma sede no Instituto Federal (IF) de Arinos, onde também está localizada sua fábrica de polpa de frutas. Em 2024, as obras da sede foram ampliadas a partir da parceria com o COPAÍBAS/FUNBIO. São 19 funcionários na COPABASE, e seis na fábrica. Diante de desafios crônicos como o êxodo rural, Dionete frisa que a sede situada no IF permite aproximar a juventude do trabalho realizado pela cooperativa. Durante o período letivo, estudantes de agronomia, por exemplo, estagiam por lá.

De acordo com a gestora, a cooperativa muitas vezes faz o papel do Estado, como por exemplo, na assistência técnica aos agricultores. “Se dependesse disso para produzirem, não teríamos cooperados”, aponta.

Diante do  potencial de expansão e a crescente demanda por produtos cobiçados como o baru, Dionete reforça que é preciso preservar aquilo que ela afirma como princípios cooperativistas. “A COPABASE não nasceu com o propósito meramente econômico. Se você só vai com a visão capitalista, você se perde”. O foco está em manter a relação sadia com o cooperador. “O cooperativismo só se justifica quando os produtores se sentem participantes”, completa Dionete.

  • Vinicius Nunes

    Cientista Social pela FGV/CPDOC e estudante de Jornalismo na ESPM-Rio. Entusiasta da pauta ambiental, política e esportes.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Reportagens
23 de março de 2026

A força da sociobiodiversidade que mantém o Cerrado em pé

Central de cooperativas une distintos biomas para levar produtos da roça a mercados no Brasil e exterior

Clima à Mesa, Reportagem 1
Reportagens
17 de março de 2026

Velhos sabores – ou uma conta que não fecha

((o))eco escutou especialistas sobre as assimetrias das políticas públicas de investimento no campo e questionou seus impactos ambientais em um mundo que não para de aquecer

Reportagens
29 de outubro de 2025

Cupuaçu reinventado: RECA eleva produção do fruto amazônico com Sistemas Agroflorestais

Cooperativa de Nova Califórnia (RO), na Ponta do Abunã, apresenta safra recorde e fortalece a economia da floresta em pé com inovação local

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.