Em seis hectares e com um rio no meio, um produtor rural do Paraná pode receber até R$ 800 ao mês e manter sua propriedade preservada e dentro da lei. Hoje, uma pequena propriedade convencional não rende ao agricultor paranaense R$ 500 mensais, segundo o último senso do IBGE. Não há mágica.
Exemplo: em seis hectares, planta-se a Reserva Legal de 1,2 hectare e a Mata Ciliar, de 1 hectare. Nos outros três hectares, 80% de exóticas e 20% de nativas. O quase 1 hectare restante é para a habitação, circulação e plantio de alimentos de uso familiar. Contando um período de 30 anos, haverá dois ciclos de madeira para corte e renda através do seqüestro de carbono, dentro do Protocolo de Kyoto. Em 30 anos, a renda da madeira será de R$ 200 mil e a renda do seqüestro de carbono, de R$ 45 mil. No total, R$ 245 mil, o equivalente a R$ 800 ao mês. Um incremento médio de 60% sobre os ganhos históricos de propriedades semelhantes.
No Paraná, 86% das 375 mil propriedades existentes são de até 50 hectares. Falo então, de 322 mil propriedades. Não é pouco. Além disso, a ecologia ensina que, quanto mais equilibrado, mais produtivo é um ecossistema.
Uma propriedade com pouca cobertura vegetal submete-se a ventos mais velozes. Os ventos fortes alteram o regime das chuvas. Com as chuvas alteradas, modificam-se as temperaturas locais. A conseqüência é um microclima absolutamente caótico. Também a pouca cobertura vegetal provoca a erosão. Pelos ventos e pelas chuvas, o precioso solo e seus minerais esvaem-se para dentro das águas. O solo torna-se pobre e o rio fica assoreado. As águas barrentas impedem a entrada da luz solar. No escuro, as plantas aquáticas desaparecem e com elas os peixes herbívoros. Logo depois, os carnívoros.
Na ânsia de recuperar o solo, o agricultor gasta mais dinheiro com fertilizantes. Na tentativa de proteger-se de pragas que sobrevêm com os desequilíbrios, gasta também com agrotóxicos. Não é por acaso que, na região noroeste do estado, já se encontram níveis de nitrato no subsolo 80 vezes maiores do que o máximo permitido! Nestas inimagináveis quantidades, os nitratos podem ser cancerígenos.
Assim, o agricultor perde duas vezes: perde recursos naturais (solo, água, peixes) e quando gasta mais para repor o que se deixou perder. A propriedade produzirá ainda por muitos anos, mas, a que preço? Continuará existindo ainda, mas, por quanto tempo?
Todavia, lucro não é só dinheiro. Ele pode ser também uma maior longevidade. Viver mais e viver bem talvez seja o lucro maior da existência humana. Como, entretanto, manter esta perspectiva em um microclima afetado sob agonizantes nuvens de agrotóxicos e fertilizantes?
Lucra-se também quando se economiza. E pode-se economizar com médicos, exames, remédios, pulverizadores, fertilizantes, agrotóxicos, equipamentos de proteção individual, menos dias de trabalho perdidos, quando se trata de viver no campo sob uma opção diferente. Até porque a economia é causa e conseqüência de uma vida saudável.
Assim, não só por uma visão ambientalista (o que já bastaria), mas até por uma lógica capitalista, preservar dá lucro. Hoje, o Paraná alvoroça-se sob o calor das chamas de uma discussão estéril: a criação de áreas de preservação de florestas, que pretendem garantir pouco do muito que já se foi.
Até quando vamos imaginar que a quebra da safra deste ano e do ano passado é obra do acaso? Já passou da hora de se constatar que devemos recompor parte do original equilíbrio natural do estado, se não quisermos o Paraná somente para agora. Se o Dia Mundial do Ambiente servir para esta reflexão, ele já terá valido a pena. Afinal, queremos o Paraná para hoje e para sempre.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Projeto que barra fiscalização ambiental remota ganha urgência na Câmara
Associação de servidores emite nota expressando preocupação. Ibama tem apenas 752 agentes para atender universo de mais de 100 mil alertas por ano →
Talvez o sertão não vire mar, mas o litoral brasileiro já está virando
Quando a vegetação costeira desaparece e a urbanização avança até a linha da praia, não é apenas o ecossistema que se fragiliza →
Fiscais do Ibama sofrem emboscada durante operação contra madeira ilegal no Amazonas
Servidores foram atacados e tiveram o veículo incendiado durante operação na Terra Indígena Tenharim-Marmelos, em Manicoré →



